Crítica | Anjos Caídos (2019) #1: Bushido

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes e, aqui, as críticas de todas as edições #1 da Primeira Onda de Dawn of X.

Extraindo o título e o conceito básico que reuniu mutantes “desajustados” em uma minissérie spin-off de Novos Mutantes em oito edições publicada em 1987, Anjos Caídos (Fallen Angels) é o último título da Primeira Onda da fase Aurora de X (Dawn of X) de Jonathan Hickman e o que tem sua premissa mais distante de toda a construção geopolítica trazida em House of X e Powers of X, mais distante ainda que Excalibur, o que de forma alguma é um defeito. Na verdade, é uma qualidade, pois nem tudo precisa necessariamente ter conexão tão estreita assim com Krakoa e com a Nova Ordem Mutante, por assim dizer.

Mas fiquem tranquilos, pois essa primeira edição também não é completamente desconexa de tudo o que foi erigido. Ao contrário até, não só temos a confirmação de que Charles Xavier realmente “morreu” no final de X-Force #1, estabelecendo a primeira grande conexão intra-títulos, como vemos Magneto comandando tudo despoticamente quando Psylocke – Kwannon assumindo de vez o nome da “fusão” de Betsy Braddock com seu próprio corpo (se não sabe nada disso, nem precisa tentar entender) – parte para pedir permissão para sair da ilha viva em razão do consequente fechamento dos portais depois do atentado. Ou seja, a narrativa jamais perde de vista o status quo atual da Nação Mutante, mas parte para uma história que parece não conversar diretamente com ele, mas sim com a vida pregressa da protagonista.

E o que Psylocke quer do lado de fora da ilha? É aqui que as coisas realmente ficam interessantes e muito misteriosas. Para começar, há um intrigante e quase que completamente ininteligível prelúdio em que vemos uma jovem com tatuagem de borboleta, depois de conectar um aparelho na cabeça, ser “possuída” e provocar um gigantesco acidente de trem no Japão que me lembrou muito o Sr. Vidro em Corpo Fechado. Corta para Krakoa e vemos Psylocke meditando quando recebe uma mensagem telepática de alguém – ou algo – que não se identifica dizendo que ela precisa sair dali para enfrentar um “deus”. É essa mensagem e sua convicção de que há verdade por trás dela que a leva até Magneto para pedir para sair e que, por sua vez, a redireciona ao Sr. Sinistro para que ela possa burlar as determinações do próprio Mestre do Magnetismo.

Somente depois que ela finalmente chega ao Japão levando X-23 a tira-colo que o preâmbulo começa a fazer sentido, com a revelação da existência de uma droga cibernética batizada de Overclock que foi proibida no mundo todo, mas cuja natureza permite que qualquer um com habilidades técnicas a monte a partir de peças facilmente encontráveis no mercado. É o Overclock que vemos a jovem conectar a seu crânio e causar o acidente de trem, mas a presença de uma entidade desconhecida por trás, que se autodenomina Apoth, estabelece-se como o inimigo central que aparentemente apoderou-se do corpo da filha retconada de Kwannon, e quase que com certeza é o tal “deus” que a voz misteriosa menciona para Psylocke.

(1) A droga cibernética Overclock e (2) Kwannon/Psylocke tendo sua paz violentamente interrompida.

Em termos de estabelecimento de premissa, essa primeira edição é de longe a mais intrigante e a mais potencialmente interessante de todos os títulos desse início da Era Jonathan Hickman. Mas isso por si só não é suficiente para tornar essa HQ a melhor de todos os números #1. E a principal razão para isso é a inabilidade de Bryan Hill em trabalhar organicamente a criação de uma equipe. Para começar, a missão em tese solitária dada a Psylocke por seja lá quem for, uma vez informada ao Sr. Sinistro, o leva a condicionar a saída da heroína da ilha à que ela reúna um grupo, como se o vilão (ex-vilão?) estivesse genuinamente preocupado com a jovem. Essa é a única motivação para que Psylocke aproxime-se de Laura Kinney e Kid Cable, em tese as únicas outras almas conturbadas que não conseguem achar tranquilidade na paz mutante criada por Xavier, Magneto e, secretamente, Moira X. Inquietos, os dois são cooptados por Kwannon, mas só X-23 acaba participando da ação no Japão, com a arte de Szymon Kudranksi encontrando dificuldades para diferenciar as personagens de maneira significativa, tornando-as fungíveis.

Com isso, apesar da premissa realmente interessante, a corrida para montar um grupo qualquer de mutantes “desajustados” é desnecessária e acaba resultando em um pareamento muito artificial por ser mal construído narrativamente. Claro que isso pode ser desenvolvido no futuro, mas essa é justamente a questão: para que a sangria desatada se seria perfeitamente possível construir uma nova equipe paulatinamente, de maneira mais lógica e menos parecida com o alistamento militar obrigatório para pessoas que têm muita vontade de matar e que não gostam de cantar e dançar em volta de fogueiras? Apesar de Kwannon parecer ser uma boa Psylocke e Laura ser a boa e velha Laura de sempre, as duas juntas, aqui, não funcionam bem.

Kudranski tem a responsabilidade de desenhar a  edição mais sombria dessa Primeira Onda e seus traços mais grossos e cheios de sombra funcionam muito bem para passar uma atmosfera densa, desesperançosa e niilista, com até mesmo o paraíso mutante sendo interpretado por esse viés mais carregado, potencialmente a partir do que seria a visão de Kwannon. Frank D’Armata acompanha o artista com cores tendentes ao cinza, mesmo que por muitas vezes usem o roxo, que é a assinatura visual da Psylocke Braddock e que parece que será aproveitado aqui também e que funciona como o maior artifício diferenciador na ação final no Japão entre Kwannon e Laura que, como já disse, é o maior problema da arte nessa edição.

Anjos Caídos #1 convence em sua premissa, mas não na formação da equipe. O bom dessa notícia é que é perfeitamente fazer uma correção de curso em edições futuras, já que a história em si é capaz de fisgar automaticamente seus leitores. Eu sei que eu fui fisgado tanto pelos mistérios, como pela pegada sombria e pela caracterização da nova Psylocke.

  • Obs: Voltarei a Anjos Caídos quando o primeiro arco for finalizado.

Anjos Caídos #1: Bushido (Fallen Angels #1: Bushido, EUA – 13 de novembro de 2019)
Roteiro: Bryan Hill
Arte: Szymon Kudranksi
Cores: Frank D’Armata
Letras: Joe Sabino
Design: Tom Muller
Editoria: Chris Robinson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de novembro de 2019
Páginas: 38

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.