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Crítica | Anjos do Pecado

por Kevin Rick
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Anjos do Pecado, primeiro longa-metragem do cineasta francês Robert Bresson, dispõe do cenário perfeito para o autor apresentar dilemas morais e religiosos que viriam a acompanhá-lo durante toda sua carreira: um convento que reabilita presidiárias. E por que eu digo perfeito? Bem, o crime e a religião caminham em uma linha extremamente tênue da prisão. Pode ser uma prisão dogmática, corporal, de emoções ou simplesmente da lei. Ao utilizar um local inicialmente de sacrífico espontâneo como uma obrigação (e escape) para as presidiárias, o diretor borra o quadro da devoção. O convento se torna uma contradição, como o próprio título alude.

Isso fica bastante claro na maneira que o diretor aborda o confinamento do convento ao longo da obra, com enquadramentos cuidadosos da câmera detalhando corredores frios, paredes brancas e o aspecto secular do cotidiano mundano das freiras. Apesar de contar com uma direção minimalista, Bresson está sempre inserindo imagens “panorâmicas” do convento – constantemente vemos grupos de freiras em salões ou no pátio, por exemplo -, e também a maneira que o cineasta evidencia o descarte de objetos comuns e “vaidosos” como espelhos e roupas, que passam uma sensação de falta de individualidade. Claro que a questão do abandono do particular faz parte dos dilemas de freiras, mas a maneira fria e até enclausurada que Bresson filma seu cenário e suas personagens se distancia de uma convicção ou renúncia por causa da fé, transpondo um sentimento mais próximo de um cativeiro.

Toda essa construção imagética da falta de liberdade do seu microcosmo contraditório se torna ainda mais interessante com o drama das duas protagonistas que acompanhamos ao longo da obra. Por um lado temos Anne-Marie (Renée Faure), que se junta ao convento por livre e espontânea vontade, e por outro lado Thérèse (Jany Holt) que está cumprindo pena por um crime que não cometeu. Ambas personagens não pertencem à localidade, mas elas também estão ali por motivos diferenciados. Dessa forma, o roteiro traz mais algumas camadas complexas de contradição, uma espécie de ironia trágica eu diria, com a narrativa das protagonistas.

Thérèse personifica o drama de várias presidiárias que não querem estar no convento, mas por ser injustiçada e não “favorecida” como o restante das freiras, ela se permite a rebelião e a raiva. Digamos que seu cativeiro é mais compelido. É por isso que seu retorno ao convento (após um evento que não citarei) é tão poderoso em sua mudança de postura. Por necessitar da proteção do convento, ela se resigna às tarefas e às regras religiosas, ressignificando todo o comportamento das outras feiras a seu redor.

No mesmo sentido, Anne-Marie, uma moça supostamente pura de coração e intensões, entra numa espiral de obsessão, hipocrisia e julgamento, como se fosse superior ou uma escolhida divina. Com a personagem, Bresson parece querer debater fanatismo religioso e o uso da crença como pretexto de desejos pessoais. Chega a ser curioso como Bresson consegue adicionar tantas nuances de natureza religiosa e secular em uma trama convencional de melodrama. No fim, neste local superficialmente imaculado, tudo é sobre interesse. Anjos do Pecado.

Tenho, no entanto, alguns problemas com o ritmo do longa. Bresson busca firmeza na simplicidade, com uma narrativa bem delineada e objetiva, até mesmo resolvendo acontecimentos paralelos à trama em elipse para nos retirar o mínimo possível do seu ambiente principal. Tudo isso proporciona uma ótima atmosfera focada no convento, no qual Bresson tem várias sacadas visuais e narrativas para desenvolver os dilemas morais e religiosos que abarcam seu estudo de personagem. Contudo, como é uma obra sustentada por subtexto, simbologias e linhas filosóficas, a história objetiva em si (melodramática e rasa) não tem força o bastante para nos manter engajados com a cadência morosa do autor.

Ainda assim, Anjos do Pecado se mostra um poderoso e interessantíssimo início para uma carreira abarrotada de prestígio. Em suma, a experiência da estreia de Bresson é uma indicação de que não podemos separar nossa espiritualidade da nossa humanidade. Ambos campos se influenciam e se alimentam em uma visão paradoxalmente cínica e autêntica da natureza religiosa. A relação complexa de Bresson com a religião também é vista na beleza austera de cenas punitivas e vulneráveis, como quando as moças deitam no chão de bruços, e a serenidade trágica e conotativa que carrega a obra. Em um desfecho também (positivamente) contraditório, a redenção e a liberdade se encontram na morte e na algema.

Anjos do Pecado (Les anges du péché) – França, 1943
Direção: Robert Bresson
Roteiro: Robert Bresson, Raymond Léopold Bruckberger, Jean Giraudoux
Elenco: Renée Faure, Jany Holt, Sylvie, Mila Parély, Yolande Laffon, Paula Dehelly, Silvia Monfort, Marie-Hélène Dasté
Duração: 86 min.

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