Crítica | Annabelle 3 – De Volta Para Casa

Mesmo com a chegada de seu terceiro filme, muitos ainda não sabem que Annabelle não é uma boneca assassina, tal como Tiffany ou Chucky, personagens da franquia Brinquedo Assassino. Objeto que magnetiza as energias maléficas que assombram os locais onde se encontra, a boneca possui uma origem não muito remota, erguida por meio do desespero de uma família em luto que recorreu ao “maligno” para superar a dor e a ausência de um ente querido. As informações apresentadas em Annabelle e Annabelle 2 – A Criação do Mal tornam-se pertinentes para a compreensão de algumas passagens de Annabelle 3 – De Volta Para Casa, produção que também dialoga com outros momentos da franquia que já está em seu sétimo filme, sem sinal de descanso e com promessa para mais produções nos próximos anos.

Depois de assumir o roteiro dos filmes anteriores do “circuito Annabelle”, Gary Dauberman desta vez também se encarregou da direção de seu próprio texto, escrito em parceria com James Wan. O resultado é positivo, pois na atmosfera criada para a terceira incursão solo da boneca, há maior qualidade que os antecedentes, numa demonstração de amadurecimento do tema e evolução decrescente em termos qualitativos. Partindo da situação de abertura do primeiro filme da franquia Invocação do Mal, acompanhamos o casal Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) em seu contato inicial com Annabelle. Cientes dos elementos obsessores que gravitam em torno do objeto, eles tomam a decisão de carrega-la para o arrepiante e curioso Museu Warren, espaço que fica num amplo quarto, parte integrante do conforto do lar, local que é terminantemente proibido de ser acessado sem a devida autorização por qualquer habitante ou visitante da casa dos Warren.

No caminho, Ed e Lorraine enfrentam uma situação pouco confortável. Um acidente de carro que embaralha um pequeno trecho do trajeto e a subsequente pane no automóvel que carrega no banco de trás a boneca de visual nada atraente. Com a mediunidade cotidianamente aflorada, o casal sente as presenças daquele espaço. É um preâmbulo eficiente para a trama que se estabelecerá mais adiante, após a encapsulação de Annabelle numa caixa de vidro. Parte integrante de um cenário repleto de objetos, a boneca vai liderar um festival de situações diabólicas depois que retirada indevidamente da “redoma que a protege”. Leia-se: ela sai de uma proteção benigna para magnetizar as maldades que ocorrerão ao longo dos 100 minutos de filme.

O que aconteceu, no entanto, para Annabelle ser libertada? A culpa, desta vez, é da pequena Judy (Mckenna Grace). A garota vive uma existência sombria e incomum. Os pais, como já vimos em outros filmes da franquia, midiaticamente enfrentam críticas ferrenhas sobre os seus métodos de investigação sobrenatural. Por esse motivo, a garota sofre algumas perseguições por parte dos colegas de escola, pessoas que a consideram anormal diante de pais e um lar conhecido pelas dinâmicas sobrenaturais. A garota, por sinal, exibe para o espectador uma angustiante mediunidade, mas esconde isso das pessoas que estão diante dela. Na ocasião de seu aniversário, o que deveria ser uma comemoração se torna uma batalha contra as forças do mal que ameaçam a vida de todos.

Os seus pais precisam se ausentar brevemente e ela acompanhada pela babá Mary Ellen (Madison Iseman) e recebe a visita de uma garota que recentemente se aproximou, fazendo-se de “amiga”. Longe de ser uma companhia para a solidão de Judy, Daniela Rios (Kate Sarife) é apenas uma menina curiosa e intrometida que adentra no terreno amaldiçoado da casa para mexer com o que não deve. O resultado desastroso é a perseguição das forças malignas que regem este terceiro filme do universo Annabelle, espaço para a apresentação de outros possíveis personagens a ganhar narrativa solo no futuro.

Ao funcionar como filme de terror que não atende exclusivamente aos fãs do universo de James Wan, Annabelle 3 – De Volta Para Casa é uma produção bem concebida visualmente e narrativamente interessante enquanto trajeto dramático de personagens seguros de suas convicções sociais (religião) e psicológicas (fé). O delicioso e famigerado uso do jump scare ainda é um recurso bastante presente na mixagem sonora assinada por Robert Sharman, mas diferente de alguns outros filmes da franquia, não surge como muleta para sustentação narrativa de uma história demasiadamente fraca, como ocorreu com a aberração cinematográfica que foi o primeiro filme da boneca maldita. Ainda na seara auditiva, ponto importante para os filmes de terror, Joseph Bishara assume a condução musical com os seus habituais instrumentos em contraste, numa agonia sonora perfeitamente cabível para a ideia sombria do filme, algo que o músico não conseguiu na criação de partituras para A Maldição da Chorona.

“Aqui”, ele assume o tom de A Freira, produção defeituosa do universo de Invocação do Mal que ganharia 10 pontos se fosse apenas uma tela preta com a execução da formidável e assustadora trilha sonora. Sua condução adorna o design de produção eficiente de Jennifer Spence, gestora de uma equipe competente, haja vista os figurinos de Leah Butler, ideais para delinear os personagens no tempo-espaço da narrativa, bem como a cenografia de Lisa Son, devidamente calculada para dar o tom ideal para as propostas dramáticas. Quem capta toda essa ambientação é Michael Burgess, diretor de fotografia que investe em bons enquadramentos e movimentos, além de posicionar a câmera em ângulos que nos dão uma dimensão bem geral dos cenários, recurso que aumenta a sensação de temor, afinal, o “mal” pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento, nos surpreendendo. O seu uso de zoons também é outro recurso que deve ser levado em consideração como parte das estratégias narrativas que funcionam bem.

Desta maneira, podemos confirmar Annabelle 3 – De Volta Para Casa como um bom filme de terror. Ele se torna melhor por corrigir a existência da primeira aparição em 2014, uma verdadeira aberração cinematográfica. A produção também ganha por dar continuidade ao teor de qualidade do segundo filme, tornando-se ainda melhor, o que demonstra para os espectadores a possível reflexão dos realizadores em torno do que não deu certo anteriormente. O exercício da autocrítica é algo bastante libertador, principalmente em franquias longevas. Acredito que a presença dos atores Vera Farmiga e Patrick Wilson também seja um dos elementos catalisadores da ampla melhora estética e dramática do universo Annabelle. O lançamento do quarto episódio, creio, seja algo óbvio. Annabelle parece não estar pronta para seu descanso infernal.

Annabelle 3: De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home) — EUA, 2019
Direção:
Gary Dauberman
Roteiro: Gary Dauberman, James Wan
Elenco: Alison White, Bob Telford, Eddie J. Fernandez, Emily Brobst, Katie Sarife, Luca Luhan, Madison Iseman, Mckenna Grace, Michael Cimino, Patrick Wilson, Paul Dean, Sade Katarina, Stephen Blackehart, Steve Coulter, Vera Farmiga
Duração: 106 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.