Crítica | Antes de Watchmen: A Condenação do Corsário Carmesim

Pouca gente se lembra, mas havia uma história “extra” ao final das edições do projeto Antes de Watchmen que espelhava Os Contos do Corsário Negro, a história-dentro-da-história de Watchmen. Publicada nos EUA ao final de quase todas as edições de cada minissérie duas páginas por vez e, aqui, dividido em capítulos um pouco mais robustos, A Condenação do Corsário Carmesim ou, no original, The Curse of the Crimson Corsair, é capitaneada no roteiro e na arte por John Higgins, o colorista da HQ original, com contribuição no roteiro de Len Wein até mais ou menos a metade.

A ideia original era que essa história fosse encerrada no hoje quase mítico “Epílogo” do projeto da DC Comics, mas o relativo fracasso comercial das obras acabou levando a seu cancelamento, o que acelerou o fim da nova história de piratas, hoje disponibilizada online legalmente pela própria editora. Mas o curioso é que, mesmo com os percalços por que passou, A Condenação do Corsário Carmesim segue sendo uma ótima narrativa que, apesar de ter moral quase idêntica à do Cargueiro Negro, sobrevive bem com suas próprias pernas e aguça a curiosidade do leitor para ler o que seria seu verdadeiro fim se não fosse podada antes do tempo.

No novo conto, somos apresentados ao jovem oficial escocês Gordon McClachlan em sua primeira viagem pela Marinha Britânica. Sem perder tempo, o roteiro leva a um embate entre ele e o capitão do navio em razão da aplicação de uma punição severa demais a um marinheiro que tinha apenas bebido uma dupla ração de rum. Prestes a ser violentamente chicoteado por sua tentativa de motim, Gordon é salvo pela campainha quando um navio espanhol ataca o seu, deixando-o como solitário sobrevivente. Há muita coisa de Cargueiro Negro nesse começo, com a narrativa ameaçando seguir como uma cópia do conto que paraleliza os planos de Ozymandias, mas Higgins vai bem além e mergulha em uma trama que coloca Gordon, depois de ser “salvo” pelo Corsario Carmesim, do lendário navio fantasma Holandês Voador, em uma busca por três amuletos que permitirão que ele escape desse purgatório.

Essa caçada leva o marujo para a costa da África, envolvendo-se no mercado escravagista e, depois, para a América Latina, em uma ilha misteriosa onde enfrenta toda a sorte de horrores. Higgins usa demais o artifício de fazer seu protagonista desmaiar e acordar tempos depois em lugar diferente, sendo quase uma espécie de “piada interna” que cansa o leitor tamanha é sua conveniência, mas a história caminha bem, sem poupar o leitor de imagens horripilantes e desagradáveis como a história exige. Dada sua forma original de publicação, por vezes o texto se perde em alguns devaneios e alguns momentos que explicam o que veio antes, mas não é nada que deponha demais contra a experiência que é seguir Gordon pelas entranhas do submundo dos piratas, com direito a muita magia e momentos dignos de filmes de terror de alto calibre.

A arte de Higgins também merece destaque pelo detalhismo que imprime a seus quadros. Tanto as expressões faciais, quanto os panos de fundo que cria são cativantes e muito eficientes em passar emoções ao leitor, com cores curiosamente mudas que por vezes ganham um splash forte para evitar qualquer torpor na leitura. Trata-se de uma daquelas obras em quadrinhos em que a arte consegue superar o texto, valendo uma segunda passada de olhos só para admirar as criações grotescas do desenhista.

A Condenação do Corsário Carmesim deveria ter ganhado mais destaque do que só a rabeira das HQs da série Antes de Watchmen, especialmente considerando que ela não teve o fim planejado. Seja como for, o novo conto de piratas desse Universo de Watchmen consegue ser uma baita história que poderia muito bem um dia ganhar sua própria adaptação animada.

Antes de Watchmen: A Condenação do Corsário Carmesim (Before Watchmen: The Curse of the Crimson Corsair, EUA – 2012/13)
Roteiro: Len Wein, John Higgins
Arte: John Higgins
Letras: Sal Cipriano
Editoria: Mark Chiarello, Will Moss, Camilla Zhang
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: 2012 a 2013
Páginas: 57

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.