Crítica | Antes de Watchmen: Comediante

Nota: Texto baseado em minha crítica anterior de 2013 que foi expandida, remixada e atualizada nessa versão definitiva.

O assassinato de Edward “Eddie” Blake, o Comediante, é o estopim para Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. O personagem nos é apresentado já mais velho, ainda como agente do governo americano para todo tipo de serviço sujo, que descobre – e fica chocado – com o plano de Ozymandias e, ao longo da narrativa, vemos o quanto ele está profundamente envolvido com os personagens que são introduzidos, tanto da primeira quanto da segunda geração de vigilantes. Trata-de um personagem com histórico particularmente violento, sociopático mesmo, mas de grande complexidade em razão do comentário político que sua existência representa.

Brian Azzarello, portanto, foi uma bela escolha da DC Comics para lidar com o personagem em razão de seus trabalhos autorais como 100 Balas e obras de pegada realista como Coringa. Aliás, de todos os autores arregimentados para o projeto Antes de Watchmen, ele foi premiado não com um, mas dois prelúdios dos mais realistas, violentos e perturbados personagens da HQ original: Rorschach e Comediante. No entanto, para minha surpresa, em nenhum dos dois casos a usual qualidade dos roteiros do autor conseguiu tratar adequadamente os anti-heróis de Alan Moore.

O prelúdio do Comediante começa muito bem, contextualizando Eddie Blake em meio a fatos históricos. Ele é amigo da família Kennedy e vive, no primeiro número, eventos que marcaram os Estados Unidos, como o caso de JFK com Marilyn Monroe e, claro, o assassinato do presidente. Apesar dessa inserção do Comediante no meio de um cenário real, de certa maneira mimetizando o que faz Moore em Watchmen, a caracterização do personagem parece estranha, deslocada. Todos sabemos que Blake é um ser corrompido, difícil de lidar e a pose de bom moço que vemos aqui não combina com o que sabemos do personagem. Afinal de contas, nessa época ele já havia estuprado a primeira Espectral, não? É quase que como se estivéssemos lendo um reboot do Comediante com uma pegada ainda cínica, mas consideravelmente mais leve.

No segundo número, a desconfiança de que Azzarello está construindo um personagem diferente do imaginado por Moore se concretiza. Vemos Blake, já alguns anos para frente, indo para a guerra do Vietnã e notamos que os acontecimentos com JFK e durante a guerra começam a moldar o caráter do personagem, tornando-o o que aprendemos que ele é. No entanto, ainda que essa tentativa de mostrar que a “decadência” dos EUA refletida em Blake seja interessante, o fato é que isso acaba depondo contra a compreensão de Azzarello sobre quem é o Comediante. Se ele era bom moço – ou, pelo menos, um não tão terrível assim moço – e foi corrompido com o tempo, então como explicar suas ações junto com os Minutemen originais narradas na obra seminal do mago inglês? 

Seja como for, é partir do Vietnã, sua volta para os EUA e as ações que desencadeia a partir de sua paranoia militarística, que Blake transforma-se completamente, ratificando a estrutura de queda moral dos EUA em oposição à ascensão do anti-herói. Constante e felizmente, pois essa é uma das melhores características da minissérie, vemos o artifício do autor de inserir o personagem em contextos históricos, sejam os protestos contra a guerra do Vietnã e os conflitos raciais que surgiram daí, sejam a violência desmedida contra civis vietnamitas no Vietnã.

É como se Azzarello desejasse transformar o Comediante em uma espécie de Forrest Gump amoral, colocando-o no pano de fundo de diversos momentos históricos para ver como ele reage, sem que as histórias sejam devidamente conectadas, a ponto de mostrar uma evolução mais natural do personagem. Isso acaba gerando uma narrativa mais episódica, tangenciando perigosamente a estrutura de uma história fechada por edição, ainda que, claro, haja uma trágica história macro por trás. Digo “perigosamente” unicamente porque essa não é a proposta de Azzarello muito evidentemente, mas, em razão de suas escolhas, isso acaba inadvertidamente acontecendo.

É interessante notar como o Comediante, aqui, é diferente daquele retratado em Antes de Watchmen: Espectral e Antes de Watchmen: Ozymandias. Nas citadas minisséries, o personagem está muito mais bem inserido no Universo Watchmen do que em sua série solo, além de carregar mais traços de sua versão original escrita por Moore.

A arte de J.G. Jones é, ao contrário do roteiro de Azzarello, muito boa, com belos painéis realistas fugindo da estrutura de nove quadros por página que nos acostumamos a ver no original e, também, em vários prelúdios. Não, há, porém, grandes arroubos de originalidade na disposição dos painéis e, por vezes, há certa desconexão entre o que está sendo dito e o que vemos acontecer. Não é, porém, uma arte particularmente empolgante, daquelas que enchem os olhos ou que empreste mais fluidez aos textos de Azzarello.

Antes de Watchmen: Comediante nos apresenta a um Eddie Blake e não ao Eddie Blake. Tem o seu valor pela detalhada contextualização histórica, por sua crítica social e por dar azo a algumas teorias da conspiração, mas não é dos melhores exemplares de Antes de Watchmen.

Antes de Watchmen: Comediante (Before Watchmen: Comedian, EUA – 2012/3)
Contendo: Before Watchmen: Comedian #1 a 6
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: J.G. Jones
Cores: Alex Sinclair
Letras: Clem Robbins
Editoria: Will Dennis, Camilla Zhang, Mark Doyle
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: agosto de 2012 a junho de 2013
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2013
Páginas: 140

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.