Crítica | Antes de Watchmen: Dollar Bill

Como é que a DC Comics ousou imaginar a série Antes de Watchmen sem contemplar uma história sobre Dollar Bill, o membro dos Homens-Minuto – ou Minutemen, no original – que se veste com um enorme de cifrão no peito e que famosamente morre crivado de balas quando, ao tentar impedir um assalto, sua capa fica presa na porta giratória do banco que protege? Essa sequência na obra seminal de Alan Moore é de uma genialidade ímpar, pois, muito brevemente, mostra a futilidade dos esforços dos pseudo-heróis e, principalmente, serve como forte crítica aos pouco práticos uniformes que vemos em revistas todos os dias.

Mas, voltando a Dollar Bill e já deixando claro que minha pergunta acima foi sarcástica, a proposta de Antes de Watchmen é criar panos de fundo para cada um dos heróis (e um vilão) criados por Moore em uma tentativa polêmica de se arrancar dinheiro do leitor. No entanto, mesmo que alguns torçam o nariz para a proposta, deixar uma propriedade rica como essa parada não é algo normal para uma editora mainstream e, verdade seja dita, a DC até explora pouco esses personagens e esse singular universo, ainda que Doomsday Clock tenha finalmente o reunido ao universo principal (até segunda ordem, claro).

Portanto, o que para Alan Moore e muitos leitores pode ser um sacrilégio (bem, basicamente tudo para Moore é um sacrilégio, então não conta…), eu vejo como uma mais do que esperada monetização de propriedades interessantes. Sempre haverá a obra original aos que se recusarem a ler ou odiarem o que leram, pelo que não há um verdadeiro mal nessa empreitada.

Dollar Bill, no entanto, não fazia parte do projeto original de Antes de Watchmen e sua história é como o caça-níquel do caça-níquel, a verdadeira raspa do tacho graças ao sucesso dos prelúdios aliado ao fato que alguns sofreram grandes atrasos, levando a DC a encomendar séries-tampão (Moloch é outra). A função do personagem objeto deste one-shot em Watchmen é ilustrar uma tragédia e permitir que Alan Moore destilasse seu veneno. Sua história pregressa não importa e não deveria ser importante. Moore não nos dá muitos dados sobre o personagem, mas isso não significa que precisamos saber cada detalhe de sua vida para ficarmos satisfeitos.

Len Wein, editor da graphic novel original, parece inspirar-se nas origens dos personagens da Era de Ouro, investindo na simplicidade, mas corretamente mantendo um ar cínico que perpassa toda a narrativa. Assim, o que vemos é muito familiar a leitores de quadrinhos de longa data: Bill Brady é um atleta bonitão que vê seu futuro no futebol americano profissional ser destruída por uma jogada que o afasta do esporte antes de ele ser descoberto pela liga principal. Sem emprego, sem qualificação e desesperado, ele aceita o papel ridículo de garoto propaganda do National Bank, comandado por cincos seres que, não por coincidência, se parecem com os irmãos Marx. O único detalhe é que, para ter o emprego, ele tem que aceitar se vestir com um uniforme espalhafatoso e fazer parte de anúncios de TV performando heroicamente como o super-herói que ele não é, muito na linha do que acontece na origem do Capitão América, mas com a diferença de que nem passar por um experimento transformador Dollar Bill passa. O que vem a seguir é sua relutância em agir como herói, sua transformação em herói ao juntar-se aos Minutemen e, claro, seu final fatídico.

Não é uma história particularmente original e nem é para ser, na verdade, pois Wein quer justamente é brincar com nossas expectativas. Temos, aqui, um personagem que se “transforma” em super-herói unicamente por dinheiro e morre estupidamente justamente quando ele veste seu manto. É uma tragédia shakespeareana em 27 breves páginas ilustradas por Steve Rude que funcionam bem para criar uma história compatível com esse personagem, ou seja, sem complicar muito, mas também sem fugir de críticas às escolhas dos personagens desse universo muito particular criado por Moore.

A arte de Rude são o ponto alto da publicação, vale afirmar. Estilizando sua arte para combinar com a pegada Era de Ouro de Wein, Rude arrasa com suas linhas fortes e bem marcadas e quadros geniais, como a que ilustra esse post e que mostra Brady tentando se tornar astro da Broadway. Sem linhas dividindo os quadros, Rude nos apresenta tensão nos preparativos mentais de Brady, uma aparência de êxito em seu trabalho de dança e canto, somente para estilhaçar essa ilusão no quadro seguinte, em que vemos que o personagem foi um fracasso. O mesmo vale para as bem construídas sequências de ação, especialmente o clímax, que nos mostra em detalhes Dollar Bill sendo traído por sua própria vestimenta.

Antes de Watchmen: Dollar Bill é o que é o super-herói espalhafatoso de cifrão no peito: uma nota de rodapé. Mas, mesmo sendo “apenas” isso, Wein e Rude criam uma história engajante que o leitor, mesmo já sabendo seu fim, consegue envolver-se e sofrer pelo que está por vir.

Antes de Watchmen: Dollar Bill (Before Watchmen: Dollar Bill, EUA – 2013)
Roteiro: Len Wein
Arte: Steve Rude
Cores: Glenn Whitmore
Letras: Steve Rude
Editoria: Mark Chiarello
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: janeiro de 2013 (data de capa: março de 2013)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: novembro de 2013
Páginas: 27

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.