Crítica | Antes de Watchmen: Dr. Manhattan

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NOTA: A base para esta crítica foram dois textos de Ritter Fan e um texto meu sobre esta minissérie escritos em 2013.

A DC Comics literalmente largou uma bomba atômica no colo de J. Michael Straczynski colocando-o para escrever um prelúdio sobre o Dr. Manhattan, o mais complexo personagem da famosa série de Alan Moore e Dave Gibbons. Tudo bem que o roteirista também ganhou o fardo de escrever sobre o Coruja II, mas isso é uma outra história. O fato é que existem duas enormes dificuldades com Dr. Manhattan. A primeira é que, de todos os heróis criados por Moore, ele é o único que tem sua origem contada em detalhes em Watchmen. Logo, nos perguntamos o que restaria escrever em um prelúdio. A outra dificuldade é o personagem em si, já que ele tem, dentre vários outros poderes, o de existir em todos planos temporais ao mesmo tempo: passado, presente e futuro (todos os futuros). Como criar surpresas dessa maneira?

Com esses problemas em mãos, o autor optou pelo lado seguro e tentou emular as situações e a estrutura de Watchmen #4 (Relojoeiro), muitas vezes até repetindo os acontecimentos desse importante número da obra original, apenas acrescentando, aqui e ali, detalhes novos que não necessariamente enriquecem a trama. Temos a narrativa do Dr. Manhattan por cima de acontecimentos de seu passado (em vários momentos diferentes), presente e vislumbres do futuro. No entanto, a coisa não para por aí e isso é uma boa notícia. Ele parte para aguçar a curiosidade do leitor ao dar pistas de que talvez a origem do Dr. Manhattan não tenha sido exatamente aquela que lemos na obra de Moore. Heresia? Morte a Straczynski? Ateiem fogo às revistas? Explodam a DC Comics? Não, não é para tanto. Straczynski foi corajoso, especialmente porque introduz esse evento modificativo ainda nas últimas duas páginas da primeira edição, dando espaço para uma maior exploração disso ao lado de outros elementos importantes para o personagem, nas revistas seguintes.

De toda forma, o que pode parecer uma maluquice — mexer na “obra sagrada” de Moore — traz no bojo o potencial de uma linha narrativa muito interessante. Afinal de contas, a revelação tem o condão de surpreender até mesmo Dr. Manhattan e isso não é pouco, considerando o que ele é capaz de fazer apenas com um estalar de dedos, ou nem isso. Aos poucos, a ideia da teoria quântica é ampliada, as perguntas sobre “o que tem na caixa?” começam a fazer sentido e o personagem vai, não sem pequenas estranhezas por parte do roteiro (afinal de contas, o contexto aqui não é lá dos mais simples), chegando a um estágio de consciência de si e de seus poderes que o aproximam muito daquilo que conhecemos do Azulão na série dos anos 80.

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No caminho dessas múltiplas realidades (com direito a diversas brincadeiras com a experiência do Gato de Schrödinger) passamos pelo namoro de Jon Osterman e Janey, por sua proposta de casamento e a cerimônia em si… tudo o que nunca aconteceu na linha temporal normal de Watchmen. Um Jon já transformado observa tudo, sem nada falar, e vemos no diálogo diversas pistas de que alguma coisa está errada, a começar pelo relógio de pulso de Janey parado em 1:15 da tarde (nome da segunda edição da minissérie, por sinal), passando por breves menções a manipulação da vontade pelo dono de uma barraca em um parque de diversões, sonhos premonitórios do pai de Jon e a menção visual e narrativa de um homem azul na capa de uma revista de ficção científica na mão de um menino (em clara referência ao menino que lê Contos do Cargueiro Negro na obra de Moore).

Até aí, nada demais. No entanto, quando Jon procura por Janey na cerimônia de casamento, a realidade se biparte em uma excelente jogada que retira a HQ do lugar comum, criando realidades paralelas na medida em que lemos: uma que caminha na direção de Watchmen e outra que caminha em direção bem diferente (algo que no futuro a DC usaria, assim como os eventos do final dessa minissérie, para tentar consertar as coisas em Renascimento e fazer a apresentação geral do problema em Doomsday Clock). O leitor achará que está lendo a mesma página duas vezes e foi essa mesmo a intenção de Straczynski, que se utiliza do recurso de maneira a criar dúvidas sobre o espaço-tempo que culmina com Dr. Manhattan observando uma foto do casal, em silêncio, no porão da casa deles.

A arte de Adam Hughes não tem, inicialmente, arroubos de criatividade pois, ainda que se utilize de contrastes mais fortes do que Gibbons, fica muito próximo da concepção original. É eficiente, sem dúvida, mas teria sido mais interessante algo um pouco mais ousado, fora do que já nos acostumamos a ver. Aos  poucos, porém, a concepção visual do artista ganha fôlego e ele ajuda a criar a sensação de divisão de realidade ao longo da série, literalmente rasgando os quadrinhos, criando páginas sucessivas que mais parecem jogos de sete erros, misturando duas narrativas temporais na mesma página e explodindo em uma mistura total do Universo Watchmen numa splash page que simula esse “olhar onipresente de Deus” adotado pelo Dr. Manhattan.

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A partir do ponto onde o peladão tem consciência dos futuros e do que aconteceu quando ele moveu algumas coisas para que o beneficiassem, ele se empenha em destruir as realidades paralelas que foram se multiplicando ao redor da anomalia que (não) o criou. Mas, para ele descobrir a cura, Straczynski nos faz passear pelo passado de Jon, quando seu pai e sua mãe fugiam da Alemanha nazista em 1939, carregando-o literalmente dentro de um caixão. Apesar da tragédia que se segue, Jon chega aos Estados Unidos e aprende o ofício do pai: relojoaria. E, com isso, de maneira natural, usando eventos semi-históricos para mastigar a complexa ciência ao leitor, Straczynski é bem-sucedido em explicar a cura para o problema que aflige o Dr. Manhattan e ele parte para desfazer os Universos paralelos. O que realmente impressiona na narrativa é que, mesmo quase sem ação alguma, o autor nos prende aos eventos, nos faz ficar desesperados e preocupados com o futuro de Jon mesmo sabendo exatamente qual é esse futuro.

No último número, aquilo que achávamos que sabíamos é desvirtuado novamente. Se no princípio o autor surpreendeu o Dr. Manhattan com um futuro incerto, no encerramento ele nos surpreende completamente, inserindo narrativa nova em um espaço temporal microscópico dentro da mitologia de Watchmen. Dessa forma, o roteirista caminha no fio da navalha entre o brilhante e a heresia completa, o que acaba tornando a experiência absolutamente imperdível. Dr. Manhattan torna-se o único prelúdio dentro do projeto Antes de Watchmen que precisa (ou deve) ser lido em conjunto com Ozymandias. Afinal de contas, em determinado momento no prelúdio de Adrian Veidt, descobrimos que ele e Dr. Manhattan têm uma conversa cujo conteúdo não nos é revelado por lá. O último número de Dr. Manhattan é, basicamente, todo ele dedicado exatamente a esse momento, e acaba enriquecendo sobremaneira o trabalho de Len Wein no outro prelúdio. Uma interessante e inteligente forma de se fazer um crossover.

O Dr. Manhattan, agora, tem medo de se mexer para que suas menores ações não criem realidades paralelas. Além disso, ele não enxerga mais o futuro com a clareza de antes. Algo enevoa sua visão. Aqueles que leram Watchmen saberão muito bem do que isso se trata. Mas a conversa que se segue é Veidt, brilhantemente, incutindo em Dr. Manhattan a semente do que viria a ser seu absurdamente intrincado plano para salvar o mundo. Como ele faz? Ora, demonstrando que o ser mais poderoso do universo de Alan Moore não é azul, mas sim um cara que tem nome de faraó egípcio e se espelha em Alexandre, O Grande. Ozymandias é o cara!

ozymandias e o Doutor Manhattan plano crítico

Straczynski conseguiu a proeza de criar coisas novas, complementar informações e apresentar situações interessantes e instigantes com o personagem mais difícil de Watchmen, ainda costurando essa narrativa sem parecer forçada. E na representação do trabalho do roteirista, Adam Hughes também merece uma coroa pela progressiva grandiosidade que traz à cena. Antes de Watchmen: Dr. Manhattan é a arte sequencial sendo usada em todo seu potencial. Se eles cometeram uma heresia com o trabalho de Moore, então que tenhamos mais heresias como esta: inteligente, respeitando o original e sabendo até onde é possível apresentar novas perspectivas, criar coisas novas o simplesmente rememorar e homenagear a fonte. Definitivamente uma das melhores séries desse ambicioso projeto.

Before Watchmen: Doctor Manhattan (EUA, 2012 – 2013)
No Brasil:
Panini, agosto de 2013
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: Adam Hughes
Arte-final: Adam Hughes
Cores: Laura Martin
Letras: Steve Wands
Capas: Adam Hughes, Paul Pope, Lovern Kindzierski, Jim Lee, Scott Williams, Neal Adams
Editoria: Mark Chiarello, Chris Conroy, Camilla Zhang
108 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.