Crítica | Antes de Watchmen: Espectral

Nota: Texto baseado em críticas minhas anteriores de 2013 que foram unificadas, remixadas, aglutinadas e atualizadas nessa versão definitiva.

Enquanto J. Michael Straczynski ganhou talvez o personagem mais complicado para fazer um prelúdio – o Dr. Manhattan – o saudoso Darwyn Cook, que também escreveu (e desenhou) Minutemen, ganhou a personagem com mais flexibilidade para se criar: Espectral II (Silk Spectre II, no original). Isso ocorre, pois, de todos os heróis criados por Alan Moore e Dave Gibbons na seminal Watchmen, Espectral é a que teve menos desenvolvimento e cujo passado permanecia razoavelmente encoberto. Sabemos que ela foi moldada por sua mãe, a primeira Espectral, para ser sua sucessora como super-heroína, e sabemos quem é seu verdadeiro pai, mas não muito mais do que isso.

Assim, Cooke, em parceria com Amanda Conner no roteiro (com arte só dela) teve espaço para trabalhar. E, no primeiro número, ele realmente começa do começo, mostrando brevemente a infância de Laurie Jupiter e a constante vigilância de sua mãe Sally. Da infância, pulamos para a adolescência e o roteiro vira uma história padrão de amadurecimento, com direito a amor proibido, bullying e tudo mais. Até é uma evolução natural e justificável, mas a descoberta do amor por um jovem que tem exatamente os mesmos problemas que Laurie enfraquece a história e dá ares de preguiça.

No entanto, esses ares são dissipados logo na edição seguinte, com Laurie mais segura, morando em São Francisco com o namorado e amigos hippies e navegando na onda da contracultura da década de 60, com direito a “paz e amor”, drogas, sexo e rock’n roll. Vemos, também, sua primeira missão como a nova Espectral, ainda de forma muito amadora. O DNA herdado de sua mãe basicamente a força a resolver os problemas da maneira que foi treinada e a dupla Cooke/Conner consegue, com os diálogos, tornar Laurie bem mais interessante que no primeiro número. A introdução do vilão, que quer dominar os jovens com o uso de uma droga que aumenta o consumismo, é uma espécie de distanciamento do tom sisudo das demais séries Antes de Watchmen. Segue-se uma aventura razoavelmente “comum”, mas muito bem estruturada e que conversa bem com a Espectral “do futuro” que conhecemos na HQ de 1986, algo que nunca perdemos de vista pela presença forte de Sally e também de Holly Mason, o Coruja I, além do Comediante, dentro da estrutura criada.

O maior problema da minissérie, na verdade, é ter ficado circunscrito a uma série de apenas quatro números. Apesar de ele resolver muita coisa nos três primeiros, o fato é que há diversas pontas soltas para serem solucionadas apenas no último número. Há uma aceleração incômoda na ação que poderia ter sido facilmente resolvida com mais uma ou duas edições ou, talvez melhor ainda, um redistribuição do conteúdo nas três primeiras.

Cooke e Conner não se furtam em fazer flashbacks para 1960, quando Laurie era apenas uma menina, e a cravar a narrativa de menções aos futuros (na cronologia de Antes de Watchmen) acontecimentos da obra de Moore, tudo isso mantendo o estilo de jogar com as imagens de maneira magistral, como quando intercala O Grito, de Edvard Munch, em uma sequência de quadros tratando do desespero da protagonista. Nesse sentido, é importante ressaltar o quanto a arte de Amanda Conner é eficiente, pois ela consegue fazer uma Laurie sexy, mas de forma contida, exatamente na medida necessária a transmitir sua personalidade em contraste à de sua mãe. E, pela maior parte da revista, a desenhista segue o “padrão Watchmen” de nove quadros por página, criando movimento célere com rimas visuais muito bem pensadas.

Um destaque da arte é na terceira edição em que basicamente 25% da história é uma viagem lisérgica de Espectral, drogada ao final da segunda. Nesse momento, Conner solta completamente as amarras de sua arte e diverte-se com a inteligente e inspirada manipulação da estrutura de nove quadros por página, ainda que, para meu gosto, haja texto demais populando as páginas.

Apesar de um começo relutante e simples talvez demais, Antes de Watchmen: Espectral surpreende e se torna uma das séries mais interessantes dessa iniciativa “sacrílega” da DC Comics. Certamente não agradará a todos, mas a visão de Cooke e Conner para a origem de Espectral II, considerando a quase completa rasa tábula que eles tinham para trabalhar, é uma diversão descompromissada que, porém, respeita o tão sagrado cânone e efetivamente acrescenta à personagem, jamais descaracterizando-a.

Antes de Watchmen: Espectral (Before Watchmen: Silk Spectre, EUA – 2012)
Contendo: Before Watchmen: Silk Spectre #1 a 4
Roteiro: Darwyn Cooke, Amanda Conner
Arte: Amanda Conner
Cores: Paul Mounts
Letras: Carlos M. Mangual
Editoria: Mark Chiarello, Chris Conroy, Camilla Zhang
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: agosto, setembro, novembro e dezembro de 2012
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: junho de 2013
Páginas: 108

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.