Crítica | Antes de Watchmen: Minutemen

plano critico minutemen watchmen quadrinhos

NOTA: A base para esta crítica foram dois textos de Ritter Fan e um texto meu sobre esta minissérie escritos em 2013.

Escrita e desenhada por Darwyn Cooke, a minissérie dos Minutemen talvez tenha sido a que mais organicamente esteve ligada aos eventos de Watchmen (em parte por sua extensão cronológica) e mesmo não sendo o único título notável de Antes de Watchmen, acabou se tornando o título seminal do projeto. Ao longo de seis edições, Minutemen conta as aventuras do primeiro grupo de vigilantes mascarados do Universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons. Esses lutadores da “Era de Ouro” antecedem os heróis que vemos na obra de 1987, mas suas presenças são fortemente sentidas, citadas e usadas para avançar a trama. Afinal de contas, Comediante, cuja morte catalisa os acontecimentos de Watchmen, fazia parte do grupo original e Coruja II (Daniel Dreiberg) e Espectral II (Laurie Juspeczyk) foram influenciados pelos heróis homônimos da década de 40. Assim, os Minutemen são organicamente muito importantes e suas aventuras nessa minissérie expandem e dão até maior contexto para o que já conhecemos deles.

Para narrar essa saga, Darwyn Cooke (de A Nova Fronteira) usa um mecanismo muito interessante. Ele nos apresenta a Hollis Mason — o primeiro Coruja — recém-aposentado, terminando de escrever Sob o Capuz (Under the Hood), sua biografia — aquela cujos trechos podemos ler em Watchmen.  A partir daí, o autor usa Mason para apresentar cada um dos componentes do grupo, iniciando sua narrativa em retrospecto a partir de 1939, falando da estreia do Justiça Encapuzada, Espectral (Sally Jupiter), ele próprio – O Coruja (Hollis Mason), Comediante (Eddie Blake), Traça (Byron Lewis), Dollar Bill (William Brady), Silhouette (Ursula Zandt) e Capitão Metrópole (Nelson Gardner). Das seis edições, a primeira é a que realmente não tem uma história sendo contada no presente. O cerne da edição é a memória de como tudo começou. Nos capítulos seguintes da saga a ponte entre passado e presente é estabelecida mais organicamente e Darwyn Cooke faz com que a série cresça, apontando de maneira muito pertinente as questões sociais ligadas à Segunda Guerra Mundial e ao Macarthismo, com ambientação histórica bem dosada e mergulho nos impasses, conquistas e perdas desses personagens.

Dois lados importantes podem ser destacados a partir do segundo número. O primeiro deles é a construção da imagem do grupo e das estratégias de marketing empreendidas por Espectral (na verdade, por Larry Schexnayder) e pelo Capitão Metrópole, os recrutadores da equipe. Essa imagem a ser construída de maneira sólida e politicamente correta é uma tarefa tão hercúlea quanto o combate ao crime em parceria, uma vez que se trata de um time com personalidades diferentes, origens diferentes e crenças ou objetivos opostos. O segundo ponto é o modo como os Minutemen ganham a sua primeira grande publicidade, num acerto do autor em trazer do original a dubiedade do heroísmo ou do vigilantismo, escondendo verdades e divulgando mentiras em nome de um bem maior… “para o bem de todos” — atitude eticamente problemática que o próprio narrador, anos depois e às voltas com a sua biografia, faz questão de refletir, com uma ponta de amargura.

PLANO CRÍTICO MINUTEMEN RECRUTAMENTO

Darwyn Cooke ainda tem tempo de explorar a burocratização do grupo. Heróis que antes tinham plena liberdade para agir, são convidados a observar uma agenda com dias, horários e locais de ação. A franca estranheza dos personagens também é partilhada pelo leitor, que pouco a pouco percebe a grande habilidade do escritor em criar uma saga de ascensão e queda. A partir do terceiro volume, vemos como os heróis são desmascarados, sendo o primeiro grande evento dessa fase a discussão dos homens do grupo para a expulsão ou não do Comediante, após estuprar a Espectral. Embora tratando-se de um garoto (Blake nasceu em 1924, então tinha 16 anos em 1940), sua personalidade já dava indícios de decadência, embora isso só tenha acontecido mesmo anos mais tarde, especialmente quando de sua passagem pelos escalões do governo e pelo Vietnã. Sua expulsão dos Homens-Minuto talvez tenha sido a linha divisória entre os caminhos que ele trilharia a partir de então.

A arte aqui combina perfeitamente com o cenário de época e a escolha da paleta de cores por Phil Noto é belíssima, especialmente nos contrastes dentro de uma mesma edição, especialmente na passagem entre passado e presente, um exercício que nunca parece exagerado. Além disso, vale notar que cada um dos heróis tem seu próprio conjunto de cores-base, colocadas em evidência sempre que aparecem em cena. E isso vale tanto para os poucos momentos alegres quando para os mais sombrios e ousados, com Darwyn Cooke expondo os membros homossexuais da equipe (Silhouette, Justiça Encapuzada e Capitão Metrópole), a homofobia de origem cristã de Dollar Bill, a disputa egoica entre Espectral e Silhouette e a forte amizade nascida entre Silhouette e Coruja e também entre Coruja e Traça. O roteiro não perde de vista o fato de que está mostrando aquilo que “de tão horroroso e temível” Hollis Mason escreve em seu livro, deixando todos os seus amigos e conhecidos furiosos com essa “pura verdade” que está prestes a ser publicada.

Apesar de sempre vermos a ação a partir dos olhos de Mason — tanto aposentado como na ativa — a série conseguem dar atenção a todos os componentes dos Minutemen de maneira razoavelmente equilibrada, fazendo-nos conhecer cada um deles e deixando a abordagem da podridão do grupo para o final. E o primeiro aspecto que vemos dessa podridão é o brutal assassinato de Silhouette e de sua amante Gretchen, que notamos apenas de relance na série de Alan Moore. A equipe tenta seguir as pistas do assassino, mas vemos um improvável integrante saindo na frente e resolvendo a questão da maneira mais terrível possível. Há um sentimento de alívio ao mesmo tempo de desgosto que Cooke deixa muito evidente nessas páginas. É o início da queda, e conforme as coisas ficam ruins, alguns fantasmas  e pesadelos do passado também retornam. É o que acontece com o Comediante, tratado por Cooke de maneira muito mais crível do que Brian Azzarello na própria série do anti-herói. Cooke nos brinda com um flashback da primeira missão de Edward Blake na Segunda Guerra Mundial, onde conhecemos o momento em que sua mente já distorcida perde completamente a capacidade de distinguir o certo do errado.

PLANO CRITICO SEPARAÇÃO DOS MINUTEMEN

Desacreditados e quase esquecidos, os Minutemen ganham um sopro de vida no quinto número, quando Cooke os coloca na mais importante missão de suas carreiras: impedir que uma bomba seja detonada em Nova York. Embora tenha sido bem sucedido nessa missão, pelas circunstâncias do caso, o grupo não pode levar para casa os louros da vitória. Então a equipe chega ao fim. O autor precisava de um catalisador para a aposentadoria desses pioneiros e, no lugar de usar a tragédia, usou o sucesso absoluto. A ironia fica evidente, o que nos faz perdoar a narrativa um pouco dissonante que ele conta aqui. Mesmo assim, o Coruja não desiste do caso deixado em aberto por Silhouette e, em uma chocante revelação, descobrimos quem é o terrível sequestrador, molestador e assassino de crianças. Não é para os fracos! Só que Cooke nos prega muitas peças na edição final da série, um número absolutamente irretocável e que fecha com chave de ouro toda a saga dos Minutemen, mas que deixará muita gente coçando a cabeça e outros tantos enfurecidos pelo que o autor faz com os personagens.

Ele entra manipulando o Comediante em um epílogo de tirar o fôlego e capaz arrancar uma lágrima furtiva pelo pobre Hollis Mason. Afinal de contas, o livro Sob o Capuz estava sofrendo enormes resistências de todos os membros do grupo para ser publicado na década de 60, não é mesmo? Pois bem, descobrimos o verdadeiro porquê, nesse soco no estômago de epílogo que Cooke escreve, encerrando sua participação nessa grande jornada que captura com muita precisão o tom dúbio de eventos mostrados rapidamente na obra de Alan Moore (sem alterá-los!) e que dá a esses indivíduos da “primeira era” do Universo Watchmen a sua própria versão de Sociedade da Justiça: A Era de Ouro. Uma saga sobre as muitas facetas do heroísmo, sobre o que o Estado e o “poder oculto do crime” podem fazer a pessoas que, no começo de tudo, só queriam fazer o bem. É como aquele ditado: “de boas intenções, o inferno está cheio“.

Before Watchmen: Minutemen (EUA, 2012)
No Brasil: Panini, 2013
Roteiro: Darwyn Cooke
Arte: Darwyn Cooke
Arte-final: Darwyn Cooke
Cores: Phil Noto
Letras: Jared K. Fletcher
Capas: Darwyn Cooke, Michael Cho, Becky Cloonan
Editoria: Mark Chiarello, Camilla Zhang, Wil Moss
156 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.