Crítica | Antes de Watchmen: O Coruja

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O Coruja — em suas duas versões — é o personagem mais ético que encontramos em Watchmen. Sua tendência em buscar equilíbrio e rejeitar extremos o coloca em uma situação de conflitos muito humanos, ao mesmo tempo em que o vemos cercado de ambições, ações e coisas simples da vida, diferente de seus colegas nos Minutemen e depois, nos Combatentes do Crime (Crimebusters) — embora neste segundo grupo a citação seja apenas de comparação em relação aos presentes na primeira reunião, já que o grupo fracassou no nascimento… O fato é que O Coruja não é um personagem realmente atrativo, e isso tem um imenso peso aqui na minissérie do herói dentro do projeto Antes de Watchmen.

Escrita por J. Michael Straczynski, a saga será lembrada mais por um fator de luto artístico do que por sua relevância como minissérie. E isso se dá porque a arte de Andy Kubert foi parcialmente finalizada (nas duas primeiras edições e metade da terceira) pelo seu pai, o mestre Joe Kubert, que veio a falecer em 12 de agosto de 2012, sendo este, o seu último trabalho nos quadrinhos. Quem assumiu o manto após a partida do pai Kubert foi Bill Cinco e Vinte Sienkiewicz, que conseguiu manter a ótima composição visual da série, resultado positivo que infelizmente não vemos acontecer no roteiro — o que é bem curioso, já que Straczynski conseguiu algo elogiável na série do Dr. Manhattan.

Basicamente, o grande empecilho para que O Coruja deslanche é a impressão de que não existe nada atrativo para contar, algo que fica cada vez mais evidente à medida que as edições avançam e o leitor percebe que Rorschach tem um peso bem maior que o existencialista Daniel Dreiberg. É claro que a história do protagonista aqui é explorada em algumas miudezas, mas nada digno de segurar uma série inteira, porque são momentos contidos em si, com consequências que se integram fácil à vida adulta do personagem sem precisar de maiores explicações ou dramas adicionais. Até a Dama do Crepúsculo (Twilight Lady/Elizabeth Lane), uma dominatrix/cafetina/heroína que acaba sendo um interesse amoroso de Nite Owl parece ser mais interessante que ele próprio, o que em si só já denota um grande problema.

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Na composição da série, o autor consegue pelo menos explorar bem uma temática, que é a da violência contra a mulher, em diversos níveis. Eis aí um ponto que poderia dar o tom geral da minissérie e abrir espaço para algo realmente interessante, tendo o Coruja como verdadeiro protagonista. Mas essa mesma temática é diluída em discussões paralelas do pensador moral contra o violento religioso mascarado prestes a levantar a placa O FIM ESTÁ PRÓXIMO e sobra até espaço para explorar um arco ligado a um pastor infame com uma “mensagem de Deus para a humanidade” que é qualquer coisa, menos cristã.

A crítica contra os parasitas da fé (e os extremistas e fanáticos em geral) está clara, mas não se encaixa bem à minissérie, porque faz sentido para Rorschach e não para o Coruja, que tem nesta seara apenas o ponto final de uma investigação, ou seja, um encerramento patético para o “grande caso” de um herói ético. Definitivamente falta algo que dê grande sentido à existência dessa minissérie. O leitor deve aproveitar com gosto a arte e alguns elementos críticos da aventura ou de composição da personalidade do protagonista, mas o volume não vai muito além disso. Uma pena.

Before Watchmen: Nite Owl (EUA, 2012 – 2013)
No Brasil:
Panini, 2013
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: Andy Kubert
Arte-final: Joe Kubert, Bill Sienkiewicz
Cores: Brad Anderson
Letras: Nick J. Napolitano
Capas: Andy Kubert, Joe Kubert, Brad Anderson, Chris Samnee, Matthew Wilson, Bill Sienkiewicz
Editoria: Will Dennis, Mark Doyle, Camilla Zhang
108 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.