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Crítica | Antes de Watchmen: Ozymandias

por Ritter Fan
308 views (a partir de agosto de 2020)

Nota: Texto baseado em críticas minhas anteriores de 2013 que foram unificadas, remixadas, aglutinadas e atualizadas nessa versão definitiva.

Antes de Watchmen é uma série de minisséries (e dois one-shots) que, no geral, faz todo sentido existir, por mais sacrílego que essa afirmação possa parecer aos mais puristas. Afinal de contas, universos bem menos ricos foram explorados sem escrúpulos em diversas mídias diferentes, com resultados dos mais variados, alguns muito bons. Portanto, não faria sentido econômico algum deixar um universo rico como o criado por Alan Moore e Dave Gibbons passar em branco, com “apenas” uma espetacular maxissérie. Mesmo sem envolvimento de Moore, o show precisava continuar e a aposta em HQs prelúdios era a mais segura e a que menos causaria frissons chiliquentos.

Len Wein, editor da HQ original, ficou com o encargo de abordar dois personagens: Dollar Bill e Ozymandias. O primeiro nunca foi muito importante e o autor resolveu tudo em um one-shot simples e eficiente, ainda que longe de especial ou brilhante. Adrian Veidt, o multimilionário, “o homem mais inteligente do mundo” e personagem-chave na trama brilhantemente costurada por Moore era um desafio muito maior, talvez somente inferior ao de J. Michael Straczynski com o Dr. Manhattan. Mas Wein tinha, a seu lado, sua vasta experiência na indústria de quadrinhos e, claro, a editoria de Watchmen. Essas vantagens permitiram que ele fizesse bom uso dos “pontos de entrada” que ele escolheu para contar a vida pregressa do personagem de forma a costurar tudo perfeitamente à obra original.

O primeiro desses pontos é o diário que Ozymandias começa a ditar quando está em Karnak, prestes a executar seu plano. Moore faz uma elipse que dá a entender que ele já acabou e, logo em seguida, vem a sequência em que ele envenena seus empregados e abre a redoma de vidro de sua floresta tropical em plena Antártida. Wein, então, apodera-se justamente do váculo deixado pela elipse e faz de sua minissérie em seis edições a representação visual do diário do grande vilão. O segundo ponto é justamente a sequência expositiva sobre a infância e juventude do personagem que ele mesmo conta a seus funcionários antes de matá-los. Wein usa cada gota de informação que Moore escreveu e detalha cada evento na vida de Veidt desde que seus pais imigraram para os EUA e, depois, contando os bastidores daquilo que vemos na obra original.

Wein, portanto, mergulha na mente de Adrian Veidt e traz minúcias de todas as motivações que formaram o caráter do personagem e o que deflagra sua transformação em Ozymandias. Grosso modo, a narrativa – toda em primeira pessoa – lembra uma elaborada e talvez mais ambiciosa origem de um herói como o Batman. A boa notícia é que o autor consegue fugir da armadilha mais comum quando personagens ambíguos assim são destrinchados, ou seja, a vontade de retirar justamente essa dualidade e tratá-lo como alguém bom ou mau, sem tons de cinza. O Ozymandias de Alan Moore é tudo menos tão facilmente classificável como uma coisa ou outra, diferente de Rorschach, por exemplo. Assim, temia que um prelúdio sobre o personagem simplesmente passasse a ser um veículo para justificar e, portanto, abrandar o que ele faz em Watchmen. Mas Len Wein resistiu à tentação de seguir o caminho mais fácil e mantém as necessários gradações da personalidade de Veidt, acrescentando, ainda, outros elementos dentro do mesmo raciocínio de Moore.

(1) O pequeno Ozy e (2) o grande Ozy.

Sim, sem dúvida que uma juventude complicada e um intelecto extremamente avantajado, somados à acontecimentos trágicos, pode dar um ar de “saída fácil” para tudo que Ozymandias viria a fazer no futuro, mas esses elementos já haviam sido abordados por Moore, ainda que perfunctoriamente (sem nenhum demérito) e Wein apenas constrói sobre as bases sólidas do autor original. Assim, o personagem não tem sua personalidade traída quando vemos os detalhes de sua origem.

No entanto, se Wein dribla uma armadilha, ele cai em outra também muito recorrente: o exagero expositivo. Com exceção, talvez, do primeiro número, tudo acaba sendo muito explicado e, como Veidt está no auge de sua forma, tudo o que fala – em narrativa do “futuro” – soa arrogante demais, alguns momentos ao ponto do ridículo e literalmente descrevendo o que vemos. Sabemos que Ozymandias, em termos de inteligência, compara-se e talvez ultrapasse o Batman e, em termos de habilidades físicas, é um Capitão América (sem o soro do super soldado, claro), mas essa conjunção de qualidades acaba facilitando a hipérbole e Wein tropeça com frequência, pecando pelo excesso. Quando Veidt percebe que sua missão de vida é “só” salvar o mundo, algo que acontece lá pela quarta edição, sua narração serve como um manual de instruções de como fazer um plano maquiavélico que tem como objetivo a paz mundial.

E, como é difícil gostar de manual de instruções, o trabalho de Len Wein, que é realmente detalhista e bem bolado, acaba caindo em sua própria rede e fica repetitivo, até mesmo enfadonho. A grande vantagem, porém, é que, dentro de sua proposta, ele soube exatamente onde parar, ainda que o momento seja óbvio para qualquer leitor de Watchmen. Wein não se atreve nem mesmo a olhar os acontecimentos da graphic novel sob outro ângulo, parando onde o trabalho de Moore começa, quase que fazendo reverência ao mago barbudo.

Mas os vários soluços no roteiro são mais do que compensados pela deslumbrante arte de Jae Lee. Lee, desenhista de revistas como a série A Torre Negra, da Marvel Comics (baseada nos livros de Stephen King) é um artista de mão cheia cujos desenhos, confesso, exigem um pouco de adaptação. Ele costuma desenhar com traços esguios e cheios de estilo e, enquanto isso pode não funcionar muito bem com qualquer personagem, no caso de Ozymandias foi uma escolha certeira. De todos os personagens criados por Moore, é Ozymandias e não o Dr. Manhattan o menos humano. A frieza e o calculismo do anti-herói são gritantes, mesmo considerando que seu objetivo final é salvar o mundo. E, nesse tocante, a arte de Lee empresta um ar de uma nobreza fria e distante ao personagem que chega a dar calafrios, algo amplificado pela terrível absoluta simetria de seus quadros que, aliás, são sempre diferentes e dinâmicos. As cores de June Chung não ficam atrás e, fazendo uso de muitos tons fortes, mas muito bem escolhidos, ela consegue ser a proverbial cereja no bolo em relação aos desenhos, um perfeito acompanhamento para os traços de Lee.

Se Wein tivesse ousado mais, Ozymandias poderia ser a melhor minissérie do projeto Antes de Watchmen. Ao pecar por ser um enólogo explicando o buquê e o retrogosto do vinho que bebemos sem que tenhamos pedido, Wein acaba virando um “enochato”, mas um que mesmo assim temos que tirar o chapéu pelo conhecimento enciclopédico. Jae Lee, por sua vez, é o pintor que transforma aridez em beleza, palavras intermináveis em splash pages que são pequenas obras de arte. O resultado final, portanto, pode não ser perfeito, mas certamente é muito prazeroso.

Antes de Watchmen: Ozymandias (Before Watchmen: Ozymandias, EUA – 2012/13)
Contendo: Before Watchmen: Ozymandias #1 a 6
Roteiro: Len Wein
Arte: Jae Lee
Cores: June Chung
Letras: John Workman
Editoria: Mark Doyle, Will Dennis, Camilla Zhang
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: setembro de 2012 a abril de 2013
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: outubro de 2013
Páginas: 163

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17 comentários

Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 8 de outubro de 2019 - 21:31

A arte… a arte disso é tão gostosa de se ver e combina tanto com o personagem… PQP!

Responder
planocritico 8 de outubro de 2019 - 22:47

O Jae Lee é um mestre. E o estilo realmente combina com o Ozy!

Abs,
Ritter.

Responder
IDRIS ELBA RAMALHO 10 de outubro de 2019 - 18:33

Eu curto muito o Jae Lee, mas só em capas mesmo.
Sei lá, meio que não importa se a história é futurista, medieval, se passa na selva ou na cidade… ele não mostra isso na arte dele, por que é sempre os personagens flutuando no meio da névoa.
Em capa isso passa, mas 150 páginas de história sem cenário chega a incomodar.

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planocritico 11 de outubro de 2019 - 19:35

He, he. Eu entendo perfeitamente você não gostar da arte dele. Eu aprendi a gostar – a amar, na verdade – lendo as minisséries que adaptaram A Torre Negra e, aqui em Ozymandias, ele manda muito, MUITO bem.

Abs,
Ritter.

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Big Boss 64 8 de outubro de 2019 - 18:21

O gibi de vingancinha do Len Wein kkk (desculpe a repetição)

Responder
planocritico 8 de outubro de 2019 - 18:21

Manda ver! Essa é a Critic’s Cut das críticas originais!

Abs,
Ritter.

Responder
Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 8 de outubro de 2019 - 21:31

Como é isso?

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Big Boss 64 8 de outubro de 2019 - 21:50

O Len Wein, editor de Watchmen, ficou puto com o Alan Moore por causa do final do ET (parece que ele copiou isso de uma série dos anos 50). Ele achava que o Moore podia inventar um final melhor do que isso já que ele era “O” Alan Moore. Como vinganca, o Len Wein aproveitou o Before Watchmen pra esfregar na cara do público que o Ozymandias assistiu essa série dos anos 50 e teve a “ideia” de criar o ET no final.

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planocritico 8 de outubro de 2019 - 23:07

Isso.

@luizsantiago:disqus , a série é The Outer Limits, que o Ozy assiste e cita expressamente nessa mini. Olha aqui a página exata da epifania do sujeito:

Abs,
Ritter.
https://uploads.disquscdn.com/images/817a9a5fcfc7d3fd40c5cb672523bf7b18da01e6b3d2330d6612049397c17b7f.jpg

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Big Boss 64 8 de outubro de 2019 - 23:14

Mas vocês acham que o final do ET foi ruim?

planocritico 8 de outubro de 2019 - 23:40

Ruim, eu não acho. Só bizarra demais e que talvez exija um pouquinho mais de suspensão da descrença do que deveria.

Mas eu prefiro a do filme, para dizer a verdade. Fiz até um artigo sobre isso.

Abs,
Ritter.

Big Boss 64 8 de outubro de 2019 - 23:57

É aquela velha discussão sobre quais alterações uma mídia precisa sofrer no processo de adaptação. Eu não li a HQ mas engolia a desculpa do ET fácil, afinal estamos lendo uma HQ, onde se permite uma dose maior de fantasia independente do tom da revista. No filme, não faria o menor sentido porque o roteiro não nos deu dicas nem a possibilidade de imaginar que isso seria possível, portanto o final do Manhattan é mais coerente mesmo. Seu texto é mais ou menos assim?

planocritico 8 de outubro de 2019 - 23:57

Mais ou menos. Sim, há mais espaço para “invenção” nos quadrinhos, mas, em tese, o Snyder poderia ter feito a mesma coisa no filme. Só que eu acho a solução do filme uma solução “interna” e a da HQ “externa” à trama.

Se tiver interesse, dê uma olhada no artigo: https://www.planocritico.com/plano-critico-7-o-final-de-watchmen-filme-e-superior-ao-final-de-watchmen-hq/

Abs,
Ritter.

Big Boss 64 9 de outubro de 2019 - 00:06

Vou lá só pra falar mal kkk

planocritico 9 de outubro de 2019 - 00:06

HHHAHAHAHAHAHAH

Maldade!

Abs,
Ritter.

IDRIS ELBA RAMALHO 10 de outubro de 2019 - 18:32

Entendo seu ponto.
Mas se pensarmos no contexto da Guerra Fria, quando o presidente da união soviética visse que o “Dr. Manhattan” (uma arma americana) atacou seu país, ele ia apertar o botão vermelho e descarregar o arsenal nuclear dele e foda-se.
Claro, o Manhattan tinha sumido dos EUA, mas achar que nesse auge de paranoia os líderes mundiais prontos pra acabar com tudo seriam racionais e pensariam nisso antes de se destruirem… Acho o final do Snyder bem inverosímel.

Aliás, como tudo naquele filme.
Em Watchmen só quem tem poderes é o Dr Manhattan, e a HQ mostra uma visão realista, desconstruindo a imagem do herói. No filme do Snyder os caras quebram parede com um soco, pulam de prédio e cai de pé, saem lutando-dançando a lá Tigre e o Dragão.

Acho o filme esteticamente lindo pra caramba, isso não tem como negar… mas meio que não tem o mais importante quer é aquela sutileza do quadrinho. É meio como aqueles bolo fake de casamento, é visualmente lindo, mas vazio.

planocritico 11 de outubro de 2019 - 19:45

Com base na sua teoria do “dedo nervoso”, eu poderia muito facilmente dizer que o mesmo aconteceria com o final do Moore, já que o Nixon não esperaria para ver que foi um “ET” e acharia que foi uma bomba OU, se descobrisse que fosse um “ET” acharia mesmo assim que era um plano soviético. O resultado seria mandar os mísseis para a URSS.

Assim, em termos de verossimilhança, fico com o final do Snyder. Afinal, as peças móveis do plano de Ozymandias nos quadrinhos são absolutamente gigantescas e dificílimas de engolir. Ilha secreta. Desaparecimento dos melhores artistas e cientistas do mundo. Criação de um monstro. Cérebro psíquico clonado. Invenção do teletransporte. E por aí vai…

Sobre o enfoque do Snyder no super-heroísmo dos vigilantes realistas, eu vejo isso como uma espécie de “acordo” para tornar a obra de Moore mais palatável cinematograficamente. Eu falei um pouco disso na minha critica do filme (versão de cinema). Não é algo que me afete não, até porque na HQ o Ozymandias também segura uma bala com a mão (e sem luva!).

Abs,
Ritter.

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