Crítica | Antes de Watchmen: Rorschach

Nota: Texto baseado em minhas críticas anteriores de 2013 que foram aglutinadas, expandidas, remixadas e atualizadas nessa versão definitiva.

Rorschach foi o sexto e penúltimo personagem/grupo sujeito de exame no projeto Antes de Watchmen, uma bem-vinda ousadia herege da DC Comics, que, como o nome indica, preludia os acontecimentos da idolatrada obra original de Alan Moore e David Gibbons, com um pot-pourri de outros autores. Brian Azzarello ficou responsável tanto pelo Comediante quanto pelo vigilante que atua fora-da-lei com a famosa máscara que forma imagens do teste que o batiza, mas, mesmo considerando a qualidade usual do autor, ele não foi bem sucedido de verdade em nenhuma das duas empreitadas.

Rorschach é, provavelmente, o mais reconhecido e amado personagem criado por Alan Moore para sua sensacional obra. Isso se dá por razões muito simples: de todos os heróis, ele é, facilmente, o mais objetivo. Assim com sua máscara, tudo para ele é preto ou branco. Não há tons de cinza em seu perturbado universo. Além disso, seus métodos violentos, sua roupa comum, mas eficiente e os diálogos e textos memoráveis (e cheios de chavões) que escreve eu seu diário são todos feitos para o público geral gostar e aplaudir. Moore sabe como ninguém manipular sua audiência.

No entanto, Rorschach é, também, o mais raso de todos os personagens de Watchmen (e, mesmo assim, mais profundo do que 90% do que vemos por aí) e, portanto, não esperava muito mais do que um prelúdio que seguisse a linha da pancadaria precedida ou sucedida de diálogos bacanas. Quando Azzarello foi anunciado como roteirista, fiquei mais esperançoso, já que o autor é responsável pela já encerrada, mas excelente e complexa série 100 Balas, que se notabilizou justamente por diálogos muito bem escritos.

Acontece que Azzarello não estava muito inspirado quando escreveu a minissérie em quatro edições. Respeitando a estrutura de apresentação de Rorschach de Alan Moore, tudo começa com fragmentos do diário do personagem (estranhamente escritos com máquina de escrever já que, em Watchmen, ele escreve à mão) explicando suas ações: ele está atrás de uma rede de tráfico de drogas em plena Nova York de 1977. No entanto, a mímica de Alan Moore não para aí e Azzarello força a barra, tentando adaptar frases de Moore para o novo contexto e o resultado acaba se tornando uma espécie de paródia involuntária.

Não que a leitura não seja fluida. Ela é, mas Azzarello não traz nada terrivelmente original à mesa e simplesmente se contenta em colocar Rorschach contra os tais traficantes, deixando muito claro como é que a história terminará. Além disso, ele insere uma trama paralela que lida com um assassino serial chamado O Bardo, que, assim como Jack, o Estripador, assassina mulheres brutalmente nos becos escuros da cidade e, depois, escreve sonetos em suas peles (daí seu nome). De novo, nada fora do comum.

O que é interessante, porém, é como Azzarello parece se divertir inserindo situações verdadeiras e citações a outras obras de ficção dentro do contexto da minissérie. Temos o famoso blecaute na cidade que transformou as pessoas comuns em criminosos e citações a Embalos de Sábado à Noite, além da participação especial de ninguém menos do que Travis Bickle, o personagem de Robert de Niro em Taxi Driver. São situações inusitadas que dão sabor a uma narrativa que, de outra forma, seria completamente descartável, ainda que não completamente fora do personagem de Rorschach.

Mas o que realmente merece destaque absoluto na história é a magnífica arte de Lee Bermejo, parceiro de Azzarello em belíssimas obras como Coringa e Batman: Amaldiçoado. Seus desenhos realistas são capazes de trazer à tona a sujeira da cidade que reflete na alma de seus habitantes em geral e nos personagens principais em particular, tornando-se um show à parte que merece ser conferido e reconferido, aí incluídas suas originalíssimas capas. Não só os personagens são detalhados, como seu trabalho no ambiente em que são mostrados é magistral. Reparem só nos prédios durante o blecaute. Tudo se transforma em uma grande favela, personificando, no desenho, o tema desesperançoso do discurso canhestro de Rorschach. E, sem usar páginas duplas, Bermejo trabalha a distribuição de quadros de modo a permitir uma grande fluidez narrativa que é particularmente bem exemplificada pela fuga de Rorschach do quartel general de Rawhead com a ajuda de um tigre (sim, de um tigre!). São, na verdade, duas tramas paralelas, com revezamento de quadros, que funcionam sem parecerem forçados.

Em Antes de Watchmen: Rorschach, temos mais um grande exemplo de forma sobre substância. Mas a forma é tão espetacular que é possível até perdoar a falta de um trabalho mais inspirado por parte de Azzarello.

Antes de Watchmen: Rorschach (Before Watchmen: Rorschach, EUA – 2012/3)
Contendo: Before Watchmen: Rorschach #1 a 4
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Lee Bermejo
Cores: Barbara Ciardo
Letras: Rob Leigh
Editoria: Will Dennis, Camilla Zhang, Mark Doyle
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: outubro e dezembro de 2012  e janeiro e abril de 2013
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: julho de 2013
Páginas: 111

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.