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Crítica | Antes Que Tudo Desapareça

por Giba Hoffmann
158 views (a partir de agosto de 2020)

Conhecido principalmente pelas contribuições ao horror japonês, uma das marcas do trabalho do diretor Kiyoshi Kurosawa é a criação em cima de um blend de gêneros e com enfoque no elemento humano e questões existenciais, normalmente com algum toque satírico. Antes Que Tudo Desapareça é um bom exemplo desta abordagem. Mesclando drama, sci-fi e nuances de horror, a película retrata uma invasão alienígena em nível pessoal e em pequena escala, focando nas relações interpessoais e nos efeitos que as perfidiosas investigações dos infiltradores a respeito dos seres humanos podem ter a respeito da própria condição desses confusos seres cujo mundo se encaminha à destruição. E com ela, é claro, o inevitável esquecimento.

A ressonância temática funciona muito bem justamente ao puxar esse aspecto intimista do tradicional cenário da invasão alienígena e explorá-lo através da interessantíssima premissa de ficção científica dos infiltrados e sua busca por “conceitos”. Assim, ao mesmo tempo em que a narrativa se afasta dos lugares comuns do gênero em termos de estrutura, investindo ao contrário no ambiente do drama cotidiano, ela faz ressurgir repentinamente o clima abertamente derivativo no tema da invasão mental, garantindo à coisa toda uma insuspeita consistência.

Enquanto que a curta sequência inicial evoca uma imagética bastante tradicional do horror japonês contando com uma estudante colegial com atitude indiferente em meio a um banho de sangue, rapidamente transitamos para os problemas conjugais de Narumi Kase (Masami Nagasawa), via uma sequência onde a trilha sonora rapidamente despedaça quaisquer expectativas a respeito da pretensão de sobriedade da coisa toda, como que já preparando o espectador para a série de curvas tonais que a obra tomará de forma despojada e surpreendentemente leve. Dessa forma é que a trama se desenvolve intercalando não apenas a tonalidade, mas também os dois núcleos centrais de personagens.

De um lado, temos o sardônico reporter Sakurai (Hiroki Hasegawa) que, investigando o misterioso ocorrido com a estudante colegial, acaba encontrando Tachibana (Yuri Tsunematsu) e Amano (Mahiro Takasugi), dois jovens que alegam ser muito mais do que aparentam. Interessado na história dos alienígenas infiltrados utilizando-se de humanos como avatares para uma complexa investigação a respeito de nossa natureza, Sakurai permanece ao longo do roteiro como um ponto de vista mais cético sobre os absurdos da trama, ao mesmo tempo em que sua interação com os jovens proporciona contornos de humor situacional muito bem construído, que ajuda a quebrar o tom cínico de algumas das passagens mais sóbrias do filme.

Do outro, temos o casal disfuncional Narumi e Shinji Kase (Ryûhei Matsuda), cujos problemas se agravaram a partir da total mudança de comportamento de Shinji, que aparenta estar com um tipo muito característico de amnésia. Aqui é onde concentram os aspectos mais interessantes do filme, com diversas cenas explorando muito bem um espectro de emoções que vai desde o humor nonsense até o drama angustiante, mudança que é acompanhada pelos movimentos de câmera e trilha sonora de forma escrachada, criando um clima derivativo porém com bastante delicadeza. O flerte com diferentes abordagens ao tema é feito com simplicidade e de forma direta, decisão que, se não garante a consistência tonal da obra tomada como um todo, ao menos empresta à narrativa ares de leveza, de modo que o espectador se mantém interessado e envolvido pelas mudanças bruscas tanto quanto pelas cenas alongadas.

Adaptado de uma peça de Tomohiro Maekawa, as origens teatrais do roteiro se denunciam justamente pela frequência e centralidade que certas cenas adquirem no desenvolver da trama, identidade que é abraçada de forma explícita pela direção, que consegue combinar bem a fragilidade humana envolvida com as situações apresentadas ora com acolhedoras paisagens interioranas, ora na frieza de estacionamentos e asfalto a perder de vista. Neste sentido também Kurosawa trabalha bem as forças do roteiro, garantindo tempo de tela necessário para o desenrolar dramático de cada uma dessas situações menores, mesmo que ao custo de uma duração um tanto extensa, que por sorte raramente se faz sentir enquanto tal.

A premissa central da busca pelos “conceitos” é explicada de forma clara e direta em um momento oportuno logo ao início, evitando voltas desnecessárias e guardando a construção da tensão para o desenrolar da trama. Sem entregar mais do que essa premissa central aqui, podemos dizer que alguns dos momentos mais marcantes do filme são justamente esses da colheita de “conceitos” efetuada pelos infiltrados, que envolve um invasivo processo de indagação telepática que visa isolar componentes básicos da experiência humana de mundo. O efeito que isso tem sobre as vítimas é explorado de forma explícita em estruturas que funcionam quase como esquetes, enquanto que os efeitos das descobertas sobre os alienígenas e sua real natureza astutamente permanece encoberto para audiência. A leveza destes momentos comédicos garante passagens comédicas, poéticas e trágicas, que mantém a curiosidade do espectador ao longo dos dois primeiros atos, quando então recebem mais centralidade nossos protagonistas.

A película intercala dois desfechos, um deles trazendo um pouco da ação que se espera de um filme sobre invasão extraterrestre, enquanto que o outro continua a mergulhar a fundo no significado desse encontro entre o humano e esse ser vazio que lhe infringe (ou agracia com) o completo esquecimento. Trata-se aqui não do esquecimento da memória, mas do esquecimento do que se pode ser e dos modos como se é, fardos da condição humana que são pintados de forma equilibradamente sarcástica e sensível pela direção, o que sustenta o drama da resolução final mais do que poderia se imaginar de início.

Com uma mistura sincera e inspirada de gêneros e explorando de forma sensível uma premissa notável, Antes Que Tudo Desapareça é uma boa e original exploração do cenário mais que consagrado da invasão alienígena. O filme começa muito forte e por uma ou duas vezes parece perigar perder o seu fio apenas para provar que, por entre seus movimentos despojados, há no fim das contas uma visão unitária que une a comédia, a sátira e o derivativo em um todo coeso (e um tantinho assombroso).

Antes Que Tudo Desapareça (Sanpo suru shinryakusha, Japão – 2017)
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa, Sachiko Tanaka
Elenco: Masami Nagasawa, Ryûhei Matsuda, Hiroki Hasegawa, Yuri Tsunematsu, Mahiro Takasugi, Kazuya Kojima
Duração: 129 min.

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7 comentários

Rublev 9 de maio de 2018 - 22:17

Kiyoshi Kurosawa sempre trabalha com premissas muito criativas, achei muito intenso a forma com que resolveu fazer um comentário ao sistema de conceitos que comanda a sociedade contemporânea. Apesar de achar que a variação veloz entre o cotidiano para o galhofa me fez perder o ritmo algumas vezes.

Coloco esse filme junto com Para o outro Lado dele, são filmes que me impressionam mais pelos conceitos e pela forma que os explora que necessariamente pelo conjunto total do filme.

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G. Hoffmann 17 de maio de 2018 - 18:55

Pois é, @disqus_GvUS6T1hdY:disqus , compartilho um pouco dessa opinião sim. Nesse filme eu também me senti meio “com o tapete puxado” pela forma como a ideia tão inventiva dos conceitos acabou meio que jogada para escanteio no terceiro ato. Apesar de bem interessante a forma como ele explora a ideia ali entre o casal, fiquei com vontade de ver outras explorações possiveis do conceito.

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MrM 18 de abril de 2018 - 22:12

Assisti Creepy, Antes que Tudo Desapareça e Real desse diretor. O melhor até agora, pelo menos para mim, é o Real.
Acho que os personagens dos filmes dele são mais fortes que a própria trama. Em Creepy, o vilão é extremamente interessante. Real tem uma mistura de tudo um pouco, por isso eu gostei mais. Em Antes que Tudo Desapareça, a atriz Yuri Tsunematsu desenvolve uma Tachibana bastante perturbadora. Ela foi a personagem que mais me intrigou. Lembra bastante a Sadako de O Chamado original.
No mais, percebi um elemento comum nos três filmes: um casal que está passando por algum momento difícil e, de repente, se envolve em alguma trama surreal/ bizarra.

Responder
G. Hoffmann 17 de maio de 2018 - 18:45

Dele eu só vi A Cura, Daguerrotype e este até agora. Vou ver se consigo conferir esses outros dois. Eu gostei bastante da forma como ele aborda as
estruturas de gênero de um jeitão meio cru, ainda que isso custe aos filmes uma impressão de incoesão por vezes.

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MrM 18 de abril de 2018 - 22:12

Assisti Creepy, Antes que Tudo Desapareça e Real desse diretor. O melhor até agora, pelo menos para mim, é o Real.
Acho que os personagens dos filmes dele são mais fortes que a própria trama. Em Creepy, o vilão é extremamente interessante. Real tem uma mistura de tudo um pouco, por isso eu gostei mais. Em Antes que Tudo Desapareça, a atriz Yuri Tsunematsu desenvolve uma Tachibana bastante perturbadora. Ela foi a personagem que mais me intrigou. Lembra bastante a Sadako de O Chamado original.
No mais, percebi um elemento comum nos três filmes: um casal que está passando por algum momento difícil e, de repente, se envolve em alguma trama surreal/ bizarra.

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Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 03:07

Tive uma experiência tão ruim com esse diretor, quando assisti O Segredo da Câmara Escura, na Mostra SP do ano passado, que peguei um rancinho automático e fiquei evitando os filmes dele desde então. Fiquei feliz em ver que este é bacana. Mais pra frente vou dar outra chance a ele…

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G. Hoffmann 14 de abril de 2018 - 14:53

Sim, esse O Segredo da Câmara Escura eu achei uma bagunça do caralho! Esse aqui é bem mais amarrado, recompensou minha curiosidade… Merece uma chance sim!

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