Crítica | Ao “Chat-qui-Pelote”, de Honoré de Balzac

plano crítico Ao _Chat-qui-pelote_, de Honoré de Balzac

Esta história de amor no melhor estilo “novelão” estreia o grande projeto literário de Honoré de Balzac, a ambiciosa e incomparável Comédia Humana. Abrindo a série das Cenas da Vida Privada (dentro de um bloco maior, chamado Estudos de Costumes), esta novela teve a sua primeira versão finalizada em outubro de 1829, sendo publicada um ano depois pela editora Mame-Delaunay. Inicialmente chamado de Glória e Desgraça (Gloire et Malheur), o livro passou pelo processo que muitos outros escritos de Balzac também passaram: revisões intensas (foram quatro, no presente caso) e uma versão definitiva — em 1842 –, ao encaixar a obra logo na entrada da Comédia.

A longa narrativa inicial começa como um retrato preciso, sempre muito contextualizado e um pouco cínico da Rue Saint-Denis, em Paris. O autor nos faz focar em uma loja/residência específica, tendo como destaque, na placa acima da loja de tecidos do Sr. Guillaume, um grande gato de rabo gigante, segurando uma raquete e jogando com um humano. É a partir de observações urbanas, de um pouco dos costumes locais, da disposição do comércio na região e, em específico, da loja em destaque, que o autor nos introduz comicamente na vida dessa família austera, composta pelo pai, pela mãe e pelas filhas Augustina e Virgínia.

O impulso para o romance aqui em Chat-qui-pelote é um misto de acidente, coragem e vontade dos pombinhos, gerado a partir de um “evento urbano”. O amor entre a caçula do Sr. Guillaume e o pintor Teodoro de Sommervieux, recém-chegado da Itália, surge através de um olhar pelo qual o sentimento desponta e onde muita coisa se imagina ou se planeja apenas pela força desse olhar. Me vem agora à mente exemplos cinematográficos desse “amor pela imagem”, em diferentes conceitos: um em O Estranho Caso de Angélica e outro em Retrato de um Jovem em Chamas. Teodoro tem nesse romance um primeiro contato com uma cena familiar que o encanta artisticamente, fazendo-o apaixonar-se pela incidência da luz, pela movimentação da família e dos aprendizes da loja em torno da mesa, pelo caráter peculiar da arquitetura, dos móveis e organização da loja, dos adereços das pessoas. E desse amor pela imagem é que nasce um outro amor, pela bela Augustina, algo que o pintor não resiste e também transforma em retrato, eternizando um olhar e uma beleza que, no decorrer da obra, nos ajudaria a entender ainda mais a personalidade e caráter dele, assim como os problemas em torno desse tipo de amor: o sonho diante daquilo que se vê, o fascínio pela superfície… e mais nada.

Balzac, no entanto, não se restringe a esse olhar crítico da moral ou de um contexto mais filosófico da paixão. Seu principal foco aqui é a costura social entre as classes, e a partir dessa costura, como cada indivíduo vindo de um status diferente reage a momentos de crise, frustração ou arrependimento. A partir desse entendimento, vemos a luta para a conquista de Augustina por Teodoro. Durante todo o tempo a narrativa é clara, envolvente e divertida, tornando-se mais fácil de ler quanto mais nos aproximamos do final, pois o leitor imagina uma tragédia ou uma mudança grande na relação entre marido e mulher que, em outras interpretações, também pode ser a relação entre proletariado e burguesia ou entre intelectualidade formal e pessoas de conhecimento simples.

Eu gostei imensamente da novela até as suas últimas páginas e estava me preparando para dar uma nota muito alta para a obra, mas a passagem de uma narração mais espessa para uma rala explicação do que acontece no fim da vida da protagonista me afastou bastante do projeto. Nesse começo de Comédia Humana, Balzac nos dá todos os indícios de sua observação do mundo, dos defeitos e qualidades das pessoas em diferentes classes, da importância da construção social para as relações pessoais e, por fim, tempera toda essa visão com sentimentos, amores, arte e particularidades que tornam a obra encantadora, mesmo com sua correria destoante no final.

Ao “Chat-qui-pelote” (La Maison du chat-qui-pelote) — França, 1830
Escrito em: 1829 (primeira versão)
Editora original: Mame-Delaunay
A Comédia Humana #1: Cenas da Vida Privada (Estudos de Costumes)
Autor: Honoré de Balzac
Tradução: Vidal de Oliveira
Edição lida para esta crítica: Biblioteca Azul (Globo Livros)
75 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.