Crítica | Aquaman, de Peter David: #0 a 10

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Acertar o tom de um personagem tão maltratado nos quadrinhos como o Aquaman não é, nem em teoria, uma tarefa fácil. Sobre a linha de publicação do personagem, sabemos que sua adequação na DC, em títulos solo após a Crise nas Infinitas Terras, não foi rápida e nem livre de problemas. Antes de assumir de fato o título, Peter David passou por duas diferentes publicações, uma com foco na História de Atlantis (Atlantis Chronicles) e outra com foco em uma nova origem para o Aquaman, O Tempo e a Maré. Dessas duas sagas anteriores o escritor retirou uma porções de elementos e os explorou da melhor forma possível nessas 10 edições iniciais do título mensal Aquaman Vol.5.

Uma coisa da qual não podemos reclamar da abordagem de Peter David aqui é o ritmo. Por mais que o roteiro ainda traga coisas desse Universo marítimo que nos pareçam muito difíceis de aceitar ou compreender, aquilo que acaba ganhando maior destaque é o estabelecimento de uma vida para o Aquaman em Atlantis, sua convivência com o Aqualad, Vulko e as criaturas do mar. Começamos a jornada a partir de uma reclusão do protagonista, que assume a carranca que carregaria por praticamente toda a década de 90 e início dos anos 2000, uma marca de antissocial e arrogante que eu particularmente gosto muito, mas que muitos leitores normalmente torcem o nariz para, preferindo a versão mais sociável (embora com reservas) que Geoff Johns trouxe para o Peixoso a partir de As Profundezas.

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Dos ossos ao arpão dourado.

Os diferentes times de artistas, com diferentes pesos e qualidade que pegaram para desenhar ou finalizar essas primeiras dez edições também ajudaram a fortalecer a postura mais dura do personagem que o roteiro delineou. Barba e cabelos maiores (muitas vezes desgrenhados), expressões de ira ou cinismo no rosto e posições bastante ameaçadores são vistas por parte de Orin nessa fase e eis aí outro aspecto que também gosto dessa fase. Ele não é um homem de muitas concessões.

Não existe de fato um arco inteiro sendo trabalhado aqui, mas diversas crônicas que aos poucos se entrelaçam, até porque cada revista, além da história principal, traz em paralelo um outro acontecimento que aos poucos ganha destaque no texto. O primeiro vilão aqui é o novato Charybdis (e ‘Scylla’) guiando um plot para matar o Aquaman e terminando, como numa espécie de doce e inesperada vingança, às margens de um rio cheio de piranhas, bichos com os quais o Rei dos Mares não tinha um bom “diálogo”, dada a natureza compulsiva desses peixes. O que veio em seguida foi uma excelente jogada de Peter David, um marco, inclusive, para a redefinição da personalidade do herói em toda essa nova fase: em dado momento da briga, Charybdis consegue segurar a mão esquerda do Aquaman dentro da água e essa mão é comida pelas piranhas, sendo substituída por um arpão; primeiro, um feito por Vulko, depois, um esteticamente mais bonito e bem high-tech criado pelo STAR Labs.

No decorrer das edições temos uma sequência diferente de aparições e “inimigos que não são inimigos“, como Superboy (Kon-El) e Lanterna Verde (Kyle Rayner) ou mesmo convidados inesperados para encontrarem e, por algum motivo, brigarem com o Aquaman, como o Lobo (numa trama que começa com a pesca de golfinhos no Japão) e, o ponto mais fraco desse grande “arco”, o avanço questionável dos Deep Six de Apokolips. O estranho é que essa linha se junta a um dos mistérios mais intrigantes e mais rapidamente desenvolvidos da fase, ponto bastante positivo no trabalho do autor: o retorno de Kako  — a Inuit que foi o primeiro amor da vida do Peixoso — e a revelação do fruto desse amor juvenil, o já homem e bastante ressentido Koryak.

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O que o leitor sente bastante falta aqui é uma interação maior entre as grandes tramas, algo que só é feito pela já comentada linha transversal de cada revista. As ações, porém, são bem amplas e com resultados definitivos: Kako que se transforma em Corona; ao mesmo tempo que ocorre uma aventura paralela com Aqualad; ao mesmo tempo que algo está acontecendo com o solo abaixo de Atlantis (uma atividade vulcânica?) e, para fechar bem o bloco, uma “intriga de Corte“, só que de maneira muda, representada pela inveja do Rei Thesily e sua vontade em exterminar Aquaman e, agora, seu filho Koryak, que já começa a cair nas graças do povo.

Sentimos uma dupla intenção de Peter David aqui: ao mesmo tempo em que restabelece a história de vida do personagem (mexendo no cânone, claro), ele vai adicionando eventos próprios de seu tempo, de sua Era, incluindo etnias, gêneros, criaturas e fazendo relações que às vezes parecem apenas uma jogadinha de marketing para atrair leitores (Lanterna, Superboy, Lobo…), mas que no fundo formam um conjunto de crônicas muito interessantes. Claro que nem todas avançam bem e nem todas são boas (os Seis Profundos que o digam), mas sem dúvida são acontecimentos que ajudaram a moldar um novo momento para o Rei dos Mares. E com aquele sabor de “eu tenho um grande plano” que Peter David consegue criar tão bem.

Aquaman Vol.5 #0 a 10 (EUA, agosto de 1994 a julho de 1995)
No Brasil:
Revista do Superboy #0 a 7 (Editora abril, 1996 – 1997)
Roteiro: Peter David
Arte: Martin Egeland, Gene Gonzales, Martin Egeland, Casey Jones, Joe St. Pierre, Jim Calafiore
Arte-final: Brad Vancata, Howard M. Shum, Craig Gilmore, Rodney Ramos, Peter Palmiotti
Cores: Tom McCraw
Letras: Dan Nakrosis, Kevin Cunningham
Capas: Martin Egeland, Brad Vancata, Tom Luth, Tom Grummett, Terry Austin, John Dell, Jim Calafiore, Mark McKenna, Mike Mignola, Scott Hanna, Joe St. Pierre
Editoria: Kevin Dooley, Eddie Berganza
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.