Crítica | Aquaman: O Afogamento

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Quando a fase do Renascimento começou e Dan Abnett passou a dar contornos políticos muito fortes ao Rei dos Mares — algo que percebemos já na one-shot de apresentação dessa mensal, catalogada como Aquaman Vol.8 — muito se perguntou qual seria a intenção final do autor para o arco de introdução do herói nessa nova Era. De início, temos um roteiro que concilia divergências políticas e acena para uma tentativa de paz entre nações inimigas (quase Israel X Palestina, nas entrelinhas) e na primeira edição já coloca em cena a teimosia e constante insistência de Arthur Curry em criar uma ponte diplomática entre a superfície e os atlantes. O histórico de relação entre os dois povos não é bom e, apesar de aplaudível o estabelecimento de uma embaixada para firmar laços — indicando ações pacíficas dos dois lados –, o texto jamais deixa de lado a sensação de medo. Algo ruim estava para acontecer.

O miolo da primeira edição também traz um segundo tema, que é o problema estatal e ideológico que torna Aquaman um rei mal visto por parte dos atlantes: o fato de ele ser meio humano. O roteiro discute abertamente sobre xenofobia e indiretamente sobre racismo e patriotismo exacerbado, trazendo problemas de Estado que são comuns em muitos países hoje, como a tentativa de derrubar governantes de seus cargos porque não se concorda com algo que este governante fez. A temática não se perde em nenhum momento e é intercalada por conversas políticas e amorosas entre Orin e Mera, ambos empenhados em fazer com que a xenofobia dos atlantes seja aplacada com esse novo programa político-cultural encabeçado pelo rei. A arte dá a necessária grandeza para o espaço e nos insere com muita pompa na embaixada, mas logo se nota que o foco dos desenhos é outro.

A preocupação de Brad WalkerAndrew Hennessy, desenhistas que abrem o arco, é de criar um ritmo de paz e harmonia visuais que deve ser interrompido e logo substituído pelo caos causado pelo Arraia Negra, em mais uma tentativa de vingança. O preenchimento dos quadros e os ângulos para os desenhos mudam, assim como aumentam o número de grandes painéis para mostrar os desdobramentos do ataque, os lugares destruídos, a correria e as primeiras lutas. E sim, o roteiro confia demais nesse choque inicial e se torna um pouquinho preguiçoso, demorando um pouco trazer novidades, todavia, sempre dando para o leitor um pouco de (boa!) ação. Isso, a despeito de alguns diálogos bregas, bem no nível dos clichês de enfrentamento de vilões clássicos contra heróis clássicos. Só que essa preguiça dura pouco. E o roteiro alça um baita voo na segunda metade deste O Afogamento.

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Quando muitas coisas saem erradas ao mesmo tempo…

Toda a burocracia e decisões questionáveis que um chefe ou representante de um Estado podem tomar são vistas aos montes nessa história, acompanhadas do seu já esperado acúmulo de consequências negativas: ameaças de guerra, leitura equivocada de conjuntura e distorção de dados (ou má interpretação causada pela má vontade de olhar com cuidado para o problema). Tudo isso enquanto, nos bastidores, outros arranjos vilanescos estão sendo feitos, fortalecendo a possibilidade de tudo se tornar ainda pior.

A coisa começa a melhorar de verdade na edição 4. Na revista 5, a gente sequer ver o tempo passar. A agilidade dos diálogos e o excelente trabalho da arte e da diagramação fazem a narrativa voar. E toda a edição 6 é simplesmente um primor de encerramento de história, dando ganchos maravilhosos para a continuação da saga, tanto no bloco do protagonista, quanto do lado do Arraia Negra e da organização que acha que pode controlá-lo. Se alguém pensou que era impossível fazer algo contemporâneo e socialmente relevante em uma revista do Aquaman, certamente não contava com os planos de Dan Abnett para o personagem. Uma boa e, no geral, muito bem executada ideia focada nas relações políticas entre duas gigantes nações e grupos da Terra.

Aquaman Rebirth #1 + Aquaman Vol. 8 #1 – 6: The Drowning (EUA, 2016)
No Brasil: Aquaman n°1 (Panini, 2017)
Roteiro: Dan Abnett
Arte: Brad Walker, Scot Eaton, Philippe Briones
Arte-final: Andrew Hennessy, Wayne Faucher, Philippe Briones
Cores: Gabe Eltaeb
Letras: Pat Brosseau
Capas: Brad Walker, Andrew Hennessy, Gabe Eltaeb
Editoria: Brian Cunningham, Amedeo Turturro, Diego Lopez
164 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.