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Crítica | Aranha (2019)

por Ritter Fan
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Oito anos depois de sua abordagem biográfica da cantora e compositora chilena Violeta Parra, Andrés Wood retorna ao Cinema com Aranha, drama ficcional, mas fortemente galgado em fatos históricos que lida com os anos entre a eleição democrática de Salvador Allende para a presidência de seu país pelo Partido Socialista e o golpe de estado que o depôs em 1973, liderado por Augusto Pinochet. No entanto, no lugar de posicionar sua obra como uma visão dos meandros políticos de alto escalão que levaram à ditadura que duraria até 1990, Wood, com base em roteiro de Guillermo Calderón, entrega um recorte muito interessante e corajoso no que exige do espectador.

Lidando com a narrativa em dois momentos, intercalando os dias atuais com os anos entre 1970 e 1973, o foco do cineasta permanece constante e unicamente em três personagens que vivenciam e contribuem para a formação da Frente Nacionalista Patria y Libertad – mais conhecido apenas como Patria y Libertad, cujo símbolo lembra uma aranha, daí o título do filme – organização política de ultra-direita que nada mais era do que uma frente terrorista anti-Allende. Em outras palavras, e aí vem a ousadia do diretor e roteirista, o longa não dá outra opção ao espectador do que tentar criar algum tipo de empatia com esses personagens tanto no presente quanto no passado que, inevitavelmente, formam um triângulo amoroso.

E Wood não torna a tarefa fácil, que fique bem claro, já que o longa acompanha, nas sequências setentistas trabalhadas com um filtro levemente sépia na fotografia de M.I. Littin-Menz, o passo-a-passo da criação do grupo, com versões, digamos, reduzidas em razão de um orçamento pequeno, de eventos verdadeiros. Ou seja, de meras brigas de rua contra manifestantes pró-Allende, o trio logo gradua para atos organizados de efetivo terrorismo com o objetivo de facilitar a tomada de poder pela Junta Militar, ainda que os grandes eventos sócio-políticos em si – inclusive o golpe – permaneçam sempre em segundo plano, de certa maneira exigindo que o espectador conheça o básico da história recente chilena.

O vértice do triângulo amoroso é Inés, vivida no presente por Mercedes Morán e, no passado, por María Valverde, em duas atuações destacadas no filme. Se sua evolução – ou involução – na década de 70 é razoavelmente esperada, no presente o espectador espera algum tipo de redenção, algum tipo de arrependimento da personagem, mas, novamente, Wood não entrega o óbvio e frustra, positivamente, eu diria, as expectativas. O gatilho narrativo é Gerardo (Marcelo Alonso nos dias atuais) que, dirigindo um Chevette, faz justiça extrema com as próprias mãos contra um ladrão de bolsas no preâmbulo. Esse evento leva à sua prisão e à descoberta de sua identidade, o que acaba revirando o passado e resvalando na reputação de Inés, casada com Justo (Gabriel Urzúa no presente), seu namorado nos anos 70.

Há dois pontos a se considerar. O primeiro deles é o aliciamento de Gerardo (Pedro Fontaine quando jovem) por Inés e Justo (Felipe Armas), o que cria uma conexão maior do espectador com Gerardo quase que automaticamente, mas também hesitantemente dado o evento no presente e como ele se desenrola. Fica evidente o poder sedutor do dinheiro – e da beleza de Inés, isso não pode ser descontado, claro – para atrair o jovem e perdido Gerardo, muito claramente de outra classe social. No presente, porém, tanto Gerardo quanto Justo não parecem muito mais do que caricaturas de suas contrapartidas jovens, uma forma que o roteiro inteligentemente encontrou para colocar Inés como ponto focal, usando-a como principal fio narrativo. O outro ponto é exatamente a revisão do passado e o quanto atos de uma outra vida influenciam e informam o que Inés é hoje. Wood, nesse aspecto, não só não tem pressa, como joga o ônus de convencimento do espectador nos ombros de Morán que, por seu turno, entrega uma performance espetacular que, sim, consegue chegar ao ponto de criar algum tipo de empatia, nem que seja para ela ser vagarosamente demolida.

Obviamente, indo além do recorte, há o quanto o drama do filme pode ser transplantado integralmente para os dias atuais em diversos países do mundo com uma divisão política inconciliável, com atos e gestos radicais de intolerância e assim por diante. Por isso a escolha do roteirista em situar o passado do filme nos anos anteriores ao golpe é perfeita, pois faz com que o longa sirva de aviso, de lembrete de que os erros do passado nem sempre – ou quase nunca – servem de aprendizado e lição.

Aranha torna-se realmente valoroso ao arriscar usar como foco narrativo personagens que normalmente seriam vilões em outros filmes e por humanizá-los, sem justificá-los, muito ao contrário, o que deixa o espectador em uma sinuca de bico que, ainda por cima, faz conexão direta com a realidade atual. É como se Andrés Wood estivesse nos pedindo para odiar seu filme, mas sem esquecê-lo, sem deixá-lo de catalogá-lo em algum lugar de nossas lembranças de maneira a servir de alarme para quando for necessário.

Aranha (Araña, Chile/Argentina/Brasil – 2019)
Direção: Andrés Wood
Roteiro: Guillermo Calderón
Elenco: Mercedes Morán, María Valverde, Marcelo Alonso, Pedro Fontaine, Gabriel Urzúa, Felipe Armas, Caio Blat, María Gracia Omegna, Mario Horton, Sergio Piña, Jaime Vadell, Martín Salcedo, Rodrigo Pardow, Matías Burgos
Duração: 105 min.

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