Home TVEpisódio Crítica | Arcane – 1X01 a 03: Entrando na Brincadeira, Alguns Mistérios não Devem ser Desvendados e A Violência é Essencial para a Mudança

Crítica | Arcane – 1X01 a 03: Entrando na Brincadeira, Alguns Mistérios não Devem ser Desvendados e A Violência é Essencial para a Mudança

Um sonho de liberdade.

por Kevin Rick
1.844 views (a partir de agosto de 2020)

  • SPOILERS

Arcane é o começo de um projeto de franquia televisiva e cinematográfica que pode tomar ares gigantescos. Ambientada no famosíssimo universo de League of Legends, um jogo eletrônico online que conta com uma legião de fãs mundo afora, a série é a primeira investida da companhia Riot Games no meio televisivo e cinematográfico. Dominando a indústria de games e esportes eletrônicos na última década, em grande parte por causa de LoL, a empresa americana começa sua entrada em um novo mercado artístico fazendo uma ponte entre atrair um novo público (especialmente de animes) ao mesmo tempo que homenageia quem está familiarizado com o jogo. É uma jogada inteligente da Riot, iniciando uma trajetória claramente com propósito expansivo no formato televisivo e animado, que diminuem riscos de engessar um universo audiovisual que acabou de começar, vide o que aconteceu com a “não-franquia” de World of Warcraft.

Confesso que não sou intimamente familiarizado com LoL, mas isso está bem longe de ser um problema na trinca de episódios que foram lançados na Netflix. Até pensei em fazer a crítica por episódio, mas a proposta da temporada é o lançamento de três mini-arcos semanais, cada um contando com um trio de capítulos, motivo pelo qual prezei pela “crítica única” a cada arco. Contexto dado, podemos falar da trama em si. O show gira em torno de um punhado de personagens de League of Legends e dá mais detalhes aos seus backstories dentro do mundo expansivo de Runterra. Somos apresentados a “dois mundos”: a rica cidade de Piltover e a cidade subterrânea de Zaun, assim como aos “campeões” do jogo de arena.

O primeiro arco é focado na história de origem das irmãs Powder (Mia Sinclair Jenness) e Vi (Hailee Steinfeld), através da morte de seus pais, a passagem de alguns anos e sua adoção por um grupo de rebeldes igualmente privados de direitos, liderados pelo carismático Vander (JB Blanc). O intuito dos showrunners Christian Linke e Alex Yee é usar sua típica história de dualidade de jogos de batalha para criar um vínculo entre jogabilidade (oposição da batalha) e drama (divisão entre personagens e locais). Vemos isso tanto na construção de mundo quanto nos arcos da irmãs, nos situando em uma guerra com dois lados bem evidentes, mas igualmente complexos.

Em suma, Arcane quer que conheçamos, simpatizamos e nos importamos com esses personagens e universo antes da fissura – que ocorre no fantástico final do terceiro episódio. Interessante como os criadores tomaram uma rota dramática extremamente adulta nesse sentido. O enredo é bastante sombrio no contexto de diferenças de classes e jornada de amadurecimento do grupo que segue Vi, criando um universo desigual e inserindo os personagens principais em um caluniado gueto acompanhado de cicatrizes do passado. De certa forma, não parece (ainda) uma série totalmente épica e com grande escopo, conforme assume uma postura de estudo de personagem de Vi e Powder em um entorno fantástico, mas certamente é um épico trágico pensando no desenvolvimento pessoal da dupla.

Existe uma dramatização muito forte na maneira que os diretores Pascal Charrue e Arnaud Delord filmam as personagens. Do momento em que vemos as duas ainda crianças em um cenário de morte, pontuado por névoas “sangrentas” e o som triste de Powder cantando, até o rompimento das duas em frente ao cadáver de Vander, Arcane sempre cria grandes encenações para as irmãs. A violência é muito bem usada para dar carga dramática, felizmente se distanciando do gore gratuito que vemos por aí, com ótimo uso técnico de slow-motions para evidenciar a dor ou o ambiente violento – vemos isso na sensacional luta entre os personagens principais e um grupo rival nas vielas – e mortes com impacto emocional no destruidor terceiro capítulo.

Pensando por um lado negativo, existe um caráter genérico que acompanha o desenvolvimento desses personagens principais, especialmente nos diálogos um tantinho cafonas à la animes, mas o show consegue carregar um fio simpatizante e dramático muito emocionante no relacionamento de Powder, Vi, Vander, Mylo e Claggor. Também tenho um certo problema com a correria para chegar no momento de ruptura entre o grupo, deixando a decisão de Powder se juntar ao antagonista estranhamente súbita, assim como uma espécie de incômodo na apressada morte de Mylo e Claggor antes de termos mais interações do grupo, como na lúdica escapada do Ladoalto. Essa pressa é, no entanto, parte de uma estrutura que queria terminar a história de origem rapidamente, como também consequência da construção de mundo e as várias subtramas de Arcane.

Visualmente, a série é um deleite para os olhos do espectador. A parte estética é uma fusão difícil de definir de 2D e 3D que parece bastante diferente da maioria das outras animações de computador, mantendo uma textura pitoresca na ambientação, mas inesperadamente realista também (em especial a caracterização dos personagens), enquanto mantém uma fluidez assustadora entre coreografias de combate e parkours em Piltover. A parte inferior tem uma textura suja e úmida, com iluminação neon, que criam o ambiente underground, enquanto a parte rica da série assume um visual de steampunk, com cores pastéis e metálicas. Pascal Charrue e Arnaud Delord são bem inventivos com o jogo de câmera nas grandes paisagens cheias de movimentos e perspectivas do Ladoalto, mas também executam com cuidado os cenários densos e enclausurados de Zaun – além do já citado ótimo uso de slow-motion.

A rica mitologia de League of Legends é expandida com uma linguagem visual espetacularmente expressiva. Em contraponto, do lado textual, o lore da série posiciona Vi e Powder como peças essenciais em um jogo em larga escala de política, ciência e guerra iminente. Fiquei fascinado pela pluralidade da série, inserindo fantasia, drama político, ficção científica e até thriller sem cair numa construção superexpositiva. Vejo, no entanto, certa dificuldade em equilibrar tantos gêneros e subtramas – o núcleo de Jayce e a Hextec me soou extremamente desinteressante, apesar de curtir o entorno político -, o que, como consequência, detrai do foco deste arco: a história de origem de Powder e Vi, retornando àquilo que citei de uma narrativa apressada.

Contudo, são problemas que encaro com certa normalidade dentro da estrutura de série e o caráter introdutório de apresentar mitologia – e aí temos a difícil situação da crítica antes da temporada se finalizar, pois são desenvolvimentos que eu possa gostar nos próximos episódios. Por fim, sinto uns probleminhas aqui e ali na trinca inicial, como o texto meio genérico e algumas resoluções súbitas de personagens, mas são pormenores em um ótimo início para a franquia de League of Legends fora do mundo dos games. Com uma animação técnica excepcional em cada frame, também cabendo elogios ao design de som que pula entre o pop e o orquestral com controle do sentimento que quer passar, Arcane nos situa em um universo rico e fantástico, divisivo e plural, e certamente intrigante de continuar acompanhando.

Arcane – 1X01 a 03: Welcome to the Playground, Some Mysteries Are Better Left Unsolved e The Base Violence Necessary for Change (EUA, 06 de novembro de 2021)
Criador por: Christian Linke, Alex Yee
Direção: Pascal Charrue, Arnaud Delord
Roteiro: Christian Linke, Alex Yee (baseado no universo League of Legends)
Elenco: Hailee Steinfeld, Ella Purnell, Kevin Alejandro, Katie Leung, Jason Spisak, Toks Olagundoye, JB Blanc, Harry Lloyd, Mia Sinclair Jenness, Remy Hii, Mick Weingert, Josh Keaton
Duração: 128 min.

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