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Crítica | Armageddon Time

Um enredo de derrotas: os anos de aprendizado de James Gray.

por Fernando JG
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Vivendo num país prestes a eleger o governo do inconciliável Ronald Reagan, a família de Paul Graff, de origem judia, embora financeiramente estável, convive com o fantasma do antissemitismo e do exílio. Ao mesmo tempo em que tem a percepção do não pertencimento de sua família no contexto da sociedade norte-americana, o pequeno Graff convive com a normalização contraditória do racismo por parte de seus pais, que desprezam cidadãos de etnia negra. Frustrado com todos os estímulos que recebe do seu clã-familiar, e igualmente com a configuração do seu entorno, o jovem artista em formação parte numa busca por formar-se e reconhecer-se plenamente tal qual como quer ser, e não como querem seus pais. O protagonista dessa excelente storytelling logo encontra-se num impasse que parece ser muito maior do que sua própria vontade de mudar o mundo e prontamente evidencia uma torrente de desilusão e desencanto.

Muito distante de ser um retrato do artista quando jovem, a película autobiográfica de James Gray, embora seja um indiscutível coming-of-age amparado nos tópicos mais centrais da tradição do bildungsroman, opta por fazer uma revisão crítica de seu passado através de rememorações de situações da infância. O cineasta interessa-se antes em expor os agentes externos que entram em conflito com os ideais em formação do jovem Graff do que explorar seu talento para a arte, com isso ele nega, no enredo, um trabalho com o talento artístico do rapaz, de modo que não é pela arte que o faz triunfar. Na verdade, tudo parece ser derrota e anti triunfo numa obra que rejeita o conceito de vitória, seja ela qual for. Com doses de objetividade fílmica e um parco lirismo, a ideia de formação aqui não é positiva, porque a formação é crise moral, crise de valores e mea culpa

Nota-se que no decorrer do enredo a ideia de bildung converte-se numa crise da formação, uma vez que a ideologia dominante do seu meio entra em choque direto com os princípios desse personagem, que age a todo instante em movimento de recusa ao mundo. A razão da recusa de Graff é perceber a contradição de um entorno permeado por injustiças, de modo que ele, rebelde, se abstém dessa formação. Ora, um dos paradoxos que inquietam o garoto é o fato de a sua família ser judia, vítima de um processo histórico destruidor, mas ao mesmo tempo contribuir com o racismo em relação aos cidadãos negros da cidade. 

Compreende-se, aí, o distanciamento com os seus pais e a extrema intimidade com o seu avô, Aaron Rabinowitz (Anthony Hopkins), este, o ideal perfeito de humanismo e exemplo a ser seguido pelo garoto. A segunda razão da recusa se encontra num lugar-comum, isto é, num diálogo com a tradição romântica que entende a figura do artista como uma sina maldita que o leva a ser errante, rebelde, problemático e inconformado. Assim, desde cedo Paul percebe-se nesse lugar de indisciplina e gênio artístico. 

Neste sentido, observa-se sem muito esforço que Armageddon Time faz parte de um mea culpa do cineasta, que revê não só o seu passado com um olhar crítico, mas todo um processo histórico da constituição da violência racial. Este é um dos pilares centrais do filme, do começo ao fim. Tenho a impressão de que o cineasta sente-se, e não sem razão, como parte do problema. A película é um exercício de autocrítica que o redimensiona no jogo social a partir de um emergir de consciência crítica. É nesta revisão que se coloca a agonia de perceber a ambiguidade e a complexidade do problema: ao mesmo tempo em que sofre com as injustiças, é ele, simplesmente por ser aquilo que é, parte constitutiva e causa do problema racial. A culpa burguesa se evidencia em cada plano que entrecruza as falas de seus familiares com o aparecimento de Johnny (Jaylin Webb), seu único amigo negro, e que é alvo de incessantes implicâncias por parte de todos. Talvez seja nesta mea-culpa que se encontre a resposta da melancolia do personagem: perceber que mesmo cometendo os mesmos delitos que o seu amigo ele sempre é salvo de alguma maneira.

Agora, as soluções formais encontradas para trabalhar a imagem do filme são geniais. Desde os tons escuros, ao primeiro-plano, o fechamento da câmera em close-up na face de Graff quando a “casa cai” na hora do roubo, até mesmo o posicionamento da câmera no momento em que o pai quebra a porta do banheiro e entra numa arrancada só, são de tirar o fôlego e partilham com o público a intimidade da obra. A retórica do filme é pensada a partir do texto e da imagem e por isso mesmo deixa a trilha em segundo plano, sendo apenas um acessório. Banks Repeta, que interpreta o protagonista, é uma joia preciosa. A sua atuação objetiva transmite sentimentos variados, comovendo em cada olhar deslocado, a cada aspiração não realizada, a cada asa cortada pelo seus pais. O filme tem essa preocupação em ser cru, extremamente objetivo e sem mergulhos subjetivos em problemas de ordem sentimental. E mesmo assim, afastando-se do lirismo, a obra carrega um forte apelo emocional pela trama que move no seu interior.

Em contraposição, quase não há espaço para outros personagens. Anne Hathaway, que faz o papel da mãe Esther Graff, não erra em nada, como de costume, porém não tem muito a oferecer em termos dramáticos, bem como Jeremy Strong, que faz o pai Irving Graff. O irmão é algo praticamente inexistente, existindo apenas como uma sombra daquilo que Paul deve ser no futuro – e que jamais será. O roteiro extrapola num estudo de personagem como se fosse filme de um sujeito só, quando poderia aprofundar a trama através do desenvolvimento de personagens essenciais, como o próprio Johnny, seu amigo de infância, que está o tempo todo com ele nas aventuras, mas que é esquecido pelo cineasta, levando-o a um lugar apenas de objeto compositivo do drama. Não sabemos nada sobre ele, senão que há uma profunda culpa, uma culpa social, por parte do filme, em relação ao destino de Johnny. 

Quando parte em retirada ao final do filme, caminhando num passo lento, mas contínuo, observamos que o que se tem como resultado final de toda essa viagem característica de um filme de amadurecimento é a frustração: frustração de não se encontrar, de não pertencer, de ser diferente. O desenlace não é outra coisa senão enfado e desilusão por ouvir um discurso que não cabe a si e nem ao mundo real. Novamente, mais uma ruptura e mais uma recusa. Cabe apenas o desejo de uma mudança, por isso a fuga. Por isso mesmo o filme não se compromete em apontar os caminhos da mudança, tampouco em fazer propaganda demagógica de um futuro renovador. Assume a sua culpa pessoal, confessa-se ao público por meio de uma storytelling perfeitamente coesa e sai de cena como que despercebido, humilde e tímido. 

Formar-se, num gênero como coming-of-age, significa não apenas descobrir algo novo, aprender algo que não se sabia, mas redimensionar o já sabido, rever valores, investigar a justo e colocá-lo em experiência. Assim, o aprendizado que há aqui encontra-se fora da película e não nela especificamente. Saber olhar em retrospectivo e reelaborar de modo maduro e crítico o seu passado e o seu lugar na História é o grande conhecimento que obtém James Gray durante seus anos de aprendizado.

Armageddon Time (2022, EUA)
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray
Elenco: Banks Repeta, Anne Hathaway, Jeremy Strong, Jaylin Webb, Anthony Hopkins, Ryan Sell, Tovah Feldshuh, Andrew Polk, Dane West, Landon James Forlenza, Richard Bekins, Jacob MacKinnon, Domenick Lombardozzi, John Diehl, Jessica Chastain
Duração: 115 min. 

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