Crítica | Arquivos da Patrulha do Destino – Vol.3

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Criada na edição #80 da revista My Greatest Adventure, a Patrulha do Destino se estabeleceu com facilidade e rapidamente caiu nas graças do público, graças a uma estranha combinação de tramas bizarras e equipe estranha, com humor ácido e muito mistério envolvendo os próprios membros. Muitas histórias de ficção científica e de fantasia moldaram a jornada da equipe, que um ano depois de ter sido criada, já ganhou título próprio, sendo o carro-chefe do que antes era a MGA. No presente compilado, trago as críticas para as edições #98 a 105 da Doom Patrol Vol.1, + Challengers of the Unknown Vol.1 #48, publicadas entre setembro de 1965 e agosto de 1966.

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A Morte da Patrulha do Destino e 60 Segundos Sinistros

The Death of the Doom Patrol + 60 Sinister Seconds

plano critico patrulha do destino The Death of the Doom Patrol

Aqui surge o vilão Mr. 103 (Jonathan Dubrovny), capaz de fazer reconstrução molecular, o que dá à primeira parte dessa história algo que eu adorei ver: a brincadeira do roteiro (e principalmente da arte) com Química. Eu não sou da área, mas simplesmente amo química, então sempre fico besta quando esse tipo de vilão e transformações aparecem, especialmente dentro de uma narrativa maluca como a que temos nessa história. O engraçado é que lidamos com duas frentes de ação aqui, uma com a dissolução da Patrulha e outra com a chegada do Mr. 103. Para mim, tudo funciona nessa primeira parte. Até as explicações abreviadamente didáticas são legais e, mais uma vez, destaca-se a arte de Bruno Premiani no sentido de transformações malucas, algo que já havíamos comprovado no trabalho do artista quando desenhou as mutações do Homem-Animal-Vegetal-Mineral. O único problema do texto de Arnold Drake aqui é que ele larga a mão de uma baita saga interessante de roubo por um baita vilão interessante e termina a crônica aos borbotões, com um monte de coisas feitas em elipse e uma absurda sequência de “operação” do Chefe pelo vilão. O velho caso de roteiro que se auto-boicota.

A segunda história da revista, 60 Segundos Sinistros, tem aquele sabor todo especial de uma ação com tempo certo para terminar e, se o herói da ocasião não for bem sucedido, o mundo irá acabar… A gente já está acostumado com esse tipo de drama através do cinema ou dos desenhos animados, então temos aquela emoção já conhecida de ver o tempo passando e a ansiedade aumentando enquanto o herói busca cumprir uma difícil tarefa. E novamente nos deparamos com o roteiro colocando uma coisa para estragar a história no final. Sério, que diabos foi aquela coisa horrorosa das linhas telefônicas se o Homem-Negativo já estava conseguindo desativar todas as bombas? Sinceramente… Duas histórias com excelente início e bom desenvolvimento, mas com um final estragado.

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A Picada Mortal do Bug Man

The Deadly Sting of the Bug Man

plano critico patrulha do destino The Deadly Sting of the Bug Man

A primeira das duas histórias dessa edição #99 da PD Vol.1, que envolve o Bug Man, é um ponto fora da curva em uma linha sólida de boas aventuras da equipe. O princípio não é muito diferente das ações “isoladas” do grupo, momentos que acabam se integrando a algo maior e funciona de maneira simples, mas sem grandes atrativos. Quando o vilão aparece, o primeiro incômodo vem junto, porque ele é algo diferente do que o título e o próprio roteiro dão a entender. No decorrer da trama, que é bem chatinha, vemos o personagem tentar conquistar a cidade da Patrulha e as ações dos desajustados para impedir que o carinha-inseto consiga seu intendo. O curioso é que a segunda história, que traz a estreia de Mutano nos quadrinhos, é realmente muito boa. Não escreverei sobre ela aqui, porque já fiz uma crítica separada para este conto e também para o primeiro da edição #100. Vocês podem conferir o texto no link a seguir: Patrulha do Destino: A Origem de Mutano.

Já o segundo conto da edição #100, Homem-Robô — Procurado Vivo ou Morto (Robotman –Wanted Dead or Alive) forma um díptico imediato com o segundo conto da edição #101, O Gigante Solitário (The Lonely Giant). Nessas histórias temos a origem do Homem-Robô e, pela primeira vez, um grande número de explicações para o comportamento de Cliff. Particularmente achei as duas historinhas maravilhosas e com um ritmo de acontecimentos que parece quase inacreditável vindo de Arnold Drake, pois funciona sem acavalamento no final e tem aproveitado todo o espaço para focar em um único drama. A pegada depressiva que já vimos no Homem-Robô antes (Confronto na Estrada do Pesadelo) se mostra aqui como um conflito compreensível, de um homem cheio de ação em sua vida que, por conta de um acidente, se vê agora em um corpo de metal. A aceitação de sua nova realidade é o verdadeiro foco desses dois fantásticos enredos. Uma inesperada e muito bem-vinda adição à revista da Patrulha do Destino.

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Eu, Kranus, Robô Imperador

I, Kranus, Robot Emperor!

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Depois da apresentação de Mutano, era compreensível que o garoto verde com poderes de se transformar em qualquer animal tivesse uma participação recorrente na revista, afinal, ele encerra todas as características principais dos membros do grupo, em estranheza e modo de encarar a vida. Duas linhas de ação se estruturam no presente roteiro, a primeira, ligada a Nicholas Galtry, o guardião do dinheiro de Gar, que novamente está em dívidas devido aos seus maus investimentos e que está roubando o dinheiro herdado pelo garoto para cobrir seus fracassos financeiros. A segunda, ligada a uma investigação do Chefe sobre uma certa “presença alienígena”, que posteriormente conheceremos como Kranus (na verdade, o Cérebro, no corpo de um robozão). O que mais me chamou a atenção aqui foi a relação de Mutano com o restante da equipe, especialmente as brigas com o Homem-Robô que eu simplesmente amo, sério. O humor e o cinismo do menino e o pavio curto de Cliff são uma combinação propícia para o humor, o que gera cenas realmente engraçadas. O enfrentamento da ameaça nem é a coisa de maior destaque da revista, mas pelo menos termina rapidamente e… como um verdadeiro milagre, sem aquele atropelamento que encontramos nas edições anteriores. E no fim, temos o chamado dos Desafiadores do Desconhecido, já indicando qual seria a próxima aventura da Patrulha, na revista de outra Equipe B da DC na Era de Prata…

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8 Contra Eternidade

8 Against Eternity

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Aqui temos a continuação da história iniciada em Crepúsculo dos Desafiadores, uma trama que, por pouco, não cai no mesmo abismo de inventar modinhas na segunda parte da narrativa e estragar tudo o que tinha de bom até então. O bom dessa história é que ela começa totalmente despreocupada, com cada um dos três membros da Patrulha fazendo coisas diferentes, curtindo a vida fora do trabalho, algo que é sempre bacana de ver os heróis fazendo. Mas, como sempre, o dever chama e eles acabam se reunindo ao Chefe, que os leva aos Desafiadores. Mais uma parceria será realizada para investigar algumas ruínas submarinas, próximas aonde a antiga Atlantis supostamente haveria afundado. Se a gente cortar a parte em que o roteiro acha que está fazendo algo de muito bom ao “EXPLICAR” a preservação dos corpos daquela civilização, o que sobra é uma boa sequência de ação e uma luta que entretém a maior parte do tempo (a outra parte é marcada por verborragia demais, diálogos desnecessários e “narrações-explicativas” que nada explicam). A entrada de Mento e Mutano, no final da luta, surpreendentemente não atrapalha nada, muito pelo contrário. E o bom disso tudo é que a parceria com os Desafiadores finalmente terminou. Parece que essas equipes juntas não conseguem segurar uma história inteira sem causar pelo menos um pouco de raiva no leitor, é impressionante…

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O Homem Meteoro e Sem Lar Para um Robô

The Meteor Man + No Home for a Robot

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Nos moldes completamente malucos da Patrulha do Destino, essa historinha sci-fi é um troço divertido demais, especialmente porque consegue jogar, com muito sucesso, com a ideia de despistar o leitor, mas não com coisas bobas. O que eu gosto dos bons roteiros com essa equipe é que tudo parece ter sido feito por pessoas completamente chapadas e com um senso de humor sombrio que é uma verdadeira delícia, em se tratando de histórias curtas — aliás, esse formato de histórias curtas parece ser mesmo o ideal para a Patrulha nessa configuração atual. E fica ainda melhor quando a correria para encerramento da história não existe e quando o humor é uma das camadas bem exploradas da revista, porque… quem é que não gosta de ler histórias engraçadas com super-heróis malucos e briguentos, não é? Aqui, devo dizer que a aventura espacial do Chefe (um fracasso, diga-se de passagem) serviu como criação desse Meteor Man (Prof. Randolph Ormsby) e permitiu uma interação rápida e cheia de boas surpresas, com direito até a um Mutano clandestino na nave. Tudo bem que existem pontos que parecem não ter a atenção que mereciam por parte do roteiro, mas nada aqui é chato ou grandiosamente incômodo. Me diverti demais!

A segunda história também segue o mesmo caminho de desenvolvimento aplaudível, sendo uma continuação da saga de origem do Homem-Robô. O bom desse drama é que ele parece ser óbvio, mas aos poucos vai nos colocando em lugares diferentes, revelando verdadeiras intenções, fazendo com que as primeiras andanças de Cliff sejam uma das melhores (e inimagináveis) coisas do pré-Patrulha.

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A Noiva da Patrulha do Destino 

The Bride of the Doom Patrol

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Ora… mas vejam só! A primeira coisa a dizer sobre essa aventura é que ela segue uma linha muito interessante de estrutura de roteiro que Arnold Drake parece ter dominado desde algumas edições passadas e agora consegue colocar em cena de maneira muito bem pensada. Jogar com as expectativas do público é sempre muito perigoso e isso poderia ter um preço alto para a revista dos Patrulheiros, mas pelo menos até o momento, as coisas parecem se ajustar bem nesse molde. E aí é necessário trazer à tona a questão do casamento, que cumpre muito bem os avisos colocados já na capa da publicação. Há uma camada moralmente interessante para se trabalhar nessa história, levando em consideração a proposital exposição do machismo de Cliff e Larry em relação a Rita. Não que o próprio autor não tenha escrito coisas nessa linha para Rita antes, mas aqui, ele usa esse tipo de fala masculina dominadora de forma exagerada para mostrar um contraponto, a tomada de decisão da Mulher-Elástica em relação a Mento “Gado” e ao tal casamento anunciado.

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Por que a Mulher-Maravilha está agindo assim? Por que Superman está falando essa bobagem de “Clark cobrindo o evento”? Por que Mento está se casando de ‘capacete’?

Em relação a essa dinâmica, é bom dizer que eu gosto de tudo. Acho a briga coerente com o comportamento do Homem-Robô e do Homem-Negativo; acho o comportamento de “saco cheio” de Rita coerente com o que ela já havia apresentado e também a postura mais pragmática do Chefe em relação a todas essas picuinhas. Também é preciso ressaltar que o trabalho vilanesco — colocado de maneira um pouco desajeitada pelo roteiro — acada funcionando. O problema é mesmo o final da história, que parece se estender apenas para aquela cerimônia, que parece não fazer absolutamente nenhum afago com a presença de uma parte da Liga da Justiça e dos Jovens Titãs no evento. Estranho… e com um desfecho que deveria animar, mas acaba tendo um baita sabor de anticlímax. A visão bastante positiva em relação a revista, porém, vem mais pelo seu início e desenvolvimento, que acho realmente fantásticos.

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Lua-de-Mel de Terror e O Criador de Robôs Deve Morrer

Honeymoon of Terror + The Robot-Maker Must Die

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É só elogiar que começa a “dar errado”, não é? Depois de uma porção de boas histórias, voltamos aqui ao básico do básico, com uma trama que com muito esforço consegue ficar acima da média e uma conclusão para a saga do Homem-Robô que mostra exatamente o oposto daquilo que eu tanto elogiei no conto anterior. Num primeiro momento, lidamos com a “Lua-de-Mel” de Rita e Steven, mas definitivamente não podemos classificar o que vemos aqui como Lua-de-Mel. Ambos são visivelmente um viciados em trabalho e isso já entra como um peso bastante negativo para a relação, tendo uma posição curiosa por parte do autor para narrar os pedidos de “seja uma bela-recatada-e-do-lar” de Mento e o joguinho de Megera Domada da Mulher-Elástico, mais um duo curiosíssimo em relação ao tratamento do machismo numa HQ da Era de Prata, tendo aí, em vez da simples exposição, um rebate firme por parte da heroína (mesmo que de modo disfarçado), o que para mim é o mínimo esperado — já que vejo como historicamente compreensível o tom da imposição masculina nas HQs desse período, afinal de contas, os quadrinhos, como qualquer arte, são sujeitos aos preconceitos e comportamentos questionáveis de seu tempo. A questão é que a batalha contra o Mr. 103 aqui é bem meh, absolutamente diferente do que fora na estreia do personagem, em A Morte da Patrulha do Destino.

Então chegamos à conclusão da história do Homem-Robô e… não era para ser diferente? Depois de todo o conflito interno bem escrito para o personagem, depois de todas as andanças, a colocação do Chefe, a fuga do personagem, a gente chega… nisso? É sério mesmo, Sr. Arnold Drake? A questão não é que o roteiro é ruim. É que ele está quilômetros abaixo de todas as expectativas criadas pelo próprio autor, que manteve um bom andamento para essa origem e terminou tudo às pressas, enfiando os outros dois membros da Patrulha no final, dando um ar de “origem da Patrulha do Destino” que simplesmente não dá pra engolir.

Doom Patrol Vol.1 #98 a 105 (EUA, setembro de 1965 a agosto de 1966)
Roteiro: Arnold Drake
Arte: Bruno Premiani
Arte-final: Bruno Premiani
Letras: Stan Starkman
Capas: Bruno Premiani, Bob Brown
Editoria: Murray Boltinoff
12 a 24 páginas (cada história)

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Crepúsculo dos Desafiadores

Twilight of the Challengers

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Existe um tipo de roteiro que irrita. Aquele que começa muito bem, mostrando com competência os personagens de uma história (especialmente nesse caso, com uma aventura dos Desafiadores ao lado da Patrulha), mas que rapidamente começa a descer a ladeira da qualidade, se tornando chato, redundante e cheio situações sem graça, que estão ali apenas para preencher a cota de páginas por revista. Pois bem, essa história é um desses casos. Até a metade da trama, para mim, a leitura foi pura diversão. Em cena, a League of Challenger Haters, formada por Kra, Volcano Man, Drabny, Multi-Man (truta forte de poderes com o Homem-Animal-Vegetal-Mineral e o Mr. 103) e a Multi-Woman. O momento até a libertação dos Desafiadores de sua condição de coma foi muito interessante, divertido de se ler, mesmo com um flashback um tanto truncado no meio do caminho. Mas aí veio a segunda parte e… boy oh boy… que coisa mais chata! Eu perdi as contas de quantas vezes bocejei durante a leitura e fui me enraivecendo cada vez que constatava que um texto tão divertido se transformou em um troço que eu torcia para que acabasse logo. Tirando as brigas entre os pavios-curtos das duas equipes, quase nada se salva desse segundo bloco. Que desperdício…

Challengers of the Unknown Vol.1 #48 (EUA, março de 1966)
Roteiro: Arnold Drake
Arte: Bob Brown
Capa: Bob Brown
Editoria: Murray Boltinoff
24 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.