Crítica | Arranha-Céu: Coragem Sem Limite

“Isso é estúpido.”

Um filme protagonizado por Dwayne Johnson, também conhecido carinhosamente como The Rock, já se tornou um filme não com o mero protagonismo de Dwayne Johnson, mas com a sua cara, ou seja, uma espécie de formato e tipo só seu, evidenciando toda a aura quase mística em volta desta personalidade bastante querida e endeusada pelo público. O ator, embora limitado em termos dramáticos, consegue relacionar-se com o público em carisma extremamente bem, sendo uma personalidade que dificilmente nutrirá antipatia de algum espectador. A questão é que, hora ou outra, The Rock depara-se com um papel extremamente batido: o marido e pai incrível, que ama muito a sua família. Esse casamento tem resquícios da época de Treinando o Papai, mesclando esse seu lado com o cinema de ação, exatamente o que aconteceu com o fraco Terremoto: A Falha de San Andreas. A questão é que, dada a limitação dramática do ator, e uma direção bastante convencional, o envolvimento do espectador com a situação vivida pelo seu mais novo – e velho – personagem, ou seja, a iminente perda da família, não convence pelo contexto. O contexto apenas existe para que Dwayne Johnson realize façanhas incríveis e isso ele faz como poucos.

Em Arranha-Céu: Coragem Sem Limite, Will Sawyer, interpretado por Johnson, é um ex-agente do FBI contratado como chefe de segurança por um bilionário interessado em finalmente abrir a área residencial de sua construção, um prédio de mais de duzentos andares, aparentemente impenetrável. Sawyer, dessa forma, tem que lidar com uma conspiração responsável por interromper as seguranças do arranha-céu, iniciando um incêndio apenas poucos andares abaixo daquele que sua família está hospedada. Tudo isso com apenas uma perna. Justamente em razão do absurdo desse caso, o espectador fica engajado na narrativa, salvando-a de qualquer desinteresse pré-conceituoso. São inúmeras as vezes nas quais o personagem principal realiza feitos formidáveis, humanamente impossíveis. A abertura de Missão Impossível 2, com Tom Cruise passando as férias pendurado em um penhasco, não é nada se comparada com umas três ou quatro cenas deste longa-metragem. Em razão disso, estabelece-se o entendimento de uma brincadeira quase metalinguística de seu cinema com o espectador, repetida em proporções cada vez maiores a medida que seus filmes vão sendo lançados.

Por outro lado, é como se o fato do protagonista não ter uma perna justificasse completamente a existência de mais um filme com esse mesmo formato, em inspirações claras de Duro de Matar e Inferno na Torre. Como funciona, mesmo sendo nada original, espaço é dado para que essa combinação de diversão involuntária, diante de situações absurdas, com o gênero de ação, naturalmente empolgante, funcione em uma considerável parte do tempo. Na filmografia do ator, contudo, muitas poucas vezes ele realmente foi levado, com toda a essência espirituosa possível, por esse caminho mais lúdico, insistindo, pelo contrário, em uma pieguice sentimentalista absurda, que não convence. Arranha-Céu não é diferente nesse assunto. A família da vez é genérica, embora Neve Campbell, interpretando a esposa de Sawyer, esteja maravilhosa, roubando a cena e criando uma nova ótica do espectador em direção a personagens femininas de longas de ação. A participação da atriz está muito longe de ser passiva, à espera do resgate, trabalhando, de certa forma, em conjunto com o marido, apesar de estarem, muitas vezes, distantes um do outro. Uma outra cena, com  Georgia Sawyer (McKenna Roberts), também evidencia muito bem essa vertente mais subversiva.

Sendo assim, Rawson Marshall Thurber decepciona, como roteirista e diretor, ao não querer sair dessa zona de conforto narrativa. Os acertos da direção, em contrapartida, são consideráveis nas cenas de ação propriamente ditas, combinadas como uma fotografia belíssima, que enaltece todo o senso de grandiosidade envolto do protagonista e do arranha-céu em si. A sequência final, dentro da sala espelhada, é bastante criativa e até mesmo impressionante. A obra acaba por ser um espetáculo visual, mas poderia assumir, de vez, seu caráter paródico. Por exemplo, o texto do filme não possui uma linha de diálogo sequer que seja memorável. Na possível intenção de ser um exemplar de cinema brucutu repaginado para o século XXI, o filme poderia ter ousado mais nos interlúdios entre um absurdo e outro. Esses meios são muito pouco inspirados, evidenciando um roteiro problemático, extremamente previsível e com pouca carga dramática desenvolvida. Arranha-Céu pode muito bem ser o ápice dessa auto-paródia do The Rock, ao menos em termos de cenas de ação pontuais, mas poderia muito bem ser um filme muito mais memorável, descartando essa seriedade piegas e assumindo o que ele verdadeiramente é.

Arranha-Céu: Coragem Sem Limite (Skyscraper) – EUA, 2018
Direção: Rawson Marshall Thurber
Roteiro: Rawson Marshall Thurber
Elenco: Dwayne Johnson, Neve Campbell, Chin Han, Roland Møller, Noah Taylor, Byron Mann, Pablo Schreiber, Hannah Quinlivan, McKenna Roberts, Noah Cottrell, Kevin Rankin, Adrian Holmes
Duração: 102 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.