Crítica | Arrow – 7ª Temporada

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Confesso que, depois da surpreendentemente boa 6ª temporada – a única que realmente merece esse adjetivo – fiquei com esperança de que Arrow encontraria seu caminho. Afinal, antes tarde do que nunca, não é mesmo? No entanto, a 7ª temporada veio e, ainda que não tenha despencado para o nível de uma 4ª temporada da vida, desaponta ao mais uma vez perder aquilo que trouxe qualidade para a anterior: foco. Sem ele, a nova showrunner, Beth Schwartz, atira para todos os lados e acaba se perdendo, mesmo que por vezes ela deixe entrever o potencial de certas linhas narrativas.

No entanto, apesar dos problemas, é necessário elogiar a manutenção da continuidade do grande evento que encerrou a 6ª temporada, ou seja, a prisão de Oliver Queen (Stephen Amell mantendo sua qualidade dramática de porta sem maçaneta). Uma das coisas mais irritantes de Arrow sempre foi a reversão total de cliffhangers no primeiro ou nos dois primeiros episódios da temporada seguinte, o que esvaziava completamente seu impacto, “zerando” a série a cada novo ano. Aqui, muito ao contrário, a prisão do Arqueiro Verde é peça integral da temporada ou, pelo menos, de uma significativa parte dela, já que ele só realmente sai de lá ao final do 7º episódio, garantindo uma exploração bem razoável de sua condição de detento durão que sofre todo tipo de provocação dos vilões que ele colocara lá dentro.

Essa abordagem inicial à la Prison Break é uma bem-vinda ruptura na estrutura central da série, já que não há um grande plano maquiavélico a essa altura e nem “vilões da semana” genéricos e empurrados goela abaixo do espectador. Vê-se uma tentativa genuína de passar o sofrimento de Oliver distante de sua família, além de estabelecer um arco narrativo razoavelmente interessante, que também envolve o grande vilão da temporada anterior, Ricardo Diaz (Kirk Acevedo ainda muito divertido). O problema está mesmo no “razoavelmente”, já que os roteiros lutam uma luta inglória para não converter Slabside em um novo Asilo Arkham – falhando fragorosamente, já que há um psiquiatra maluco e uma “ala secreta” mais do que cartunesca – e para evitar a rotina do “sai da cela, sai no braço com quem quer que seja”, algo que acaba se tornando inevitável. Além disso, o próprio ótimo Ricardo Diaz  é mal aproveitado, sendo transformando em um vilãozinho para lá de genérico.

Os meses de prisão do Arqueiro criam outro problema para a série: o que fazer com o Team Arrow. Com o cabeça do grupo preso e os vigilantes proibidos de atuar, cada um procura o que fazer do seu jeito. Overwatch, mais conhecida como a insuportavelmente chata Felicity Smoak (Emily Bett Rickards, que disse que não voltará para a última temporada e cuja ausência eu aplaudirei efusivamente) passa o tempo todo obcecada com segurança, John Diggle (David Ramsey) e Curtis Holt (Echo Kellum) vão trabalhar na A.R.G.U.S., Dinah Drake (Juliana Harkavy) torna-se a chefe de polícia e Rene Ramirez (Rick Gonzalez) continua como um cachorro abandonado com olhar triste para todo canto, mas sem fazer nada. Até mesmo a versão Terra-2 de Laurel Lance (Katie Kassidy Rodgers) magicamente se torna a Promotora Pública do bem, mas com direito a um arco de desenvolvimento até bacana, que coloca em xeque essa sua mudança de comportamento). Essa divisão toda não funciona com um pingo sequer de dinâmica e é nesse ponto que a narrativa realmente perde o foco. Qualquer coisa fora de Slabside parece mais um exercício de como enrolar a série de maneira a chegar nos 22 (um a menos!) episódios regulamentares.

Como se isso não bastasse, depois que Oliver sai da prisão, a dinâmica do grupo demora a ser reconstruída, tendo que passar pela fase de “legalização dos vigilantes” que se transformam ridícula e impossivelmente em uma espécie de grupo paralelo sancionado pela polícia, com direito a aula para os “novos recrutas”. As consequências de se revelar a identidade de todos – ou quase todos – na temporada anterior não são bem abordadas aqui e o inchaço narrativo torna-se ainda mais sensível, com a showrunner batendo cabeça para dar relevância ao ex-Team Arrow.

Mas o grande problema vem mesmo com duas equivocadas escolhas narrativas para a temporada: os flashforwards para a ano de 2040 (substituindo os famosos e fracos flashbacks da série) e o segredo sobre o grande vilão. Criam-se dois mistérios que, muito sinceramente, mais emperram do que adiantam o desenvolvimento da temporada.

Os flashforwards para o futuro que abordam William (Ben Lewis) e Zoe (Andrea Sixtos), respectivamente filhos de Oliver e de Rene, já adultos, Roy Harper (Colton Haynes em substancial participação) e Dinah mais velhos e uma misteriosa jovem loira conhecida apenas como Blackstar (que só crianças pequenas não deduzirão de cara que é a filha de Oliver com Felicity), vivida Katherine McNamara, por  em uma Star City de lógica invertida, com os Glades, bairro pobre do presente que se torna moderno e próspero no futuro sob a prefeitura de Rene Ramirez (pelo menos no futuro ele tem alguma função, ainda que completamente fora da construção de seu personagem) e a própria Star City sendo uma versão apocalíptica da cidade que conhecemos, mas com orçamento tão baixo que a torna uma sucessão de tendas vendendo quinquilharias, são confusos e dispersos, sem qualquer construção narrativa minimamente razoável. Além disso, esse arco não tem fim completo na temporada, deixando ainda mistérios a serem revelados possivelmente na próxima, o que torna ainda mais frustrante acompanhá-lo.

A lógica interna desse futuro distópico não se encaixa em lugar algum. A forma como William é trazido para a Lian-Yu para coletar Roy Harper e depois vai para Star City é de coçar a cabeça em incredulidade, a relação difícil entre Blackstar (Mia) e Felicity (essa mantida “morta” por um bom e irritante tempo) tem uma justificativa paupérrima e, convenhamos, imbecil e todo o plano de uma empresa maquiavélica para mais uma vez destruir a cidade é de revirar os olhos pela repetição e pela ruindade dos roteiros mesmo. Nada contra os estagiários que escreveram essa parte da temporada, mas é um desrespeito a showrunner não ter pelo menos dado uma revisada nos textos antes de mandar produzir…

A manutenção do mistério sobre o final boss no presente é também outra bobagem. A temporada chega até mesmo a nos fazer crer que Felicity tornar-se-ia Dark Felicity (seria Tristicity?), somente para colocar Ricardo Diaz como primeiro candidato, inventar um tal de Dante (Adrian Paul) mais para a frente, e, no meio disso tudo, introduzir uma outra meia-irmã perdida de Oliver Queen, Emiko (Sea Shimooka) em uma linha narrativa típica de quadrinhos ruins dos anos 90. Afinal de contas, Oliver, tão sábio e experiente, aceita a existência da moça – já super-treinada em artes marciais e usos de uma variedade de armas brancas, inclusive, claro, o arco e flecha – como se fosse a coisa mais natural do mundo alguém paramentada de Arqueira Verde, com flechas especializadas e tudo mais aparecer na cidade para vingar-se da morte da mãe. A inocência de Oliver é inacreditável e, francamente, uma enorme distração que não consegue o intento de disfarçar que o grande vilão é, na verdade, uma grande vilã, a própria Emiko que do nada é líder de mais uma organização criminosa (o Nono Círculo, em uma alusão a Dante que certamente fez com que o escritor italiano revirasse em seu túmulo em desespero) cercada de mistério e cujos membros convenientemente só usam armas brancas como a Liga das Sombras.

Chegando mais para o final dessa canseira toda, alguns episódios começam a novamente levantar a qualidade da série, como Lost Canary, que lida só com as personagens femininas da série, Confessions, que, no estilo Rashomon, estabelece o começo de um fim que consegue até ser razoável, além de lidar com assassinatos por Roy Harper, algo que acaba sendo explorado na correria e sem a devida gravidade. Teria sido melhor se Arrow não fosse a primeira vítima forçada do próximo crossover da CW, pois o final coloca Oliver Queen tendo que cumprir a promessa que fez ao Monitor em Elseworlds e que, vamos combinar, não combina nada com o personagem, além de fugir da narrativa principal de maneira canhestra e desajeitada. Mas, com a notícia de que a próxima temporada – de apenas 10 episódios – seria a última da série (desconfio em um reboot com base na vindoura Crise), é pelo menos possível vislumbrar um ponto final, um encerramento para uma saga que jamais mostrou muito fôlego.

A 7ª temporada de Arrow volta para o  padrão que a série sempre teve, apresentando uma narrativa tumultuada e fragmentada que não sabe firmar os pés no chão. É como se a showrunner não quisesse se comprometer com nada, ao mesmo tempo trazendo a maior quantidade possível de novidades e “surpresas” para povoar uma série que já esticou sua corda televisiva há muito tempo.

Arrow – 7ª Temporada (EUA, 15 de outubro de 2018 a 13 de maio de 2019)
Showrunners: Beth Schwartz
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Emily Bett Rickards, Echo Kellum, Rick Gonzalez, Juliana Harkavy, Colton Haynes, Kirk Acevedo, Katie Cassidy (Katie Cassidy Rodgers), Sea Shimooka, Jack Moore, Ben Lewis, Katherine McNamara, Audrey Marie Anderson, Adrian Paul, Joseph David-Jones, Andrea Sixtos
Duração: 1014 min. (22 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.