Crítica | Arrow – 7X09: Elseworlds, Parte 2

Em uma outra Terra, chamemo-la de Terra-52 para fins desse exercício, a CW de lá resolveu, em um belo e inspirado dia, fazer um crossover de verdade entre suas séries debaixo de uma bandeira própria com o título do crossover como fio condutor e não os das séries soltas e com algo como 10 a 12 episódios transmitidos ao longo de cinco ou seis dias seguidos, em doses duplas diárias, de 90 minutos. Nesses mega-crossovers, essa CW da Terra-52 conseguiu injetar o tipo de orçamento que algo dessa magnitude exige, além de também ter tempo para trabalhar roteiros que efetivamente desenvolvem a história e os personagens, tendo até mesmo espaço para introduzir competentemente novos personagens que, se bem-sucedidos, poderiam ganhar séries solo próprias. Nesse mesmo universo, o Ritter Fan-52 provavelmente continuaria sendo um crítico chato, mas possivelmente muito feliz, mesmo que as séries separadas continuassem, em grande parte, não mais do que medianas, já que as linhas narrativas épicas dos quadrinhos poderiam ser trabalhadas com o devido vagar e a devida qualidade, sem parecerem fanfics pouco inspiradas.

Mas, infelizmente, estamos apenas na Terra-CW mesmo, onde a produtora faz o que quiser e os espectadores aplaudem como se fossem as coisas mais sensacionais do mundo. Porque vamos combinar que Elseworlds, o 5º crossover anual de suas séries, desta vez sem Legends of Tomorrow, que escapou  de uma boa, é um historinha muito da mequetrefe que vive de fazer referências a um monte de coisas para que os fãs fiquem catando cada uma delas, esquecendo-se completamente de abordar algo de peso, de fazer algo que chegue pelo menos a ultrapassar a linha da mediocridade. Se o episódio inicial do crossover, em The Flash, tinha pelo menos a vantagem de ser quase que integralmente focado na novidade do troca-troca de mentes entre Oliver Queen e Barry Allen, provando que a barriga tanquinho de Stephen Amell definitivamente não combina com o uniforme do Velocista Escarlate (e nem vou falar da barba meticulosamente por fazer debaixo da máscara), o segundo capítulo fica soterrado debaixo de sua verdadeira função: apresentar-nos à Gotham City e, mais especificamente, à Batwoman, o que coloca a trama Elseworlds no “cantinho do esquecimento” até seus dois minutos finais.

Com isso, Elseworlds, Parte 2 não é nem um episódio de Arrow (e não era mesmo para ser, então não tem problema), nem um episódio do crossover. Ele é o chamado backdoor pilot de uma possível série da Mulher-Morcego. Mas será que pelo menos nesse quesito então o capítulo consegue ser bem-sucedido?

A pergunta é retórica, claro, pois, com a quantidade de referências auto-indulgentes e com a tentativa de ser efetivamente uma parte de Elseworlds, o roteiro de Caroline Dries e Marc Guggenheim simplesmente não tem tempo de introduzir Kate Kane (Ruby Rose) de maneira apropriada. Ou melhor, Dries e Guggenheim não tiveram, talvez, categoria suficiente para escrever um roteiro que desse conta disso tudo sem parecer uma narrativa marretada goela abaixo do espectador. Se o primeiro episódio foi o episódio que brinca com a premissa de troca de corpos (ou mentes, ou realidades, sei lá e pouco importa), com Cisco e suas convenientes visões servindo de alavanca para que nossos heróis pulem para Gotham City, o segundo quase que ignora a troca – a não ser pela bobagem completa que foi esconder essa informação de Felicity por algo como dois ou três minutos com uma justificativa tão ruim que nem vou repetir aqui – e meio que volta ao normal, ejetando o Arqueiro Verde, Flash e Supergirl para a cidade do Batman, coincidentemente no telhando onde está instalado o bat-sinal (sério, precisava mesmo disso?) para eles caçarem o livro do Monitor, de posse do Dr. John Deegan, no Asilo Arkham.

O que vem em seguida é a esperada introdução de Kate Kane, com Ruby Rose fazendo tanto esforço para emular um Bruce Wayne soturno que acaba errando o alvo e fazendo uma versão inadvertidamente cômica de Wayne, com direito à feições séries de cenho enrugado e bico que, confesso, me levaram às gargalhadas naquela sequência em que ela desce de elevador. E vejam bem: eu nem culpo a atriz, pois, provavelmente, foi isso que James Bamford, o diretor, pediu dela. Fico imaginando as instruções de “mais séria, mais carrancuda!” segundos antes de cada take no estúdio. Isso aliado ao roteiro que não lhe dá muito espaço para fazer outra coisa que não exatamente “ser carrancuda” e pronto, a atriz ganha um “passe livre” por fazer uma pantomima de Batman. Mas, claro, o uniforme da Batwoman é igualzinho ao dos quadrinhos e sua entrada uniformizada triunfal no lado de fora do Asilo Arkham será o suficiente para muita gente. Certamente é para a CW…

Falando no Asilo Arkham, toda a ação lá dentro só existe mesmo para trazer um caminhão de easter-eggs na forma dos nomes dos detentos e outras coisinhas mais, já que nem eles e muito menos o Dr. Deegan oferecem sequer uma nesga de desafio ou de perigo para nossos heróis. Chega a ser até irritante a facilidade como os detentos são colocados de volta em suas celas pelo Flash-Queen e como os demais personagens aparecem para “salvar” o dia (ou a noite…) sem que eles fossem nem de longe minimamente necessários (e o que foi a Caitlin apanhando daquele jeito, minha gente?). Mas, do lado positivo, a direção de arte conseguiu não só introduzir uma boa Gotham City, como também um belo de um Asilo Arkham que evoca muito bem a podridão necessária para uma possível série solo da Batwoman sem o Batman que, aparentemente, pendurou a capa e foi para Paris com a Mulher-Gato…

Bem no finalzinho, quando eu já tinha conferido o relógio umas 15 vezes, o roteiro então se lembra que tem Elseworlds para contar e a narrativa ganha aquela dose cavalar safada de texto expositivo para explicar mais sobre o Monitor e o que ele está fazendo, além de recriar tudo novamente, em um universo com tudo invertido e que, claro, abre as portas para o episódio final, com a Supergirl no centro. O resumo da ópera é que a CW, mantendo sua estratégia preguiçosa de fazer qualquer coisa, pois essa qualquer coisa está funcionando, transforma todo o enorme potencial que Elseworlds teria em um crossover que usa a premissa básica apenas como pano de fundo para mexer um pouquinho no status quo e, especificamente em seu capítulo do meio, introduzir sem cerimônia uma nova personagem que não tem razão para existir aqui que não seja meramente pela vontade dos showrunners. Ou seja, já não é um episódio de Arrow propriamente dito, mas também não consegue ser um eficiente capítulo de Elseworlds ou mesmo uma boa introdução de Batwoman. Tomara que, na Terra-52, a CW de lá tenha tido melhor sorte…

Arrow – 7X08: Elseworlds, Parte 2 (EUA, 10 de dezembro de 2018)
Direção: James Bamford
Roteiro: Caroline Dries, Marc Guggenheim
Elenco: Stephen Amell, Grant Gustin, Melissa Benoist, Ruby Rose, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, David Ramsey, Tyler Hoechlin, Jeremy Davies, LaMonica Garrett, Emily Bett Rickards, Echo Kellum, Kirk Acevedo, John Wesley Shipp, John Barrowman
Duração: 

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.