Crítica | Arrow – 8X03: Leap of Faith

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Katie Cassidy, a Laurel Lance da série, debuta na direção com Leap of Faith e mostra-se muito melhor nessa cadeira do que diante das câmeras naquele que é, até agora, o melhor episódio da temporada, algo que não é, claro, muito difícil. E as razões da melhoria são singelas, provando que Arrow não precisa de muito esforço para alcançar níveis medianos de qualidade, algo facilitado pela costumeira abissal qualidade de seus episódios.

O primeiro desses fatores é o roteiro que, longe de ser bom, aqui é organizado, segue uma lógica mínima, sabe dividir as narrativas, subtrai os discursos motivacionais e mantém os diálogos idiotas em um patamar aceitável (já que eliminá-los é, aparentemente, impossível…). Isso já fica evidente pela premissa que sai do MacGuffin da semana (mesmo que, no final das contas, haja um MacGuffin) e entrega uma investigação à la Indiana Jones sobre as intenções do Monitor, fruto da semente de desconfiança plantada em Oliver Queen no episódio anterior, que parte para Nanda Parbat para pesquisar sobre o sujeito. Claro que é de rolar os olhos o fato de Oliver não ter tido essas dúvidas antes, mas isso é algo que dá, com algum esforço, para relevar, já que o Arqueiro Verde da TV nunca primou particularmente pela inteligência. Além disso, a criação de uma trama aparentemente aleatória (mas que não é) que coloca o casal John Diggle e Lyla Michaels em uma missão do tipo True Lies ajuda muito para diminuir o tempo dos obrigatórios flashforwards para 2040 que, por sua vez, pelo menos no último momento, conseguem até surpreender.

O segundo fator é a própria direção de Cassidy, que navega bem as armadilhas de três tramas sem atropelá-las e mantém o foco no que realmente importa, ou seja, a reconexão de Oliver com sua irmã Thea (a simpática Willa Holland, também conhecida como a única atriz minimamente boa da série), algo que deixa até mesmo a caça ao diário perdido no templo da perdição em segundo plano. Lógico que há problemas inerentes ao que a série sempre fez, como as famosas conveniências narrativas, aqui encapsulada principalmente pelo único pergaminho na mesa central de um templo sendo exatamente aquele que os heróis, acompanhados de Talia al Ghul (Lexa Doig), estão procurando. Confesso que ri muito no momento e diria, especialmente para os fãs da série que realmente consideram Arrow algo que vai além do guilty pleasure, que é por essas e outras bobagens amadoras que nem fanfilm faz que a série não é o eles acham que é. Mas eu divago…

Notaram como o que eu escrevi acima não é absolutamente nada de mais? Deveria ser o padrão de qualquer obra televisiva, mas Arrow constantemente peca por querer ser mais do que é e, em uma mistura de pretensão com orgulho, faz de um personagem urbano riquíssimo um pastiche que seria cômico se não fosse trágico. No entanto, o que importa realmente é que Leap of Faith traz frescor para uma temporada cansada e repetitiva, frescor esse que existe também na terrível história que se passa no futuro, já que houve a coragem, ali, de se ferir Zoe mortalmente, algo que provavelmente será revertido em breve e que, se for mesmo, podem ter certeza que eu mencionarei negativamente em crítica futura, como fiz no caso de Tatsui em Welcome to Hong Kong, mas que, se não for, aplaudirei de acordo. É esse tipo de drama mínimo que também falta a Arrow, que tenta repetir a fórmula falida dos quadrinhos que determina que ninguém – a não ser o tio Ben – permanece morto.

A surpresa mesmo fica por conta da reunião das linhas temporais na base do estalar de dedos ao final do episódio. O Monitor provavelmente está por trás disso, claro, mas confesso que não esperava que isso acontece tão rapidamente. Se isso significar que pelo menos não teremos mais flashforwards, já será uma vitória, ainda que aturar Stephen Amell (categoria dramática: porta) ocupando o mesmo espaço de tela de Katherine McNamara (categoria dramática: maçaneta) não será tarefa fácil. No entanto, esse final acaba também justificando a trama de John e Layla no episódio, já que ela, em um primeiro momento, parecia retirada da cartola para permitir que o episodio ocupasse o tempo regulamentar, mas que, na verdade, foi engendrada de forma a estabelecer um semblante de ponte entre John e o Connor Hawke criança.

Leap of Faith, ao fazer o básico, consegue destacar-se (como diz o ditado, em terra de cego…), com Katie Cassidy realmente mostrando-se promissora nessa carreira se ela decidir segui-la. Só fico imaginando o que Arrow poderia ser se um pouco mais de esforço fosse feito para realmente desenvolver personagens e tramas.

Arrow – 8X03: Leap of Faith (EUA, 29 de outubro de 2019)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: Katie Cassidy
Roteiro: Emilio Ortega Aldrich, Elizabeth Kim
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Katherine McNamara, Ben Lewis, Joseph David-Jones, LaMonica Garrett, Katie Cassidy, Charlie Barnett, Andrea Sixtos, Audrey Marie Anderson, Rila Fukushima, Kelly Hu, Willa Holland, Lexa Doig
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.