Crítica | Arrow – 8X04: Present Tense

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

O quarto episódio de Arrow tinha em mãos um dos melhores e ao mesmo tempo mais batidos artifícios da ficção científica: a viagem no tempo. E, mesmo assim, no lugar de criarem algo memorável para além da reunião entre pais e filhos, os showrunners e roteiristas fizeram novamente só o básico, repetindo diálogos carregados de elementos melosos e com um ritmo narrativo tão apressado que mal dá tempo para perceber como a trama é fraca e sem sentido, o que, obviamente, é todo o objetivo mesmo. Seja como for, no final das contas e considerando a média qualitativa dos episódios da série, Present Tense foi mais um que “se destacou”, assim mesmo, entre aspas.

A primeira coisa que ficou clara é que o maior problema dos flashforwards era a história que eles contavam e não necessariamente os personagens. A decisão da produção de trazer Mia, Connor e William para o presente – sem ressuscitar Zoe imediatamente e sem explicar logo de cara o porquê de isso ter acontecido! – de surpresa ao final de Leap of Faith mostra-se acertada e uma forma de efetivamente preparar o terreno para que a “nova geração” de arqueiros carregue nas costas uma série solo. Claro que o destaque fica por conta do encontro dos grandes portentos dramáticos, ou seja, de Stephen Amell com Katherine McNamara, que resultou exatamente no que imaginava que resultaria: momentos desconcertantes de vergonha alheia que, de tão ruins, conseguem até divertir, mais ou menos como Ian Ziering e Tara Reid em Sharknado. Chega a dar vontade de aplaudir a capacidade da produção, entre provavelmente centenas de candidatos, de terem escolhido justamente uma atriz que é Amell na versão feminina. Perto das sequências com os dois, todas as demais interações, até as de William com o pai, pareceram dignas de Oscar.

Ultrapassado esse momento histórico na televisão mundial, a trama na linha de “mudar o futuro” e que envolve o início da gangue dos Exterminadores que Mia e companhia estavam enfrentando, é simpática, mas cansada, repetitiva e corrida. Desde a relutância dos jovens em contar a seus pais toda a verdade, até a “descoberta” da identidade do líder da gangue, passando por ataques de raivinha de Rene e John – que já são grandinhos demais para ficarem fazendo biquinho o tempo todo – e as inevitáveis pazes, abraços e beijos, tudo pode ser resumido a oportunidades desperdiçadas com um episódio que pesa por ter uma enorme “barriga” narrativa, desnecessariamente espremendo a ação propriamente dita, que mais uma vez conta com Oliver inexplicavelmente usando máscara, em algo como sete minutos ao final, ação essa que é conveniente demais na base da decodificação de planos por Curtis, retiradas de fios (não o azul, nunca o azul!) de bomba por Connor e o obrigatório momento “não mate o bandido, você é melhor do que isso”, tudo retirado do Manual Arrow de Clichês Narrativos.

É interessante notar, porém, como o recrutamento de Oliver pelo Monitor aos poucos vai perdendo o sentido. Afinal, dramaticamente, o herói foi obrigado a abandonar Mia e Felicity para iniciar uma cruzada para salvar o multiverso; mas tudo o que ele fez até agora foi visitar a finada Terra-2 e, depois, voltar para a Terra-1. Todo o chororô finalista de “vou morrer”, “tenho que me sacrificar pelo bem comum” não parece muito diferente do que uma semana normal para o Arqueiro quando ele agia a partir de Star City (lembre-se que ele viajava secretamente para nações africanas, Oriente Médio e para a Rússia na medida em que a falta de imaginação dos roteiristas exigia). Sim, é estranho que Felicity não esteja por perto – devo estar com febre alta e delirante para escrever algo que se pareça com um desejo de que ela volte… -, mas largar sua família para dedicar-se a viajar pelo multiverso na base de teletransportes instantâneos parece-me um pouco demais para justificar uma linha narrativa que começa a esfacelar-se sob o peso de uma temporada final baseada em nostalgia apenas.

Com isso, o lado de viagem no tempo e reunião de linhas temporais que era ouro para esse episódio fica jogado ali no canto, como se fosse um detalhe irrelevante que não precisava ser explorado para além de momentos pseudo-emocionantes. Some-se a isso as limitações dramáticas do elenco e o esforço risível dos roteiristas em criar diálogos que não pareçam uma sucessão de frases feitas e pronto, uma premissa que poderia ser facilmente explorada, resultando em algo bom, torna-se apenas um arremedo de história que faz com que Present Tense consiga alcançar, com esforço, a mediocridade. Nada como ter um público fiel que assistirá e gostará sem reservas do que quer que os showrunners coloquem na tela para justificar qualquer coisa no roteiro, não é mesmo?

Arrow – 8X04: Present Tense (EUA, 05 de novembro de 2019)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: Kristin Windell
Roteiro: Oscar Balderrama, Jeane Wong
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Katherine McNamara, Ben Lewis, Joseph David-Jones, LaMonica Garrett, Katie Cassidy, Charlie Barnett, Andrea Sixtos, Audrey Marie Anderson, Rila Fukushima, Kelly Hu, Willa Holland, Lexa Doig, Jamie Andrew Cutler, Echo Kellum, Rick Gonzalez, Juliana Harkavy
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.