Crítica | Arrow – 8X07: Purgatory

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Arrow tem oito anos de vida, mas de nada adianta toda essa veteranice se a equipe de roteiristas insiste em escrever os episódios da maneira mais amadora possível. Quer dizer, adianta sim se o objetivo é fazer quem tenha um mínimo de bom senso gargalhar até a barriga doer ou quem ame a série incondicionalmente fechar os olhos em desespero e descrença.

Vamos lá só com um exemplo: como é que alguém tem a coragem de escrever uma cena tão importante quanto a de Roy Harper tendo seu braço decepado como se estivesse rascunhando uma cena sobre alguém cortando a unha com um alicate? Porque é isso que essa sequência em tese solene pareceu. Estão felizes com as piscadelas para o evento correspondente dos quadrinhos e esqueceram o senso crítico? Então deixe-me trazê-los para a dura e fria realidade.

O sujeito está lá com o braço esmagado debaixo de um bloco de motor aparentemente inamovível e mais pesado do que a chave que abre a Fortaleza da Solidão. Ok, vamos acreditar nisso por um momento e vamos acreditar que realmente John Diggle e Connor Hawke, juntos, mesmo com uma alavanca, não conseguiram mover o bloco nem por um milímetro sequer. Tudo “certo” até aí. Agora, como acreditar que, mesmo antes de tentar o fulcro arquimédico, Connor já levanta a mão para dizer que a única maneira de tirar Roy de lá é cortar seu braço? E mais, como acreditar que Connor tem um kit de primeiros socorros à mão que tem o que ele precisa para fazer a delicada operação? E, mais ainda, como acreditar que, quando ele finalmente pega o kit, o que ele tira de lá é uma peixeira maior do que a de Lampião não para serrar, mas sim decepar como um ninja o braço do coitado do Arsenal?

Mas vamos lá que, como as meias Vivarina e as facas Ginsu (alguém velho o bastante aqui para se lembrar disso?), tem mais! Depois de ter seu braço cortado, Roy está de pé, conversando serelepe como se ele literalmente tivesse mesmo apenas cortado as unhas das mãos. Nem nos quadrinhos foi assim, já que o personagem entrou em coma por lá. Ah, mas o que o crítico quer, um episódio de série de super-herói que retrate a realidade? Que cara chato! Sim, sou chato, todo mundo já sabe disso, mas o que eu quero não tem relação alguma com realidade, mas sim com verossimilhança. Todos os momentos envolvendo Roy Harper nesse episódio pareceram escritos não para, mas sim por uma criança de cinco anos de idade (desculpe-me se isso ofender alguma criança de cinco anos…).

E olha que estamos falando do episódio que é imediatamente anterior ao início da tão esperada, tão falada, tão alardeada e tão hypeada Crise nas Infinitas Terras (não sei se o espectador mais astuto percebeu, mas a palavra “crise” aparece pelo menos uma dúzia de vezes no brilhante roteiro desse episódio para dar pistas sutis de que ela está vindo) e que, em tese, encerra Arrow como a conhecemos hoje em dia. Mas nem por essa razão os showrunners tentaram se esforçar para criar algo que consiga no mínimo chegar na linha do medíocre. Na verdade, minha conclusão é que, ao contrário, o que eles estão tentando fazer agora é um estudo científico para descobrir o grau de ruindade que eles podem alcançar mantendo o mesmo público fiel de sempre elogiando esse troço…

A Crise, aliás, elevou o tom dos choramingos e da chorumela em Purgatory, o 246º episódio da série que se passa na tal ilha misteriosa do Sr. Rourke, digo Queen. Foi chororô de Oliver com cada personagem do elenco mais uma vez e sempre na mesma linha do “vou morrer, é inevitável”, “estou com você para o que der e vier, Oliver”, “eu já te perdoei” que já ouvimos tantas e tantas E TANTAS vezes antes nessa e em outras várias temporadas em uma sucessão de momentos de trincar os dentes que contou até mesmo com fantasmas do passado (Charles Dickens, aprenda!) vindo para atormentar Oliver e sua gangue e uma ilha viva que gera energia e que me lembrou a de Lost (e não, isso não é uma coisa boa).

Afinal, tirando o braço de Roy decepado mal e porcamente e o aparecimento de Lyla fardada de Precursora anunciando o começo da C_ _ _ E (duvido que você acerte!), o resto é encheção de linguiça com fotografia escurecida ruim e coreografias de luta completamente sem inspiração, como se o coreógrafo estivesse só cumprindo tabela e, claro, com os personagens de uniformes completos, já que manter as identidades secretas quando se luta com fantasmas é algo essencial. Ah, sim, teve também a cena pós-crédito enfiada lá de qualquer jeito só para criar aquele mistério burocrático.

Sei que os fãs cegos que não “entendem” porque eu faço as críticas de Arrow vão fazer bico e bater o pezinho, mas só tenho mesmo uma coisa boa a dizer sobre esse episódio que evitou uma avaliação mais baixa: só precisarei voltar à série agora em mais de um mês, quando ela retornará do hiato em 14 de janeiro de 2020. Mas a Crise está vindo mesmo assim, ok?

Arrow – 8X07: Purgatory (EUA, 03 de dezembro de 2019)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: James Bamford
Roteiro: Rebecca Bellotto, Rebecca Rosenberg
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Katherine McNamara, Ben Lewis, Joseph David-Jones, LaMonica Garrett, Katie Cassidy, Charlie Barnett, Andrea Sixtos, Audrey Marie Anderson, Rila Fukushima, Kelly Hu, Willa Holland, Lexa Doig, Jamie Andrew Cutler, Echo Kellum, Rick Gonzalez, Juliana Harkavy, Colton Haynes, David Nykl
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.