Home LiteraturaConto Crítica | Arsène Lupin na Prisão, de Maurice Leblanc

Crítica | Arsène Lupin na Prisão, de Maurice Leblanc

por Luiz Santiago
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Uma das grandes marcas de Arsène Lupin na Prisão, segundo conto de Maurice Leblanc sobre o seu icônico “ladrão de casaca”, é a atmosfera de grande mistério construída com diversos caminhos para que o leitor julgue a “ação impossível” de Arsène Lupin, desta vez, fazendo jus ao nome. O famoso ladrão está passando seus dias na prisão de La Santé, após ter sido capturado por Ganimard na história anterior. E é justamente o encarceramento de Lupin que tira a possibilidade de “golpes impossíveis” acontecerem na cidade, o que dá uma certa paz para a polícia e grande orgulho para o inspetor Ganimard. O que os homens da lei se esqueceram é que Lupin não é um indivíduo que se deixa deter por algumas ‘simples grades’.

Olhando desse ponto de vista, é até possível simpatizar um pouco mais com A Prisão de Arsène Lupin, uma vez que este golpe só seria possível nessas circunstâncias. Claro que não é um pensamento que faz mudar a qualidade geral do conto anterior (as histórias precisam bastar-se como histórias e só depois receberem reforços da construção de um Universo em torno delas), mas é uma perspectiva que realmente nos faz olhar com outros olhos o prévio anti-clímax e que acaba servindo de base para algo ainda mais intrigante na terceira aventura, que conta (obviamente) a fuga de Lupin da cadeia.

Salta aos olhos aqui o respeito e o humor com que o autor constrói a relação entre o fora da lei e o homem da lei. Há uma admiração mútua entre Lupin e Ganimard e a parte final da presente trama nos mostra o quanto isso é verdade, numa das sequências mais curiosas que eu já li em uma história policial, durante uma conversa entre indivíduos de lados opostos da justiça. O motivo dessa conversa é a elucidação do que acontece no miolo do conto, onde Lupin envia uma carta para o Barão Nathan Cahorn exigindo alguns de seus preciosos itens de coleção. O homem se desespera e corre para Ganimard, que passa os dias pescando na região, feliz da vida por ter cumprido o seu objetivo: prender o maior ladrão de todos. E mesmo sob a vigilância do famoso e competente inspetor, o crime anunciado acontece.

Por muito tempo eu fiquei pensando nas diversas possibilidades que essa história apresentava. A execução do roubo nos parece impossível sob qualquer ângulo que olhemos e, ainda assim, o Barão, o inspetor e os policiais descobrem a tragédia após a noite prometida por Lupin em que o crime aconteceria. E quando tudo se revela, o leitor se sente extremamente burro por não ter considerado algo “tão simples” como resposta, o que é algo frequente em muitos romances ou contos policiais. O charme, a audácia e o excelente planejamento de um grande bandido se encontram cara a cara com um inspetor de polícia que sabe perder, que admira seu inimigo e está disposto a jogar o jogo-de-gato-e-rato que, ao que tudo indica, o acompanhará por toda a vida.

Arsène Lupin na Prisão (Arsène Lupin en Prison) — França, 1905
Autor: Maurice LeBlanc
Publicação original: Je Sais Tout #11 (dezembro de 1905)
Primeira coletânea: Arsène Lupin, Gentleman-cambrioleur (1907)
Edição lida para esta crítica: O Ladrão de Casaca: Edição Bolso de Luxo
Tradução: André Telles, Rodrigo Lacerda
Editora: Zahar
48 páginas

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