Crítica | Artemis Fowl: O Mundo Secreto

E eis que a maldição que destruiu Uma Dobra no Tempo ataca novamente. Mas convenhamos que não foi exatamente uma novidade aqui. A produção de Artemis Fowl: O Mundo Secreto foi um verdadeiro inferno, começando em 2001 pela Miramax, com Harvey Weinstein na chefia e Lawrence Guterman (Como Cães e Gatos e O Filho do Máscara) na direção; e terminando na Disney, com a assinatura de Kenneth Branagh e um resultado vergonhoso em tantos sentidos que é até engraçado enumerar.

A obra tenta adaptar os dois primeiros volumes da famosa série de livros escrita por Eoin Colfer, colocando-nos na vida de Artemis Fowl (Ferdia Shaw, uma escolha fraca para o papel), um garoto de 12 anos extremamente inteligente que descobre um grande segredo de seu pai e de sua família, sendo “jogado” num mundo que ele imaginava existir apenas na imaginação e nas histórias que ouviu durante toda a sua infância. Para quem conhece pelo menos o subtítulo da série de livros (O Menino Prodígio do Crime) espera algum tipo de demonstração mais notável das artes criminosas do garoto, mas isso demora demasiadamente para acontecer e, quando acontece, apenas o pequeno choque causado não é o bastante para validar tudo aquilo que o texto havia mostrado em relação ao garoto.

Para os muito encantados e não contextualizadores de linhas de pensamento na teoria cinematográfica, haverá uma defesa ao menos em prol da mediocridade da fita, escancarando aos ventos que o cinema é essencialmente imagem e que o texto de um filme não é importante. Sim, porque grandes obras-primas da Sétima Arte são aquelas panorâmicas em HD que vemos passando nas televisões à venda em lojas de eletrônicos não é mesmo? Não, não é. Não estamos mais em 1903, filmando O Grande Roubo do Trem. O cinema como conhecemos hoje é derivado de uma sintaxe criada nos anos 1910, e o estabelecimento dessa linguagem dá conta de uma interação lógica, orgânica e necessária entre imagem e alguma outra coisa que lhe dê sentido, o que se pode estabelecer através da montagem (em obras puramente visuais, cujo enredo é sustentado por uma lógica narrativa rítmica) ou, na maioria dos casos, com um enredo sustentado por um roteiro. Pois bem, o produto fímico deve ser o fruto de tudo isso. Imagens bonitas não necessariamente fazem um bom filme. E beleza sem conteúdo é estesia.

E a questão é que Artemis Fowl: O Mundo Secreto  é um filme muito bonito, com dois mundos coexistindo e, no recorte que aqui temos, postos em guerra pela posse de um artefato que pode mudar a realidade como a conhecemos. A diferença é que a boa construção de mundo na obra está em par com o já citado A Wrinkle in Time e pelo menos meio caminho longe de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, como alguns colegas têm comparado. Por mais problemático que seja o texto de Luc Besson, ainda é possível traçar uma linha que sustenta a narrativa contando uma história que consegue chegar, aos tropeços, em algum lugar. Aqui, porém, mal conseguimos partir do ponto de origem. E o roteiro tem a capacidade de insistir em exposições em demasia e abraçar um encadeamento rítmico que lembra um rinoceronte fazendo leitura dramática de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá para uma plateia de tardígrados.

Todo o primeiro bloco com Artemis e o pai (supostamente Colin Farrell, mas eu defendo que na verdade é algum adolescente do Tik Tok “atuando” com CGI) não é capaz de criar uma conexão forte para nenhum dos lados, logrando apenas sugerir um apego a Butler (Nonso Anozie), mas esse apego se perde rapidamente, a ponto de boicotar uma das cenas que deveria constar entre as mais emocionantes da obra. Note que a trajetória não é boa. O lado humano não tem um bom ponto de partida, ensaia algumas coisas interessantes que são abandonadas ou suplantadas por bobagens que só servem para colocar coadjuvantes inúteis em cena (e eles aparecem aos montes, acredite), terminando com um enorme desserviço feito a Judi Dench (recém-saída do vergonhoso Cats) e estragando Josh Gad, que é um ator de quem gosto bastante.

A melhor parte da obra são os efeitos relacionados ao mundo das fadas. Cores, tecnologia e desenho de produção para alguns personagens ali são visualmente muito bons, uma pena é que é difícil encontrar algo no meio dessa beleza toda que seja minimamente inteligente (nem a pessoa tecnicamente mais inteligente aqui parece de fato sê-lo) e que consiga ultrapassar o cumprimento de uma obrigação de qualquer roteiro, que é ter começo, meio e fim. Porque ao que parece, esta é a única coisa narrativamente alcançada pelo trabalho de Conor McPherson e Hamish McColl. O leitor mais paciente com bobagens pode até conseguir retirar da obra alguma diversão, se no meio de tudo isso conseguir perdoar os diálogos que não vão a lugar nenhum, reafirmam outros diálogos ou andam em círculos quando se trata de planos ou qualquer coisa que se aproxime de um desenvolvimento de personagem. Artemis Fowl é um filme genuinamente ruim. Está feliz agora, Disney, estragando mais uma franquia literária nos cinemas?

Artemis Fowl: O Mundo Secreto (Artemis Fowl) — EUA, 2020
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Conor McPherson, Hamish McColl (baseado na obra de Eoin Colfer)
Elenco: Michael Rouse, Racheal Ofori, Josh Gad, Ferdia Shaw, Simone Kirby, Joe O’Grady, Finian Duff Lennon, Grace Fincham, Toby Eden, Gerard Horan, Colin Farrell, Nonso Anozie, Emily Brockmann, Jessica Rhodes, Charlie Cameron, Lara McDonnell, Eleanor de Rohan, Emma Lau, Conor MacNeill, Adrian Scarborough, Chi-Lin Nim, Judi Dench
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.