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Crítica | As 1001 Horas de Asterix

por Ritter Fan
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Quatro anos depois de O Filho de Asterix, marcando o maior intervalo entre álbuns até então, Albert Uderzo lançou o 28º título canônico da coleção fazendo logo de cara uma misturada danada de histórias. Tanto o título em francês – que é uma brincadeira fonética com Xerazade (chez Rahàzade significa “na casa de Rahàzade) – quanto o em português fazem referência, claro, ao clássico persa O Livro das Mil e Uma Noites que tem a referida princesa como narradora, por assim dizer, enquanto que a história em si é uma aventura conectada primordialmente com a Índia (ou claro, o que viria a ser a Índia).

Não que o famoso livro persa não seja também composto de lendas indianas, pois ele é, mas sua conexão mais difundida é com o povo árabe, não indiano. Mas Uderzo muito claramente tem um estilo menos preocupado com conexões históricas inamovíveis e ele usa a fonte persa para alimentar sua narrativa que coloca o faquir Khenhé procurando a aldeia gaulesa para trazer Chatotorix para seu reino de maneira que sua terrível música possa fazer chover. Caso ele não consiga, a princesa Jade, filha do bondoso rajá Kheissaih, será sacrificada aos 30 milhões de deuses que eles têm para que a seca acabe e as monções comecem como parte do plano de tomada de poder do diabólico guru Khenvenlah (mais uma vez a tradução nacional dando show com os nomes!).

Abracurcix, que estava comemorando a reconstrução da aldeia pelos romanos ao final de O Filho de Asterix em uma das raras conexões diretas de um álbum para outro, fica feliz ao se livrar do bardo que atrapalhara seu discurso, mas, claro, envia Asterix, Obelix e Ideiafix junto com Khenhé em seu tapete voador em um longo voo de volta para seu país. É de se notar, claro, que as chuvas geradas pela cantoria desafinada de Chatotorix é uma invenção deste álbum, em mais um exemplo de como Uderzo não tem lá muita preocupação em inventar moda, algo bem menos visível na era de René Goscinny à frente dos roteiros. Mas, cada um com seu estilo.

Mais da metade do álbum é dedicado à viagem em si da Armórica até o Vale do Ganges (algo como 8.400 quilômetros, potencialmente a viagem mais longa feita pelos irredutíveis gauleses), o que os faz passar por Roma, Atenas, Tiro, Pérsia e porções do Mar Mediterrâneo sempre com paradas estratégias para Obelix comer – esse é um dos álbuns em que o gor… digo, o forte gaulês mostra-se mais faminto! – além de algumas paradas forçadas, como quando Khenhé cai do tapete bem em um barril de vinho de um comerciante grego e fica bêbado ou quando eles são flechados em Tiro, caindo na Pérsia e, claro, conseguindo um tapete de lá.

Apesar de claramente tentando “enrolar” a narrativa, Uderzo consegue ser eficiente nessa viagem, referenciando diversos outros álbuns da série, inclusive Asterix nos Jogos Olímpicos e A Odisseia de Asterix (aliás, outro álbum somente de Uderzo que tem o título referenciando uma obra que não tem conexão direta com o que acontece na história) e entregando uma espécie de enorme, mas divertido preâmbulo. Quando os viajantes, então, finalmente chegam ao reino de Kheissaih, Chatotorix fica afônico pela primeira vez na vida em razão das mudanças de temperatura no trajeto, o que serve de gatilho para mais aventuras, desta vez no local, abrindo espaço para um mergulho simpático em todo o tipo de arquétipo e clichê que estrangeiros conhecem da Índia, seja seus animais – tigres, cobras, elefantes – sejam os faquires ou o fato de ele não comerem carne de bois e vacas e a existência de uma infinidade de deuses para absolutamente tudo e qualquer coisa.

Uderzo não tem a elegância e a sutileza de Goscinny, mas isso não é algo razoável de se esperar do desenhista. O que é certo é que, mesmo aumentando drasticamente o intervalo entre novos álbuns, o que sem dúvida foi uma infelicidade, o autor conseguiu, até muito rapidamente, encontrar seu próprio tom e estilo, sem desapontar como em O Grande Fosso, sua primeira tentativa. As 1001 Horas de Asterix é mais um bom e divertido capítulo das aventuras de Asterix, mesmo que não seja tão memorável quanto as obras da Era Goscinny.

As 1001 Horas de Asterix (Astérix chez Rahàzade, França – 1987)
Roteiro: Albert Uderzo (baseado em criação de René Goscinny e Albert Uderzo)
Arte: Albert Uderzo
Editora original: Les Éditions Albert René
Editora no Brasil: Editora Record
Páginas: 48

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