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Crítica | As 7 Faces do Dr. Lao

por Fernando Campos
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Em 1983, foi entregue o primeiro Oscar de Melhor Maquiagem, motivado pela enorme injustiça ao não premiar o trabalho realizado em O Homem Elefante, no ano anterior. Porém, em 1965, a Academia abriu uma exceção e decidiu entregar um Oscar Honorário para Willian Tuttle, por seu trabalho de maquiagem realizado em As 7 Faces do Dr. Lao, um caso raro em que isso aconteceu. Será que os demais componentes da obra estão no nível do trabalho de maquiagem? Ou o filme é lembrado apenas por esse fator?

O longa mostra Dr. Lao (Tony Randall), um chinês de 7322 anos, que leva seu circo cheio de atrações únicas (como Merlin, Medusa, entre outros) para Abalone. Mas rapidamente ele percebe que a cidade é dominada pelo rico rancheiro Clint Stark (Arthur O’Connell). Com isso, Lao se une ao dono do jornal local Ed Cunningham (John Ericson) para tentar alterar a vida dos cidadãos locais.

Como a sinopse sugere, o foco da história está no circo do Dr. Lao e vale ressaltar como tudo o que envolve a atração funciona. Claro que não se pode exigir que um filme da década de 60 possua efeitos que ainda impressionem (2001 – Uma Odisseia no Espaço é um caso raro onde isso acontece), mas apesar de ser visível os cortes utilizados para criar os truques de Merlin, as mágicas funcionam e em nenhum momento soam risíveis, auxiliadas pelo bom uso da edição de som que insere misticidade nesses momentos.

Mas como já foi mencionado, o que fez esse filme entrar para a história é o impressionante trabalho de maquiagem de Willian Tuttle, transformando Tony Randall em todas as atrações do circo, inclusive em Medusa. Além de convencerem perfeitamente, em nenhum momento parecem ser mesma pessoa, construindo um asiático, um ancião, uma mulher, uma cobra falante, um monstro das neves, um filósofo grego e um homem com pernas de bode com extrema competência e sem parecer artificial. Vale ressaltar também como a atuação de Randall contribui para os personagens se diferenciarem, uma vez que, mesmo sendo estereotipado algumas vezes, principalmente na interpretação de Dr. Lao, ele faz um belo trabalho de voz, com composições que dão personalidade para os sete personagens.

Ainda sobre a parte técnica, a direção de arte cria uma bela ambientação, construindo com eficiência tanto a cidadezinha de Abalone, quanto o circo do Dr. Lao, mostrando a cidade com tons pasteis e o circo colorido, ressaltando a diferença de espírito entre esses dois lugares. A fotografia apresenta-se estática na maioria do tempo, apenas com alguns travellings sutis e intercalando planos médios, close-ups médios e planos gerais, usando movimentos bruscos de câmera apenas na cena onde Pã conhece Angela. Por fim, a trilha sonora cria um misto interessante de western com oriental que transmite o tom do filme.

Porém, se tudo funciona tecnicamente, graças a uma boa direção de George Pal, o mesmo não pode ser dito para o roteiro de Charles Beaumont (baseado no livro de Charles G. Finney), focando em uma história clichê onde um homem rico, junto de seus capangas, tenta se aproveitar da ingenuidade dos cidadãos de uma cidadezinha para comprá-la. Se a história funcionasse e fosse bem construída isso não seria um grande problema, mas o roteiro apresenta personagens totalmente estereotipados, como: o rico malvado, a professora carente que está na história apenas para ficar com o herói, o jornalista corajoso que defende a cidade a qualquer custo, já todos os outros personagens são caipiras ou rabugentos, o que dificulta a identificação do público com o universo retratado. Dito isso, Dr. Lao é o único personagem realmente carismático, mas mais por suas habilidades incríveis do que por um bom desenvolvimento.

Por mais que os personagens sejam sem graça, o primeiro ato estabelece os arcos dramáticos dos protagonistas pelo menos, contudo, a partir da metade da projeção, o roteiro ignora tais histórias para priorizar as atrações do circo. Mesmo contribuindo para mostrar um pouco sobre a personalidade de cada personagem, o segundo ato quase não movimenta a trama. Até que no terceiro ato, Dr Lao funciona como uma espécie de deus ex machina para a história, fazendo com que a professora e o jornalista se apaixonem, o rico fique bonzinho e os cidadão vejam que não é uma boa ideia vender a cidade, sem nenhum desenvolvimento prévio.

Apesar dos personagens desinteressantes e história clichê, As 7 Faces do Dr. Lao impressiona por seus efeitos visuais, principalmente a maquiagem, e entretêm com eficiência, uma vez que, não deixa de ser interessante acompanhar tantos personagens da mitologia juntos, como Merlin, Medusa e o Abominável Homem das Neves, por exemplo. Ao final da projeção, Dr. Lao ainda transmite uma mensagem sobre a beleza nos pequenos detalhes, dizendo “o mundo é um circo se você olhá-lo da maneira certa”, que deixa uma sensação agradável ao terminar de assistir o longa, por mais problemática que a trama seja, só é uma pena que isso não ocorra do início ao fim.

As 7 Faces do Dr. Lao (7 Faces of Dr. Lao) – EUA, 1964
Direção: George Pal
Roteiro: Charles Beaumont (baseado na obra de Charles G. Finney)
Elenco: Tony Randall, Barbara Eden, Arthur O’Connell, John Ericson, Kevin Tate, Noah Beery Jr, Eddie Little Sky, Royal Dano
Duração: 100 min

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26 comentários

Fernando Campos 10 de dezembro de 2018 - 11:32

O filme tem seus bons momentos mesmo, mas acho o roteiro tão fraquinho que não consigo me divertir tanto assistindo.

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Luiz Francisco 10 de dezembro de 2018 - 09:03

Concordo com a crítica de que o roteiro é realmente ruim. A história é um tanto moralista, maniqueísta e acaba caindo em vários clichês. Mas gosto pela bela atuação de Tony Randall e também porque o roteiro consegue oferecer uns lampejos de filosofia para o espectador em algumas falas dos diversos personagens que Randall interpreta.

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Jaime 28 de abril de 2018 - 11:52

Pra começar o filme merece 5 estrelas,é um clássico,pronto e acabou! Qualquer crítica é pura demagogia ou incapacidade de análise do ponto de vista de um cinéfilo! Merece ser visto e descoberto pelas novas gerações, é poético, sensível, emocionante e surpreendente em ensinar muita coisa! Amável! Na minha opinião a classificação do filme pode ser perigoso,pois alguns deixam de descobrir essas preciosidades só de ver que deram 1,2 ou 3 estrelas! Lamentável…

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Fernando Campos 28 de abril de 2018 - 12:09

Vou usar sua mesma estratégia de argumentação e debate.

Pra mim esse filme não é nada disso, pronto e acabou!

P. S.: Adoraria debater esse filme contigo se quiser. Mas não chega aqui decretando coisa. Assim, não rola. Aliás, se alguém deixa de assistir um filme pela nota, o problema é de quem faz isso, não meu. Pra mim, todos os filmes devem ser vistos.

Responder
Fernando Campos 28 de abril de 2018 - 12:09

Vou usar sua mesma estratégia de argumentação e debate.

Pra mim esse filme não é nada disso, pronto e acabou!

P. S.: Adoraria debater esse filme contigo se quiser. Mas não chega aqui decretando coisa. Assim, não rola. Aliás, se alguém deixa de assistir um filme pela nota, o problema é de quem faz isso, não meu. Pra mim, todos os filmes devem ser vistos.

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Ana Silva 13 de agosto de 2018 - 12:28

Estou inteiramente de acordo com vc Jaime, Inclusive, fiz até a leitura do livro de Charles Finney, no qual o roteiro foi baseado, é um filme atemporal, cheio de mensagens, simbologias e mitologia. Provavelmente o “crítico”, rs, não teve a capacidade cognitiva de fisgar a magnitude da obra. Lamentável….

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Ana Silva 13 de agosto de 2018 - 19:23

Entendi, vc é o personal segurança, cada um com a função que lhe cabe, né?! queria acrescentar mais um blah que é de suma importância e pelo visto desconhecido e que qualquer cinéfilo que se preze deveria saber, os efeitos desse filme foram criados por ninguém menos que ray harryhausen… Mas, só pra quem manja de cinema, não fica só no mainstream e achismos… Força!

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Luiz Santiago 13 de agosto de 2018 - 19:28

EU SÓ QUERO VER O CIRCO PEGAR FOGO!!! HAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHHAHA

planocritico 13 de agosto de 2018 - 20:22

@disqus_ZGAagmzs3m:disqus , mas os efeitos foram elogiados na crítica…

Outra coisa: você poderia me passar, por favor, a fonte dessa informação sobre o Harryhausen, já que, na época da produção de Lao, ele estava fazendo os efeitos de Jasão e o Velo de Ouro e Os Primeiros Homens na Lua e eu li a biografia dele (An Animated Life) e ele sequer faz menção a Lao, nem mesmo como projeto não realizado?

Obrigado,
Ritter.

Janerson Krischke 4 de setembro de 2016 - 22:15

Um filme bem leve e descontraído. Velha luta do bem contra o mal onde sabemos o final. Algumas cenas foram muito bem feitas, outras nem tanta onde o efeito especial parece feita em um jardim de infância, mas lembro também que esse filme foi feito nos anos 60 e o resultado final, para mim, é positivo.

Responder
Fernando Campos 6 de setembro de 2016 - 18:02

Acho que você descreveu bem a trama “velha luta do bem contra o mal onde sabemos o final”. Mas, para mim, apesar da ótima maquiagem e da trama leve, o filme não envelheceu tão bem.

Responder
Fernando Campos 6 de setembro de 2016 - 18:02

Acho que você descreveu bem a trama “velha luta do bem contra o mal onde sabemos o final”. Mas, para mim, apesar da ótima maquiagem e da trama leve, o filme não envelheceu tão bem.

Responder
Janerson Krischke 4 de setembro de 2016 - 22:15

Um filme bem leve e descontraído. Velha luta do bem contra o mal onde sabemos o final. Algumas cenas foram muito bem feitas, outras nem tanta onde o efeito especial parece feita em um jardim de infância, mas lembro também que esse filme foi feito nos anos 60 e o resultado final, para mim, é positivo.

Responder
Rodrigo Keller 25 de agosto de 2016 - 17:08

O livro é bem interessante e estranho, nada convencional, vale a pena ler.
Quanto ao filme, preciso rever pra ver se resiste ao tempo, mas gostava muito de assistir na Sessao da Tarde, a princípio me parece que a crítica foi um pouco dura com a proposta. Tem pelo menos meia-dúzia de cenas clássicas.

Responder
Fernando Campos 26 de agosto de 2016 - 13:29

A questão não é ser duro ou suave com a proposta, o fato é que cada um absorve e digere o filme de sua maneira. Eu, particularmente, assisto a qualquer longa de forma completamente imparcial e tento repassar ao leitor as impressões que tive, contudo, nem todo mundo verá o filme da mesma maneira. A obra tem sim cenas clássicas, principalmente no segundo ato, mas é importante analisá-las em conjunto, dentro da trama, e não de forma isolada, afinal, existem vários filmes medianos com cenas incríveis.

Responder
Fernando Campos 26 de agosto de 2016 - 13:29

A questão não é ser duro ou suave com a proposta, o fato é que cada um absorve e digere o filme de sua maneira. Eu, particularmente, assisto a qualquer longa de forma completamente imparcial e tento repassar ao leitor as impressões que tive, contudo, nem todo mundo verá o filme da mesma maneira. A obra tem sim cenas clássicas, principalmente no segundo ato, mas é importante analisá-las em conjunto, dentro da trama, e não de forma isolada, afinal, existem vários filmes medianos com cenas incríveis.

Responder
Rodrigo Keller 27 de agosto de 2016 - 07:07

Sim, está aí o Tarantino pra comprovar, seus filmes tem cenas e diálogos sensacionais, mas, na minha opinião, nunca são grandes filmes, o conjunto não se sustenta como memorável.
Não concordo em dizer que a história é clichê. Um velhinho chinês de 7000 anos, cavalgando no velho oeste com um aquário, um circo de um homem só, clichê? Só aí já chama atenção pra quem gosta de algo fora do padrão.
E, tens razão, assistir a um filme é uma experiência pessoal, vai impactar ou não cada um de forma diferente. Talvez a memória afetiva me faça lembrar do filme melhor do que ele é, mas acho que tinha um subtexto bacana, o modo como o velhinho através dos seres do circo desnudava o pior da humanidade naquela população, com personagens hipocritas, egoistas, degenerados, etc, e a tentativa de fazê-los enxergarem a si próprios e melhorarem. O próprio Dr. Lao é um personagem muito carismático, e a mensagem final muito bonitinha.
Bueno, talvez fossemos muito ingênuos nos anos 80, quando a maioria de nós viu o filme na Sessão da Tarde. Não sei se uma criança gostaria do filme nos dias de hoje.
De qualquer forma, a cena da Barbra Eden sob o efeito da flauta de Pan já vale o filme! Que coisa, me impressiona que um filme infanto-juvenil da década de 60 aquela cena!
Abraços

Responder
Rodrigo Keller 27 de agosto de 2016 - 07:07

Sim, está aí o Tarantino pra comprovar, seus filmes tem cenas e diálogos sensacionais, mas, na minha opinião, nunca são grandes filmes, o conjunto não se sustenta como memorável.
Não concordo em dizer que a história é clichê. Um velhinho chinês de 7000 anos, cavalgando no velho oeste com um aquário, um circo de um homem só, clichê? Só aí já chama atenção pra quem gosta de algo fora do padrão.
E, tens razão, assistir a um filme é uma experiência pessoal, vai impactar ou não cada um de forma diferente. Talvez a memória afetiva me faça lembrar do filme melhor do que ele é, mas acho que tinha um subtexto bacana, o modo como o velhinho através dos seres do circo desnudava o pior da humanidade naquela população, com personagens hipocritas, egoistas, degenerados, etc, e a tentativa de fazê-los enxergarem a si próprios e melhorarem. O próprio Dr. Lao é um personagem muito carismático, e a mensagem final muito bonitinha.
Bueno, talvez fossemos muito ingênuos nos anos 80, quando a maioria de nós viu o filme na Sessão da Tarde. Não sei se uma criança gostaria do filme nos dias de hoje.
De qualquer forma, a cena da Barbra Eden sob o efeito da flauta de Pan já vale o filme! Que coisa, me impressiona que um filme infanto-juvenil da década de 60 aquela cena!
Abraços

Responder
Rodrigo Keller 25 de agosto de 2016 - 17:08

O livro é bem interessante e estranho, nada convencional, vale a pena ler.
Quanto ao filme, preciso rever pra ver se resiste ao tempo, mas gostava muito de assistir na Sessao da Tarde, a princípio me parece que a crítica foi um pouco dura com a proposta. Tem pelo menos meia-dúzia de cenas clássicas.

Responder
GNewmarks 24 de agosto de 2016 - 17:06

Clássico da sessão da tarde! Lembro de ter pesadelos em pleno dia. Época boa.

Responder
Fernando Campos 26 de agosto de 2016 - 13:24

A cena em que aparece a serpente de 7 cabeças é realmente assustadora se vista por uma criança haha. Mas vendo hoje em dia achei o filme bem leve.

Responder
Fernando Campos 26 de agosto de 2016 - 13:24

A cena em que aparece a serpente de 7 cabeças é realmente assustadora se vista por uma criança haha. Mas vendo hoje em dia achei o filme bem leve.

Responder
GNewmarks 24 de agosto de 2016 - 17:06

Clássico da sessão da tarde! Lembro de ter pesadelos em pleno dia. Época boa.

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