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Crítica | As Alegres Comadres de Windsor (1982)

por Luiz Santiago
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estrelas 3,5

Mesmo não sendo uma grande comédia de Shakespeare, As Alegres Comadres de Windsor conquista fácil o espectador pela inventividade de seus motivos cômicos e pela atualidade de seu enredo. Muito do que está na peça ainda pode ser visto em nossa sociedade e é justamente essa proximidade com as intrigas envolvendo as tais senhoras do título, seus maridos e Sir John Falstaff, que fazem a trama se aproximar do público e garantir boas risadas – ou talvez um pouco de pena do desafortunado cavalheiro balofo sacaneado pelas comadres Ford e Page.

Quem conhece as duas partes de Henrique IV, certamente nota a grande diferença entre o Falstaff ali representado e o Falstaff de As Alegres Comadres. Assim como a maior parte da crítica literária sinaliza, parecem dois homens diferentes, apenas com a característica física e a propensão para a vilania e a boemia intactos, mas mas as atitudes e mesmo o ambiente em que a personagem se deixa estar não nos lembra muito o Falstaff cínico amigo do príncipe Hal.

O fato é que existe toda uma crônica secular em torno da escrita de As Alegres Comadres, a mais famosa, afirmando que a peça fora encomendada pela rainha Elizabeth I e escrita pelo bardo em apenas 15 dias e com uma nova visão sobre o velho Falstaff. A encomenda, se é que existiu, pedia para que a peça tivesse como foco os amores do Cavalheiro, algo que Shakespeare faz, mas dentro de uma perspectiva cômica e cheia de negações. Os amores de Falstaff, na verdade, são duas mulheres casadas, a Senhora Page e a Senhora Ford, que ao receberem dele a mesma carta de cortejo, combinam uma vingança, dando-lhe falsas esperanças e fazendo-lhe passar pelas mais constrangedoras situações.

Para que haja sentido cronológico, é preciso ter em mente que os eventos de As Alegres Comadres se passam durante o reinado de Henrique IV, mas a organização social, medos e comportamentos percebidos na peça são bem a cara do período em que Shakespeare viveu, o que talvez faça dessa obra uma das mais ligadas à realidade inglesa, seja em organização social, política ou cultural, seja em termos de construção dramática para as personagens.

David Jones faz uma interessante adaptação da peça, deixando clara a colocação social das personagens e os conflitos linguísticos e culturais que a separam, uma leitura que funciona até certo ponto, mas por outro, tira o humor central da peça, que mesmo no original só aparece depois do 3º ato, quando as coisas já vão bem avançadas. Não é que os elementos cômicos não estejam presentes na obra desde o seu início, mas a comédia, rigorosamente falando, demora a se estabelecer. Levando isso em consideração, a adaptação de Jones, ambientada numa vila próxima ao castelo de Windsor (daí a derivação das “alegres comadres”, do título) perde ainda mais força no sentido cômico inicial, porque além da longa apresentação de personagens herdada da peça, há uma outra atmosfera a ser considerada.

O elenco realiza um excelente trabalho em conjunto, com destaque para o Falstaff de Richard Griffiths e o neurótico Mestre Page de Ben Kingsley. Embora eu não esteja certo que essa interpretação quase psicótica de Page seja algo que Shakespeare quis passar – pelo menos não entendi, durante a leitura da peça, o Mestre Page como um louco, apenas um homem muito ciumento –, Ben Kingsley consegue puxar um caráter humorístico para sua personagem, o que de certa forma faz com que sua loucura seja melhor aceita.

A festa das fadas e outros seres ao final da obra, com Falstaff morrendo de medo das aparições e com chifres de veado na cabeça é a melhor parte do filme. A concepção de David Jones para o momento foi irretocável, arquitetando uma espécie de ritual pagão, com ótima musicalização do poeminha do bardo e um final que ganhou muito mais simpatia do que o já simpático e espirituoso final original. Há uma alternância entre calmaria e excitação que cai bem ao término da comédia e, como isso é feito de forma compassada, o espectador tem a oportunidade de saborear cada momento, como uma interessante despedida.

Mesmo que tropece na construção inicial da comédia e tenha acrescentado uma atmosfera questionável em sua adaptação inicial, David Jones apresenta uma leitura divertida da obra de Shakespeare, tendo um elenco talentoso em cena e fazendo dos poucos recursos uma ferramenta cênica bem localizada e utilizada no decorrer da obra. No fim, a película faz o espectador rir dos absurdos das relações humanas, pensar e aprender algo que Falstaff teve que sofrer para concluir: nunca se deve tentar enganar uma mulher inteligente.

As Alegres Comadres de Windsor (The Merry Wives of Windsor) – Reino Unido, 1982
Direção: David Jones (David Hugh Jones)
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Alan Bennett, Ben Kingsley, Richard O’Callaghan, Tenniel Evans, Bryan Marshall, Richard Griffiths, Gordon Gostelow, Nigel Terry, Michael Robbins, Miranda Foster, Judy Davis, Prunella Scales, Ron Cook
Duração: 170 min.

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