Crítica | As Aranhas – Parte 1: O Lago Dourado

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Cronologicamente, As Aranhas – Parte 1: O Lago Dourado foi o terceiro filme de Fritz Lang, mas ao fazer essa afirmação não devemos nos esquecer de que as quatro primeiras produções do diretor datam todas do mesmo ano (1919), chegando aos cinemas na seguinte ordem: Halbblut (com estreia em 3 de abril), Der Herr der Liebe (com estreia em setembro), As Aranhas – Parte 1 (com estreia em 3 de outubro) e Harakiri (com estreia em 18 de dezembro). O que observamos aqui é que Lang não teve apenas um ano extremamente movimentado e criativo, mas que sua breve passagem pela função de roteirista em obras de outros diretores (ao todo, três filmes, todos em 1917) deram-lhe a desenvoltura necessária para assumir um projeto ousado, algo que os chefões da Decla já haviam percebido, tanto que entregaram ao recém-chegado diretor uma tarefa que normalmente caberia aos profissionais mais antigos da casa. Lang foi cotado para guiar um seriado cinematográfico.

Antes da TV, era frequente a prática de os estúdios fazerem, num curto espaço de tempo, diversos filmes de até pouco mais de uma hora de duração (essa era a média, mas haviam filmes mais longos), contando uma longa história em “capítulos”, convidando os espectadores a irem ao cinema num outro dia, para verem a continuação. O argumento apresentado por Lang ao produtor Erich Pommer fez as honras de convencimento, dando-lhe a oportunidade de criar uma história que pudesse ser contada em quatro filmes. Para isso, o cineasta foi retirado da direção de uma obra que logo iria começar a rodar (O Gabinete do Dr. Caligari) e recebeu a ordem para focar na primeira parte de Die Spinnen, uma saga que, dos quatro filmes inicialmente previstos, teria apenas dois lançados.

O roteiro dessa obra está entre as fundações das matinês de filmes de aventura, mistério e ação, uma linha de abordagem que conquistaria rapidamente o público e desenvolveria o seu gosto por lugares, povos e pessoas exóticas. Cimentando essa concepção, percebemos que o roteiro faz com que uma personificação maligna esteja sempre à espreita, praticamente intocável e com poder suficiente para fazer mal a muitas pessoas inocentes. Esta é a impressão que temos de Lio Sha (Ressel Orla), uma destemida e ardilosa mulher que dirige a organização de nome “Aranhas”, cuja finalidade é se apropriar de relíquias ao redor do mundo e de toda a sorte de riquezas e tesouros, peças arqueológicas, obras de arte, joias imperiais, raridades colecionáveis… Infelizmente o roteiro demora bastante tempo introduzindo a destemida Lio Sha e seu concorrente, o esportista, colecionador e também explorador Kay Hoog (Carl de Vogt), o mocinho da fita.

Notem que existe todo um filão cinematográfico que floresceu abundantemente nos anos posteriores e que bebem justamente dessa fonte (ela, por sua vez, recebendo águas de fontes literárias), sagas de exploração de lugares que colocam homens “civilizados”, muitas vezes em conflito entre si, procurando riquezas ou buscando proteger um lugar histórico ou misticamente importante. Os resultados são os mais diversos. Depois do ritmo inicial um tantinho chateante, a história ganha forças e segue crescendo, mantendo os cacoetes típicos do cinema da década de 10. Essa particularidade, porém, se reveste de uma grandeza e entretenimento em alta conta, com Lang fazendo questão de explorar as construções ameaçadoras de forma ousada (com uma porção de tratamentos belos e inteligentes da direção de arte e fotografia, o que é de se esperar, numa obra do Expressionismo Alemão) e manter o interesse do público cada vez mais forte à medida que o filme se aproxima do final.

Aqui, apenas em seu terceiro filme, Fritz Lang se alçou como um realizador notável na Alemanha e o sucesso deste O Lago Dourado não só o colocaria em alta conta na visão do estúdio, mas também nos olhares do público e da crítica. Indo das salas de reuniões de São Francisco até as ruínas da antiga Civilização Inca, As Aranhas é o tipo de filme de aventura que cativa e que faz o público esperar ansioso pelo que está por vir, torcendo por um mocinho aqui, esperando um passo maligno da vilã acolá. Um filme historicamente relevante em seu “ensaio de gênero” e um divisor de águas para Fritz Lang, pensando nas oportunidades geradas para ele a partir daqui.

As Aranhas – Parte 1: O Lago Dourado (Die Spinnen, 1. Teil – Der Goldene See) — Alemanha, 1919
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang
Elenco: Carl de Vogt, Ressel Orla, Georg John, Lil Dagover, Paul Biensfeldt, Harry Frank, Gilda Langer, Hans Lanser-Rudolf
Duração: 81 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.