Crítica | As Aventuras de Buckaroo Banzai

O ano de 1984 foi pródigo no cinema, trazendo clássicos dos mais variados gêneros como Os Caça-Fantasmas, Isto É Spinal Tap, Gremlins, Um Tira da Pesada, Indiana Jones e o Templo da Perdição, Karatê Kid e Loucademia de Polícia, isso só para arranhar a superfície. Na categoria dos filmes sci-fi-porra-louca-de-baixo-orçamento-com-elenco-que-se-tornaria-icônico-e-ganharia-status-de-cult-movie, esse mesmo ano trouxe o obscuro, mas delicioso As Aventuras de Buckaroo Banzai, com Peter Weller, o futuro RoboCop, no papel-título.

Quem conhece De Volta Para o Futuro sabe que Robert Zemeckis e Bob Gale muito claramente homenagearam Buckaroo Banzai ao basicamente construir toda a sequência do DeLorean indo para o passado ao redor de detalhes no que vemos no filme escrito por Earl Mac Rauch, especialmente a sequência inicial em que Banzai pilota um carro a 500 milhas por hora para atravessar uma barreira dimensional. Estão lá o capacitor de fluxo, a velocidade de 88 milhar por hora e a própria “viagem no tempo”. Chamo atenção para esse aspecto simplesmente porque costumamos engavetar alguns filmes como bobagens completas, esquecendo o quanto eles influenciaram a cultura pop, mesmo sem percebermos.

Apresentando-nos ao cientista/neurocirurgião/piloto de testes/roqueiro/aventureiro Buckaroo Banzai (Weller) sem procurar explicar absolutamente nada sobre ele, pedindo-nos que simplesmente aceitemos uma pessoa excêntrica assim, o roteiro de Rauch, que teve curta carreira em Hollywood, mas que já escrevera o texto de New York, New York, de Martin Scorsese, é uma colagem de segmentos tresloucados que nos apresentam a uma história que parece mais retirada diretamente de tiras de jornal em quadrinhos dos anos 40. Há a tal 8ª Dimensão do título original americano, mas que é apenas algo para chamar atenção dos incautos, pois o que interessa é uma invasão alienígena de humanoides reptilianos do Planeta 10, os Lectroides Vermelhos, que já estão infiltrados na Terra e os Lectroides Pretos, que ameaçam destruir o planeta se Banzai não os ajudar a derrotar seus inimigos.

A mistura desconexa entre a paranoia da Guerra Fria representada de maneira óbvia pelos Lectroides Vermelhos e as tensões raciais alegorizadas pelos Lectroides Pretos não formam algo uniforme, estando bem mais para vinagre e azeite do que para algo fluido. Mas sentido não é algo que deve ser procurado com muito afinco nessa fita, já que a pegada amalucada é seu maior achado, assim como seu elenco completamente histriônico e exagerado, com o polímata Buckaroo Banzai circulando com naturalidade entre ameaças cósmicas e um passado que permanece sempre submerso, mas que sabemos que existe em razão do surgimento de Penny Priddy (Ellen Barkin), irmã gêmea perdida de sua esposa falecida. Além disso, temos New Jersey vivido por um Jeff Goldblum constumeiramente surreal, mas aqui especialmente exagerado com sua roupa vermelha de cowboy e Perfect Tommy, personagem de  Lewis Smith que parece um modelo de calça jeans. Do lado vilanesco, a dupla John Lithgow como Lorde John Whorfin/Dr. Emilio Lizardo e Christopher Lloyd como John Bigbooté é toda a dose de cientista/alienígena maluco necessária para fazer o filme funcionar dentro de sua proposta.

Com um design de produção que mostra onde economizou e onde empregou o parco orçamento – ou seja, basicamente nas próteses dos E.T.s e nos efeitos práticos relacionados com naves espaciais -, As Aventuras de Buckaroo Banzai não tem nenhuma intenção de enganar ninguém. A obra funciona somente se o espectador comprar a premissa, a estrutura bagunçada de filme B e a figura de Banzai, algo em que a atuação de Weller ajuda muito graças ao seu carisma natural que chega a compensar sua latitude dramática limitada. A direção de W.D. Richter confirma que ele é muito melhor na cadeira de roteirista, com obras como Invasores de Corpos, Drácula (1979) e Brubaker no currículo, já que seu trabalho é puramente burocrático aqui, com seu maior arroubo criativo sendo o semi-videoclipe que encerra a projeção.

As Aventuras de Buckaroo Banzai é uma simpatia de sci-fi B que merece o status de filme cult que  angariou ao longo das décadas, bem depois de já influenciar obras importantes do gênero. Cativando o espectador por suas bizarrices e por um elenco de respeito, a obra merece um lugar especial nos corações nostálgicos oitentistas.

As Aventuras de Buckaroo Banzai (The Adventures of Buckaroo Banzai Across the 8th Dimension, EUA – 1984)
Direção: W.D. Richter
Roteiro: Earl Mac Rauch
Elenco: Peter Weller, John Lithgow, Ellen Barkin, Jeff Goldblum, Christopher Lloyd, Lewis Smith, Rosalind Cash, Robert Ito, Pepe Serna, Ronald Lacey, Matt Clark, Clancy Brown, William Traylor, Carl Lumbly, Vincent Schiavelli, Dan Hedaya, Mariclare Costello, Bill Henderson, Damon Hines, Billy Vera, Laura Harrington, Yakov Smirnoff
Duração: 103 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.