Crítica | As Aventuras do Ursinho Pooh (1977)

“Para onde quer que eles vão, e o que quer que aconteça a eles no caminho, em seus lugares encantados no alto da floresta, um pequeno urso sempre estará esperando.”

  • A seguinte crítica conta, invariavelmente, com a análise dos três curtas presentes no longa-metragem: Winnie the Pooh and the Honey Tree (1966), Winnie the Pooh and the Blustery Day (1968), e Winnie the Pooh and Tigger Too (1974).

Contém spoilers.

É curioso que uma das obras mais espetaculares da Disney seja uma das mais simples já feitas pelo estúdio; nem uma história original, mas a junção de três curtas-metragens previamente lançados, aqui costurados como um filme único – uma costura não narrativa, mas estética. As Aventuras do Ursinho Pooh é um primo daqueles longas da década de 40, que tinham, dentro deles, vários pedaços completamente distintos, mas empacotados e lançados como um só. A diferença, contudo, é a maneira tão sincera como cada curta, todos estrelados pelos icônicos moradores do Bosque dos 100 Acres, se une um ao outro. No caso, a união dos segmentos não dá lugar a uma história maior, muito menos uma ordem sequencial de eventos, mas, de certa forma, o combo é capaz, aliado com a amarração, de despertar um senso de encantamento enorme no espectador, enfeitiçado por personagens extremamente convincentes e únicos. Entretanto, realmente é ambígua uma abordagem crítica feita a esse longa-metragem, dado a sua facilitada confecção; uma completa remontagem. De fato, uma história original seria mais que bem-vinda, mas também há de se olhar o contrário dessa questão. O resultado do trabalho acaba sendo realmente magnífico, embora as circunstâncias sejam até questionáveis. Ademais, talvez As Aventuras do Ursinho Pooh seja a maneira ideal de uma criança consumir esse universo. Não um episódio de uma série de televisão, muito menos um curta de vinte minutos, mas pequenas aventuras que dão margem a uma trivialidade conquistadora, que em mais de uma hora de puerilidade consegue arrematar qualquer um que se deixe levar por Christopher Robin e companhia.

A imersão, primeiramente, é principiada justamente pela forma como a narrativa é apresentada. Muitos filmes da Disney começaram com a abertura de um livro, mas poucos souberam usufruir sabiamente das possibilidades desse começo. Com uma leveza cômica admirável, o narrador tem ciência de estarmos falando de uma ficção, avançando nas páginas do livro ao ironizar momentos presumidamente mais entediantes. As Aventuras do Ursinho Pooh, aliás, define-se exatamente por essa leveza, esse senso mais infantil, longe de ser, porém, parecido com as obras mais atuais, que emburrecem a criança ao fazer questão de explicar a moral da história, ou, obrigatoriamente, dizer com palavras o que já está sendo mostrado em tela. As histórias são certamente bobinhas, sem pouca real complexidade, mas o trabalho com os personagens, de caracterização, permite que o espectador encontre-se interessado em saber os próximos capítulos, mesmo que eles sejam sobre o Ursinho Pooh (Sterling Holloway) ter se entalado em um buraco na casa de Abel (Junius Matthews). A magia está na narrativa, mas também além dela. No final das contas, estamos falando da imaginação de uma criança. Puxando desse espectro juvenil, os erros ortográficos apresentados em diversas placas são notáveis. Já o mais interessante da criação dos ótimos designs de personagens – as costuras evidenciadas, assim como os enchimentos – é a proporção de seus corpos. Quando comparados a Christopher Robin, uma mera criança, Pooh e seus amigos aparentam ser muito menores. De espírito, contudo, quem rouba a cena são mesmo os animais, com Christopher Robin sendo uma mera intervenção, sentida, mas longe de atuar na mesma importância e carisma que os demais personagens.

Tão importantes para a confecção dos personagens quanto a história que deu base para os curtas – Winnie-the-Pooh, de A. A. Milne -, os atores incorporam os moradores do Bosque dos 100 Acres com vozes distinguíveis, dando margem a indiscutíveis personalidades. A exemplificar, Sterling Holloway, a primeira voz do Ursinho Pooh, é certeiro na sua impressão deste amante de mel, atrapalhado e confuso acerca da natureza das coisas. Os animadores também promovem, com os números musicais, espaço para a construção de afeição do espectador com o enredo e o universo. Winnie the Pooh and the Honey Tree, o primeiro segmento do filme, e que, significativamente, teve participação de Walt Disney – sendo este filme, portanto, o último com créditos ao ícone maior do estúdio -, aborda o interesse de Pooh por comida de uma maneira cômica, sem fazer qualquer óbvio juízo de valor do hábito nenhum pouco saudável do personagem. Longe disso, o entupimento do personagem causa um senso de consequência fortíssimo, contraposto com o rabugento Abel, que, por sua vez, tem essa característica negativa impulsionada no último segmento, Winnie the Pooh and Tigger Too. Nele, por implicância com o humor saltitante de Tigrão (Paul Winchell), o coelho decide se livrar do personagem, planejando o seu abandono temporário. Embora seja o menos simpático dos personagens, a personalidade de Abel é forte, distinta das demais. A resolução das coisas permite atribuir um teor redimível a ele, visto que o personagem, enfim, acaba demonstrando uma simpatia por Tigrão e a tristeza que passa o assolar com a proibição de seus pulos. Ursinho Pooh não emburrece o espectador para conseguir transmitir a ele seu interesse como obra, acima de tudo, voltada a crianças.

O mais impressionante dos curtas, todavia, é o segundo: Winnie the Pooh and the Blustery Day, que apresenta Tigrão ao mundo dessas histórias durante uma terrível tempestade. Na ocasião, a casa do Corujão (Hal Smith) é destruída. Conseguinte ao fato, o narrador novamente demonstra um viés participativo, uma constante do filme, interagindo tanto com os personagens quanto com os cenários. O já citado avanço de páginas surge a medida que o Corujão começa a contar uma história aleatória. Sendo ele o membro mais velho da turma, seu esquecimento, assim como a sua sabedoria, é inegável; retoma-se, então, esse fator no término do conto, quando Ió (Ralph Wright), procurando um novo lar para o seu amigo, acaba induzindo-o a morar no lar que antes era de Leitão (John Fiedler). Além de brindar com a ingenuidade do burrinho, um desesperançoso personagem que tem uma cauda presa ao seu corpo, propícia a sacadas espetaculares, também relacionável pela sua distinção de humor, o segmento apresenta Pooh como um excepcional amigo, convidando Leitão para morar com ele. Também é válido pontuar que Roque-Roque (Howard Morris), outro notável personagem do filme, criado exclusivamente para as animações – situação comentada metalinguisticamente na obra -, era suposto para substituir Leitão, mas a ideia foi deixada de lado com a enfim apresentação do filhote de porco no segundo curta. Aliás, para não dizer que não falei de tigres, deixo o último espaço a ele, Tigrão, interpretado maravilhosamente por Winchell, que emprega um rosnado sensacional, único, em sua performance. A música “The Wonderful Thing About Tigger” já nos simpatiza logo de cara com a sua personalidade consideravelmente excêntrica.

Por fim, um adendo ao upgrade do segmento psicodélico de Dumbo: “Heffalumps and Woozles”, uma gema onírica bastante admirável, mostrando que o valor de produção da animação também é impressionante, mudando-se, por exemplo, na comparação com demais obras, a forma de se mostrar as cenas, que as vezes buscam ângulos diferentes dos padrões, como quando Pooh é levado por um balão. Uma nota especial a esse exemplo, visto que ele exemplifica uma contra intuição de qual seria o peso dos personagens. O urso, afinal, acaba sendo mais leve que um balão – um bichinho de pelúcia a ser amado por uma criança, resgatado inúmeras vezes por ela. Da mesma maneira que as brincadeiras de crianças reais, o garoto se permite participar das aventuras apenas quando necessário. Aliás, Toy Story, décadas depois, também brincaria com a natureza dos brinquedos de uma criança. Enquanto ele seria uma espécie de invasão de brinquedos ao mundo real, Ursinho Pooh é a invasão de uma criança ao mundo imaginário de suas pelúcias. Enfim, Christopher Robin, no final do filme, em uma parte feita exclusivamente para o longa-metragem, tendo o propósito de encerrá-lo dignamente, há de retornar para as aulas na escola, despedindo-se por um tempo de seus velhos amigos. Assim como Pooh se lembrará do companheiro de tantas aventuras, é certo que nos lembraremos das graciosas jornadas traçadas por ele e os demais moradores do Bosque dos 100 Acres. É hora de dizer um adeus, ou até mesmo um até logo, mas a real vontade é de retornar para o começo, seja a primeira página do livro, a primeira cena do filme ou até mesmo a primeira frase desse texto.

As Aventuras do Ursinho Pooh (The Many Adventures of Winnie the Pooh) – EUA, 1977
Direção: John Lounsbery, Wolfgang Reitherman
Roteiro: Larry Clemmons, Ralph Wright, Vance Gerry, Xavier Atencio, Ken Anderson, Julius Svendsen, Ted Berman, Eric Cleworth
Elenco: Sterling Holloway, John Fiedler, Junius Matthews, Paul Winchell, Howard Morris, Bruce Reitherman, Jon Walmsley, Timothy Turner, Ralph Wright, Clint Howard, Dori Whitaker, Barbara Luddy, Hal Smith, Howard Morris, Sebastian Cabot
Duração: 74 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.