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Crítica | As Bicicletas e a Cidade

por Leonardo Campos
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Discussões sobre a bicicleta como uma importante opção de modal para as zonas urbanas já estiveram em diversos documentários brasileiros e estrangeiros, num debate que parece render ainda muitas produções. De um lado, geralmente temos quem defende a bicicleta, do outro, as pessoas que consideram o ciclismo uma prática que atrapalha a agilidade dos automóveis em suas dinâmicas de deslocamento cotidiano. No meio estão o que não se importam com o assunto. O idealizador de As Bicicletas e a Cidade encaixa-se no primeiro grupo. Defensor das bikes, ele é um morador de Joinville, cidade de Santa Catarina que serve de espaço para as reflexões de seu documentário, um produto audiovisual que ao longo de seus 72 minutos, traça um amplo panorama histórico do desenvolvimento urbano do local, tendo como recurso, um punhado de vídeos e muitas imagens de arquivo, material importante para reiterar a sua “tese”.

Menos didático do que poderia ser, haja vista a falta de ritmo com o excelente material que possui em mãos para distribuir do começo ao fim da produção que também peca pela ausência de um trabalho sonoro empolgante, As Bicicletas e a Cidade inicia o seu discurso com um vídeo sobre a importância do progresso em Joinville, datado de 1963, intitulado “Na Vanguarda do Progresso”. O narrador comenta que as ruas da cidade são planas, que as avenidas são cuidadas com esmero e curiosamente, vemos uma onda gigantesca de trabalhadores e demais habitantes a trafegar de bicicleta, modal que era a febre antes do amplo processo de urbanização que deu ao automóvel o protagonismo no deslocamento humano das grandes cidades não apenas brasileiras, mas de toda parte do planeta acometida pelos efeitos globais da industrialização frenética. O melhor momento, por sinal, é quando um entrevistado critica JK e a ideia de 50 anos em 5, projeto que esconde algo muito mais sombrio que o imaginado em alguns registros históricos românticos.

Ao ceder às pressões das indústrias, Juscelino Kubitschek, entregou os brasileiros ao modelo fordista, numa remodelagem da relação do homem diante da cidade. Numa determinada passagem logo no começo, temos um entrevistado apresentado com uma bicicleta, outro no papel de pedestre e um cadeirante, três alternativas de deslocamento que tangenciam o debate do documentário. Entre captação de imagens da mobilidade urbana local e entrevistas de quem viveu a história dos primeiros passos da cidade e quem atualmente é membro ativo do tecido social e econômico de Joinville, temos curiosas histórias sobre como as bicicletas foram recursos de ostentação em determinada época, o surgimento dos clubes de ciclismo, imagens da Rua do Príncipe, comparada entre o passado e presente, bem como uma série de documentos e fotos de arquivos pessoais de indivíduos que tiveram ou ainda tem neste modal, um meio legítimo de transporte. Alguns criticam a urbanização e seu processo voltado aos interesses das elites dominantes, problema basilar das discussões sobre o assunto em produções deste segmento.

Dentre os depoimentos, temos o historiador Dilney Cunha, responsável por levantar questões sobre urbanização e modelos de cidades emulados de metrópoles estrangeiras; João Andrade, presidente do grupo de ciclismo da região, também muito crítico em relação aos meandros das políticas públicas que não favorecem a atividade com bicicleta da maneira que se deveria; Valter Bustos, responsável pelo Museu das Bicicletas, aponta o auge da bicicleta nas sociedades pós-guerra, devastadas pelos conflitos bélicos e em fase de reconstrução, depoimento somado aos demais participantes, alguns em fase memorialista, a comentar o passado de maneira simpática, outros mais críticos, preocupados com o atual estado dos usuários de bicicletas face ao vergonhoso projeto ineficaz de ciclovias que entrecorta (ou não) algumas zonas da cidade. Além de falar dessa ausência, a produção também comenta e critica a violência no trânsito, tendo a história do cadeirante que nunca mais se recuperou adequadamente depois de um acidente provocado por um motorista “veloz e furioso” que se deslocava no mesmo momento e via que ele.

Diante do exposto e com base na menção realizada no primeiro parágrafo, sim, temos uma tese. E é simples: a bicicleta é um importante modal no bojo da mobilidade urbana, mas encontra-se eclipsada pelo protagonismo do automóvel e de seus condutores, sem generalizações, mas uma grande parte arrogante nas pistas, como se a única possibilidade de deslocamento na dinâmica dos centros urbanos fosse exclusivamente o carro, fortalezas de grande porte e máquinas de matar quando comparados ao lugar do ciclista nas vias que cortam as cidades e permitem que as pessoas se desdobrem dentro de suas missões cotidianas. “Todo dia é dia de carro novo”, estampa uma propaganda de 1964, curiosa por flertar com dois modelos de Brasil, o de “ontem e o de hoje”, um país que buscava não ser estático economicamente, mas dinâmico, escolha óbvia para a sobrevivência  num mundo regido pelo capital, mas ao mesmo tempo desastroso para o meio ambiente e para a contemplação de necessidades de grupos menos favorecidos.

As Bicicletas e a Cidade (Brasil, 2016)
Direção: Fellipe Giesel
Roteiro: Fellipe Giesel
Elenco: Frida Rudin, Juarez Machado, Heinz Gnewuch, Valter Bastos, João Andrade, Vanderley Hudka
Duração: 72 min

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