Crítica | As Cobras Atacam

As cascavéis são as serpentes mais cobiçadas pela indústria cultural, tamanha é a incidência dessa espécie de réptil em narrativas cinematográficas e televisivas. De todas as rastejantes e pavorosas criaturas deste segmento, elas são as que mais tiveram papéis no desenvolvimento de histórias, mesmo que as anacondas sejam as mais famosas no bojo do horror ecológico. Temidas por sua aparência e ferocidade, as cascavéis são animais que podem ser contemplados durante o dia, mas que possui hábitos exclusivamente crepusculares. Sua principal fonte de alimentação são os roedores, mas nada impede que consumam ovos, outras serpentes e, adentrando na lógica ficcional cheia de liberdades artísticas, tenha nos seres humanos a sua fonte de diversão para picar e destilar o seu veneno. Esse é o mote de As Cobras Atacam, telefilme lançado em 1999, prova cabal do interesse de determinado público por filmes sobre serpentes assassinas.

Guiado pelo roteiro escrito por Matt Dorff, William S. Gilmore e pasmem, John Carpenter, trio inspirado pelo argumento de Patricia Arrigoni e Fred Brown, As Cobras Atacam é um telefilme ciente de suas limitações dramáticas, orquestrado pelo cineasta Noel Nosseck. A história é bem trivial, parecida com dez a cada dez filmes sobre serpentes assassinas. Moradores de uma cidade situada no interior da Califórnia começam a surgir aos montes, atacados e mortos após terríveis incidentes com as cascavéis que, saberemos mais adiante, surgiram depois que um caminhão que a trafegava capotou após um acidente e diante do impacto, libertou a serpente que acasalou com outras espécie local, situação que promoveu o surgimento de uma nova espécie, ainda mais letal. Agora, a função é salvar os habitantes ainda vivos e eliminar a ameaça réptil.

Para a ação, um chefe do corpo de bombeiros e um biólogo se unem em prol da luta contra as cobras que invadem as casas em ataques horripilantes, tomado pela selvageria adotada pelo tom do filme, narrativa que tal como qualquer produção deste segmento, tende a antropomorfizar tais seres rastejantes. Há um romance pueril no meio da história, tendo em vista ampliar o interesse do público e estabelecer figuras para a possibilidade de catarse no desfecho da produção. Vic Rondelli (Harry Hamli) é o tal bombeiro alçado ao posto de protagonista, homem que se envolverá no romance rocambolesco com Mandy Stratford (Shannon Sturges), a bela assistente do magnata imobiliário Max Farrigton (Jack Scalia), personagem que ocupa o arquétipo do antagonista do progresso da situação, pois pensa apenas nas cifras e não reflete sobre os perigos vivenciados pela população da cidade.

As serpentes, antes confinadas, ganharam as zonas urbanas por causa das ações de ampliação do projeto habitacional da cidade. Como isso funcionou? As explosões realizadas pela empresa de Farrigton provocaram o deslocamento das cascavéis de uma zona interna e cavernosa para a superfície. Assim, elas se espalham de maneira rizomática pela região. Escondem-se em automóveis, cômodos das casas, jardins, etc. É uma situação de horror sem precedentes para os habitantes da cidade devastada pelo espetáculo do horror ecológico. Assim, o bem vai lutar contra o mal, tudo indica que a situação não será solucionada, mas no desfecho, a ordem anseia pela prevalência e situação já esperada se resolve, com desfecho que deixa a sensação de que haverá uma continuação, algo que até então, para o bem de todos, cinéfilos e críticos, não ocorreu.

Em seus requisitos técnicos, a produção segue a cartilha burocrática da maioria dos telefilmes da década de 1990, com direção de fotografia comum, sem grandes arroubos no que tange aos elementos da iluminação, movimentação e enquadramentos. É tudo muito básico e à serviço da história, igualmente limitada e comum. Assinado por John Stokes, o setor não fica apenas na abordagem subjetiva da câmera para representar as criaturas rastejantes em seus momentos de ataque. O design de produção de John Dowding é igualmente comum. Não há economia nas cenas de demonstração das cascavéis, algumas reais, outras aparentemente de borracha, transformadas em seres mais verossímeis por conta do design de som de Greg Burgmann que em todos os momentos de “atuação” destes “monstros”, emprega estilhaços sonoros para indicar que o perigo se aproxima, picadas musicais que teriam maior impacto de a trilha sonora de Michael Tavera fosse menos frágil enquanto condução sonora para um filme de terror.

Ademais, ao longo de seus 91 minutos, As Cobras Atacam é um filme repleto de clichês que funcionam, narrativa despreocupada em se levar demasiadamente à sério, ciente de seu tom compromissado com o entretenimento ligeiro. Filmado em Queensland, na Austrália, a produção teve a sua estrutura dramática montada ainda nos anos 1970 por Carpenter, cineasta conhecido por seus filmes devidamente tratados como clássicos do terror. O projeto foi engavetado e só ganhou forma audiovisual no final da década de 1990, período frutífero para o segmento dos animais assassinos no cinema. A fórmula, por sinal, segue a estrutura do clássico tubarão-branco inspirado na obra de Peter Benchley, isto é, heróis, vilões, forças da natureza, forças adjuvantes e oponentes, base dramática adotada em quase todos os filmes do segmento rentável em questão.

As Cobras Atacam (Silent Predators) — Estados Unidos, 1999
Direção: Noel Nosseck
Roteiro: Matt Dorff, William S. Gilmore, John Carpenter
Elenco: Carmen Ejogo, Harry Hamlin, Shannon Sturges, David Spielberg, Patty McCormack, Beau Billingslea, Phillip Troy Linger, Jack Scalia, David Whitney, David Webb
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.