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Crítica | As Discípulas de Charles Manson

por Iann Jeliel
28 views (a partir de agosto de 2020)

Então está tudo acontecendo como Charlie disse?

Antes de Era uma Vez em Hollywood tocar na ferida do legado Manson, ou melhor, livrar-se dela, a cineasta canadense Mary Harron, relegada a um lapso momentâneo de sucesso com Psicopata Americano, explora a psique do serial killer através do ponto de vista de suas “cúmplices” em uma produção infelizmente televisiva demais. 

A premissa é uma espécie de terapia, começando na cadeia onde três das mulheres de seu culto cumprem prisão perpétua e continuam a discutir a iminência da guerra social prometida por Manson. Aos poucos o filme irá retomar em flashbacks todo o processo que as fez chegar até ali, tanto no lugar físico como no pensamento ideológico deturpado. Falando inicialmente dos problemas, a grande limitação do longa está nos recursos escolhidos para essa troca de tempo, visualmente. Tudo bem que (apesar de não lembrar tanto do seu filme mais conhecido) a vertente em linguagem da cineasta nunca foi tão robusta quanto a temática, mas se tratando de uma espécie biográfica, a encenação dos acontecimentos primordiais carece de uma execução mais ardente. 

Lógico, não é o foco do filme como desenhado, mas é importante para a compreensão de seu objetivo final, além de vender mal o projeto, remetendo a uma estilização um pouco datada de enquadramentos fechados e cinematografia sombria e misantrópica remetente à revitalização dos slashers no início dos anos 2000, sendo que a estrutura do filme nem se encaixa nesse estilo. Então, é devidamente incômodo, no mau sentido, quando o filme tenta construir uma atmosfera mais explícita, falta sutileza na forma de abordar o culto específico sem parecer um fundo de esquina gore qualquer.

Entretanto, no aspecto semiótico, a abordagem adotada é passível de diversas ideias interessantes. Acompanhar o processo de influência do psicopata é deveras perturbador, é desse modo que o filme atinge o terror, porque sabemos o desconhecido em que aquelas mulheres estão se metendo, e justamente com isso vem o incômodo de perceber como a persuasão do discurso de Manson manipulou a fragilidade emocional de cada uma a ponto de transformá-lo numa figura messiânica. O didatismo do discurso alternativo, esquecer da família imposta e viver na família escolhida, era sugestivamente tentador visto o background das jovens que não tinham onde morar, contextualizadas pelo movimento hippie de uma vontade de maior liberdade feminina em um lugar próprio. 

Charlie, portanto, usava o pano de fundo de um “homem desconstruído” para usurpar das mulheres que chamava para seu culto. Em devidas proporções, essa crítica equivale à atualidade, em que pautas sociais benéficas se tornam um meio de atingir determinados interesses. No caso do líder, era satisfazer o próprio ego, o que contradizia com suas falas, mas ele sempre sabia desviar bem dessas incongruências com o carisma e a oratória chantagista, enquanto imprimia a hierarquização do seu grupo. Matt Smith incorpora essas nuances do psicopata com louvor, sem cair em territórios perigosos, diferente da referente abordagem. É onde a roteirista se foca, expondo lentamente a persuasão através do convívio diário, para ser possível perceber mais ou menos quando a situação perde o controle. 

O teor provocativo do longa se esconde nessa linearidade, basicamente fazendo do público uma das jovens arrependidas e questionando quando aqueles planos deveriam ter sido largados? Isso é fundamental para o exercício de empatia futura. Claro, nenhuma ali era santa, e a visão feminina não se limita ao parâmetro de vitimização, ela está mais interessada em forjar teses de contextos que especificam as motivações momentâneas. Para então, o terço final adentrar numa linguagem de tributo, uma melancolia inesperada toma conta, e percebe-se que no fundo aqueles crimes, como tantos outros, são o resultado de um meio, e nesse caso em especial, também da ingenuidade vigente da cultura de apego a símbolos. Não é a abordagem mais profunda do planeta, mas é sensível o suficiente para ser inteligível e pouco perecível de uma romantização. 

Em uma derradeira cena de assassinato, fica clara a abordagem de estudo, e só com a mão da diretora, e óbvio, um belo empenho do elenco, o conflito interno dá lugar ao ódio reativo, pouco depois o desprendimento acontece no futuro. Não é a redenção o que importa, e sim o arrependimento ser sentido, e mais do que nas celas, aquelas mulheres pagaram o preço de viver presas àquele homem por toda a eternidade.

As Discípulas de Charles Manson (Charlie Says, EUA – 2018)
Direção: Mary Harron
Roteiro: Guinevere Turner, Ed Sanders e Karlene Faith (baseado no livro The Family de Ed Sanders)
Elenco: Hannah Murray, Matt Smith , Sosie Bacon, Marianne Rendón, Merritt Wever, Suki Waterhouse, Chace Crawford, Annabeth Gish, Kayli Carter, Grace Van Dien.
Duração: 104min.

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