Crítica | As Discípulas de Charles Manson

Então está tudo acontecendo como Charlie disse?

Antes de Era uma Vez em Hollywood tocar na ferida do legado Manson, ou melhor, livrar-se dela, a cineasta canadense Mary Harron, relegada a um lapso momentâneo de sucesso com Psicopata Americano, explora a psique do serial killer através do ponto de vista de suas “cúmplices” em uma produção infelizmente televisiva demais. 

A premissa é uma espécie de terapia, começando na cadeia onde três das mulheres de seu culto cumprem prisão perpétua e continuam a discutir a iminência da guerra social prometida por Manson. Aos poucos o filme irá retomar em flashbacks todo o processo que as fez chegar até ali, tanto no lugar físico como no pensamento ideológico deturpado. Falando inicialmente dos problemas, a grande limitação do longa está nos recursos escolhidos para essa troca de tempo, visualmente. Tudo bem que (apesar de não lembrar tanto do seu filme mais conhecido) a vertente em linguagem da cineasta nunca foi tão robusta quanto a temática, mas se tratando de uma espécie biográfica, a encenação dos acontecimentos primordiais carece de uma execução mais ardente. 

Lógico, não é o foco do filme como desenhado, mas é importante para a compreensão de seu objetivo final, além de vender mal o projeto, remetendo a uma estilização um pouco datada de enquadramentos fechados e cinematografia sombria e misantrópica remetente à revitalização dos slashers no início dos anos 2000, sendo que a estrutura do filme nem se encaixa nesse estilo. Então, é devidamente incômodo, no mau sentido, quando o filme tenta construir uma atmosfera mais explícita, falta sutileza na forma de abordar o culto específico sem parecer um fundo de esquina gore qualquer.

Entretanto, no aspecto semiótico, a abordagem adotada é passível de diversas ideias interessantes. Acompanhar o processo de influência do psicopata é deveras perturbador, é desse modo que o filme atinge o terror, porque sabemos o desconhecido em que aquelas mulheres estão se metendo, e justamente com isso vem o incômodo de perceber como a persuasão do discurso de Manson manipulou a fragilidade emocional de cada uma a ponto de transformá-lo numa figura messiânica. O didatismo do discurso alternativo, esquecer da família imposta e viver na família escolhida, era sugestivamente tentador visto o background das jovens que não tinham onde morar, contextualizadas pelo movimento hippie de uma vontade de maior liberdade feminina em um lugar próprio. 

Charlie, portanto, usava o pano de fundo de um “homem desconstruído” para usurpar das mulheres que chamava para seu culto. Em devidas proporções, essa crítica equivale à atualidade, em que pautas sociais benéficas se tornam um meio de atingir determinados interesses. No caso do líder, era satisfazer o próprio ego, o que contradizia com suas falas, mas ele sempre sabia desviar bem dessas incongruências com o carisma e a oratória chantagista, enquanto imprimia a hierarquização do seu grupo. Matt Smith incorpora essas nuances do psicopata com louvor, sem cair em territórios perigosos, diferente da referente abordagem. É onde a roteirista se foca, expondo lentamente a persuasão através do convívio diário, para ser possível perceber mais ou menos quando a situação perde o controle. 

O teor provocativo do longa se esconde nessa linearidade, basicamente fazendo do público uma das jovens arrependidas e questionando quando aqueles planos deveriam ter sido largados? Isso é fundamental para o exercício de empatia futura. Claro, nenhuma ali era santa, e a visão feminina não se limita ao parâmetro de vitimização, ela está mais interessada em forjar teses de contextos que especificam as motivações momentâneas. Para então, o terço final adentrar numa linguagem de tributo, uma melancolia inesperada toma conta, e percebe-se que no fundo aqueles crimes, como tantos outros, são o resultado de um meio, e nesse caso em especial, também da ingenuidade vigente da cultura de apego a símbolos. Não é a abordagem mais profunda do planeta, mas é sensível o suficiente para ser inteligível e pouco perecível de uma romantização. 

Em uma derradeira cena de assassinato, fica clara a abordagem de estudo, e só com a mão da diretora, e óbvio, um belo empenho do elenco, o conflito interno dá lugar ao ódio reativo, pouco depois o desprendimento acontece no futuro. Não é a redenção o que importa, e sim o arrependimento ser sentido, e mais do que nas celas, aquelas mulheres pagaram o preço de viver presas àquele homem por toda a eternidade.

As Discípulas de Charles Manson (Charlie Says, EUA – 2018)
Direção: Mary Harron
Roteiro: Guinevere Turner, Ed Sanders e Karlene Faith (baseado no livro The Family de Ed Sanders)
Elenco: Hannah Murray, Matt Smith , Sosie Bacon, Marianne Rendón, Merritt Wever, Suki Waterhouse, Chace Crawford, Annabeth Gish, Kayli Carter, Grace Van Dien.
Duração: 104min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.