Crítica | As Duas Faces da Felicidade

estrelas 4,5

Agnès Varda é responsável por uma filmografia extremamente delicada, mesmo quando filma os temas mais difíceis em termos emocionais, sociais ou políticos. Feminista, militante política por um certo período de sua vida, fotógrafa, cineasta, ela tem fascínio pelo corpo nu, pela delicadeza do olhar apaixonado, pela aparência dos lábios em monólogo, por detalhes de um cenário minimamente pensado para servir à atmosfera emocional da história que está sendo contada.

Em As Duas Faces da Felicidade (1965), embora deixe a história um tantinho reticente em seu desenvolvimento, a diretora consegue entregar uma obra sólida que discute a felicidade a partir de um ponto de vista tabu para a sociedade Ocidental, especialmente para os que enxergam a vida através do prisma religioso monoteísta. A família nuclear, a polêmica da traição, a existência ou não da felicidade plena, a tristeza como a “outra face da outra face da felicidade”, o amor. Todas essas coisas são trazidas aqui pela diretora e narradas para o público ao som da música de Mozart.

A abordagem humanista e pessoal de Varda começa quando atentamos para o elenco. O esposo François (Jean-Claude Drouot) e a esposa Thérèse (Claire Drouot) eram marido e mulher na vida real, e os filhos Pierrot (Olivier Drouot) e Gisou (Sandrine Drouot) eram, de fato, os rebentos do casal na vida real. Já aí temos uma naturalidade e realidade que adiciona, mesmo sem querer, doses de documentário (ou docudrama?) à história, um tratamento bastante comum nas ficções da cineasta. A partir dessas relações pessoais do elenco a convivência feliz de um casal comum nos é mostrada. Uma convivência feliz que ganhará um adendo a partir de determinado ponto, um momento que incomoda grande parte dos espectadores.

Todavia, o roteiro de Varda não condena e nem defende nada. A diretora expõe de forma poética e com inesperada dose de realismo o cotidiano do casal, utilizando de elementos estéticos bastante simbólicos para enriquecer a experiência do espectador. Assim, não acompanhamos apenas os atos de cada um mas também ouvimos o ambiente, vemos as cores das portas e cafés da cidade, os planos fechados em objetos que simbolizam um personagem específico em dado momento, os figurinos que tornam os atores parte indissociável do ambiente, como constatamos, por exemplo, na belíssima cena final, com o novo casal e as crianças vestidos com roupas de cores outonais e mesclando-se aos tons das folhas das árvores e do chão do bosque.

Varda ainda tem tempo para demonstrar o seu amor pelo cinema, exibindo uma cena de Le Déjeuner Sur L’Herbe (Jean Renoir, 1959) e citando as protagonistas de Viva Maria! (Louis Malle, 1965), um filme que o casal François e Thérèse combinam de ir ver no cinema. Há também referências em cartazes a Chaga de Fogo (William Wyler, 1951) e Irma, La Douce (Billy Wilder, 1963), bem como citações a cantores, atores, diretores e atrizes através de fotos ou páginas de revistas coladas em pareces ou móveis.

Belissimamente fotografado com cores vivas e com uma abordagem que tira do tema principal as suas nuances mais ocultas, As Duas Faces da Felicidade é, sem exagero, um dos mais tocantes, simples e interessantes filmes já feitos a respeito do casamento e da felicidade. Casais, cinéfilos desavisados e apaixonados pelo ideal de “amor Disney” deveriam vê-lo e revê-lo, talvez como uma forma de curar, prevenir ou apaziguar feridas e discussões que só existem porque as partes que amam se esquecem que a liberdade e a felicidade podem alcançadas, nem que seja por um tempo, desde que não se faça a elas uma caçada neurótica, forçada e obrigatória, numa realidade insana onde é bonito ser obrigado a ser feliz de um jeito x ou y.

As Duas Faces da Felicidade é sobre existências simples de pessoas que não perseguem mas conseguem alcançar a felicidade. Um ideal cujo processo e resultado finais nos intriga pela maior parte da vida.

As Duas Faces da Felicidade (Le bonheur) – França, 1965
Direção:
Agnès Varda
Roteiro: Agnès Varda
Elenco: Jean-Claude Drouot, Claire Drouot, Olivier Drouot, Sandrine Drouot, Marie-France Boyer, Marcelle Faure-Bertin, Manon Lanclos, Sylvia Saurel, Marc Eyraud, Christian Riehl, Paul Vecchiali
Duração: 79 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.