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Crítica | As Duas Faces de um Crime

por Iann Jeliel
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As Duas Faces de um Crime

  • Contém SPOILERS. Mas caso não tenha visto o filme, não recomendo a leitura. Há surpresas que precisam ser guardadas.

Diferente de outros dramas de tribunal, As Duas Faces de um Crime se interessa muito mais pelo suspense dos desdobramentos da resolução do caso, em vez dos pormenores morais que o envolvem. Essa escolha não é arbitrária; enquanto estamos envoltos na tensão e ambiguidade deixadas após o filme gradualmente reservar um longo tempo para desenvolver os personagens, fazer com que nos importemos com eles e torçamos por um lado da moeda (culpado ou inocente), no fundo o longa vai evidenciando a logística quebrada do sistema e agentes responsáveis pela justiça. Em outras palavras, a base que o filme utiliza para promover entretenimento é a mesma que mais tarde ele converterá para o seu aspecto crítico. Um típico caso em que a forma se adequa ao conteúdo e a construção nesse parâmetro é tão sacana quanto qualquer argumento de um advogado “duas caras” feito somente para ganhar tribunais, independentemente de estar ou não fazendo a justiça.

O protagonista, Martin Vail (Richard Gere), é exatamente esse tipo de advogado, mais interessado nos holofotes da carreira, no dinheiro, na popularidade, no bom currículo (ele não gosta de perder), do que de fato na verdade. Essa é sua última prioridade, tanto que ele nem se interessa em exercitar na mente uma opinião sobre os supostos criminosos que defende, se são culpados ou não. Seu maior interesse é dar show no tribunal, mostrar seu poder de persuasão e manipulação de conhecimento da lei para se sobressair na profissão. No entanto, como previsto numa construção básica desse tipo de dramaturgia, seu aspecto narcisista será desconstruído pelo caso em específico narrado, no qual ele passa realmente a acreditar na palavra do jovem Aaron Stampler (Edward Norton, simplesmente fantástico no seu primeiro papel), mesmo que tudo indique que ele cometera o crime de assassinato do arcebispo da igreja que frequentava.

O thriller então desenha um progressivo estudo de Martin sobre o personagem de Aaron e busca por pistas que realmente o descriminem, porque ele não merece. A partir daí, aspectos morais vão sendo inseridos lentamente numa progressão cada vez mais próxima dos personagens e correspondidas pelos seus atores. A escolha de casting de Richard Gere e Edward Norton não poderia ser mais acertada. Enquanto o primeiro vincula seu charme garanhão de modo a disfarçar seu caráter egoísta a um anti-heroísmo carismático e cada vez mais carismático à medida que empatiza junto ao público com a situação do personagem de Norton, esse vende perfeitamente a vulnerabilidade do cliente, a ponto de colocarmos nossa mão no fogo por ele, mas nunca totalmente desvinculando de uma ambiguidade de fundo para manter o benefício da dúvida, da tensão sobre a verdade.

Tensão essa que se direciona obviamente à disputa no tribunal, também muito aproximada, a nível praticamente pessoal. Não é qualquer promotora que Martin encontra, mas sim sua aprendiz/amante, Janet Venable (Laura Linney). Uma relação prévia não exatamente desenvolvida, até para não tomar um tempo do filme que não importa, mas perfeitamente contextualizada e motivada para criar uma rivalidade crível entre os lados para apimentar o confronto no tribunal. Vendida perfeitamente bem pelas performances e pelas provocações pontuais do roteiro a um maniqueísmo de sexos baseado no orgulho da profissão. Tal orgulho que cria as facetas desse papel do advogado em defesa da própria verdade. É através disso, inclusive, que surge a brecha para a vitória de um deles.

Como dito, se discussões sobre a moralidade envolta no crime pareciam terciárias, ele propositalmente, à medida que chega no clímax, vai ganhando destaque, aparentemente como uma transformação discursiva do longa para um status de relevância social. É revelado que Aaron tem dupla personalidade, além de ter “sofrido” abusos de seu arcebispo, que o forçou a gravar um vídeo pornográfico com sua namorada em um ménage com outro amigo. Ora, parece que a partir daí o filme entrará no território de denúncia dos abusos sexuais “em nome de deus”, ou na importância de se debater condições clínicas de criminosos. Nada disso, tal como Hitchcock usou em Psicose, As Duas Faces de um Crime utilizará essas aberturas do conceito de dupla personalidade como uma mera arma de potencialização do suspense, ou melhor, como prova ao final do tribunal que está propondo.

Assim, numa fantástica cena, Martin induz sua concorrente a provocar a libertação da outra personalidade de Aaron, provando que seu alter-ego, Roy, existe perante os jurados e que foi ele quem “realmente” cometeu o crime, até porque ele quase comete outro, enforcando-a na frente de todos. Um movimento radical de Martin, mas ele está perdoado por estar fazendo por uma boa causa, certo? Pode ser, mas é aí que entra a grande surpresa, aquela reviravolta de pegar qualquer um desprevenido e a tal sacanagem que liga o conteúdo à forma definitivamente. Roy/Aaron não possui dupla personalidade, era tudo um teatro para conseguir escapar de uma sentença de morte. Basicamente, Martin foi enganado pelo próprio teatro que pregava, e nós como público somos tapeados pela crença da reflexão moral pertinente, que não deixa de ser a confiança na nossa própria verdade, a qual o filme induziu como se fosse um advogado sacana.

E como bônus, traz um final icônico enquanto suspense cru, mas também o eleva a um patamar muito maior do que somente um grande thriller ou um grande filme de tribunal. Lógico, também não é um filme extraordinário somente por conta das últimas reviravoltas. É uma harmonia total; começa no viés de entretenimento para te enganar completamente no caminho que o levaria à densidade moral, atingindo assim a máxima dos dois polos. Todo mundo é inocente até que se prove o contrário”. Será? E se sempre provarem o errado como certo? Como garantir que o certo também não possa ser o errado? As Duas Faces de um Crime soube brilhantemente usar esses conceitos distorcidos pelas brechas do sistema jurídico como poucos filmes na história, denunciando o que ele mesmo reproduz para ser um filmaço de suspense.

As Duas Faces de um Crime (Primal Fear | EUA, 1996)
Direção: Gregory Hoblit
Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman (Baseado em livro homônimo de William Diehl)
Elenco: Richard Gere, Laura Linney, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Edward Norton, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Stanley Anderson, Maura Tierney, Jon Seda, Reg Rogers
Duração: 129 minutos

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