Crítica | As Idades do Amor

Existe prazo de validade para o amor? Somos seres humanos capazes de amar a vida inteira uma só pessoa? O que é o amor? Perguntas pululam mais que respostas definitivas em As Idades do Amor, comédia dramática romântica italiana bem conectada ao estereótipo comportamental da sua população, isto é, um grupo de pessoas de sangue e temperamento quente e explosivo, tal como o amor. Ao longo de seus 125 minutos, o cupido interpretado por Vittorio Propizio declama frases de amor cafonas, mas que não são ofensivas ou ruídos que atrapalham o andamento da narrativa.

Dirigido por Giovanni Veronesi, cineasta que teve como direcionamento o próprio roteiro, escrito em parceria com Ugo Chiti, a produção é o terceiro filme de uma série chamada Manual do Amor, lançada aqui no Brasil por conta da presença de Robert De Niro, ator de extenso currículo cinematográfico respeitado e provável atrativo para as questões comerciais que envolveram a exibição do filme por aqui. Dividido em três histórias, As Idades do Amor nos faz refletir sobre a teoria e o conceito deste sentimento tão peculiar e esférico, interpretado por diversas áreas do saber humano.

A primeira história traz Roberto (Riccardo Scamarcio) como um jovem que precisa viajar para Toscana, tendo em vista resolver questões profissionais, mas no local, parece embebido pelo sentimento do arcadismo e do romantismo literário em forte comunhão, o que lhe faz pensar em abandonar a namorada que antes parecia insegura, mas agora está cada vez mais apaixonada e próxima dele, que decide o afastamento. Como lidar com tal situação? Coragem para assumir os novos interesses ou se manter na linha? Manter-se na vila que fez novos amigos e viveu um veloz romance tórrido com uma bela mulher ou casar se seguir a sua vida sem arrependimentos, ao menor por ora?

A segunda história deixa o clima romântico de lado e investe pesado na comicidade da trajetória de Fabio (Carlo Verdone), um respeitado âncora de telejornal que se envolve com uma mulher sedutora. Inseguro diante da sua idade e aparência nada conectada aos padrões sociais contemporâneos, ele encontra na moça o furor do sexo desmedido e em situações fora do comum. O que ele não esperava era que tal jovem senhora não é quem diz ser e o colocará em situações vexatórias, prováveis de vazar pela internet e que podem enterrar a sua carreira midiática. O que fazer para lidar com tal situação?

A terceira história, mais leve, mescla aspectos cômicos, dramáticos e românticos para falar sobre um homem com idade avançada, apaixonado pela jovem filha de um dos seus melhores amigos. Arqueólogo que passa pela viuvez solitária, Adrian (Robert De Niro), enxerga em Viola (Monica Bellucci) uma jovem doce e delicada, mas também um furor de sensualidade que o faz repensar a possibilidade de uma vida sexual ativa, repleta de amor. Como lidar com o preconceito social e com a ira ciumenta de seu melhor amigo? Além do amor romântico, ele também se encontra prestes a viver o amor paternal, algo que preencherá seus dias com mais cores vivas.

Para nos contar a sua dramática narrativa, o cineasta teve o apoio da direção de fotografia de Giovanni Canevari, competente em suas captações de imagens, principalmente nas externas. A concepção visual ficou por conta de Laura Casalini, design de produção que soube aproveitar as belezas de um lugar que por si só já um dos espaços geográficos mais lindos do planeta, a Itália.

No desfecho, as flechadas do cupido Vittorio Propizio nos permitem refletir sobre as nossas escolhas e as suas consequências. Não chegam a ser dolorosas e repleta de consequências mais trágicas, tal como a trajetória da “mãe” em Recomeçar, mas ainda assim não é uma trama vazia. Lançado em 2011, o filme mescla entretenimento e reflexão em medidas acima da média. Não chega a ser uma terapia sobre a nossa relação pessoal com o amor, mas funciona como um divertido bate papo com “aquele” nosso melhor amigo, sabe?

As Idades do Amor — (Manuale D’Am3e) Itália, 2011.
Direção: Giovanni Veronesi
Roteiro: Giovanni Veronesi, Ugo Chiti
Elenco: Carlo Verdone, Daniele Pecci, Donatella Finocchiaro, Guido Genoveni, Laura Chiatti, Marina Rocco, Michele Placido, Monica Bellucci, Riccardo Scamarcio, Robert De Niro, Valeria Solarino, Vincenzo Alfieti, Vittorio Emanuele Propizio
Duração: 125 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.