Crítica | As Irmãs Munekata

Munekata kyôdai plano critico as irmãs munekata plano critico

Estrando a década de 1950 na filmografia de Yosujiro OzuAs Irmãs Munekata explora mais uma vez os conceitos ligados às diferenças culturais entre o Oriente e o Ocidente, e mais uma vez o diretor — que escreveu o roteiro ao lado de Kôgo Noda — personificou esse conflito entre duas irmãs de personalidades muitíssimo diferentes: Mariko (Hideko Takamine) e Setsuko Munekata (Kinuyo Tanaka).

Como de praxe em sua filmografia, todos os conflitos familiares são exibidos, desenvolvidos e concluídos como um elegante pêndulo, cercado por diálogos poderosos, por uma cena de agressão de algum tipo e por momentos em que os personagens procuram, cada um a seu modo, colocar para fora aquilo que os incomoda. Aqui, uma série de condições próprias da família Munekata se unem ao já citado conflito cultural que marca o texto e fala bastante sobre o pensamento das duas irmãs. A possibilidade do casamento para uma e a perspectiva na mudança no casamento de outra são duas das linhas narrativas que nos seguem até o fina. Mas ainda temos outras situações, como alguma dificuldade financeira (tema também recorrente para o diretor), a doença e perspectiva de morte do pai e a própria relação entre as irmãs, que aqui passa por uma grande mudança.

Quando Ozu retrata o amadurecimento de personagens, ele não só faz isso marcando esses indivíduos em muitas cenas de comportamento elogiável, mas faz questão de mostrar que maduros ou não, evoluídos ao longo da trama ou não, esses personagens são seres humanos e não estão livres de falhas. O interessante nesse tipo de abordagem é que a gente vê todas essas diferenças de comportamento ou exposição de sentimentos entre o início e o final do filme, mas a conexão simples e empática que temos para com as irmãs, jamais desaparece. Aos poucos, tomamos partido de uma ou de outra, seja pelas ideias que defendem ou pela maneira como se comportam, sempre tendo em vista as relações fraternas, as dificuldades de falar a verdade para si mesma e, principalmente, de tomar uma atitude diferente daquela que os outros esperam que a gente tome.

A fluidez impressionante e o rigor na planificação do diretor nos prende o tempo inteiro à tela. A ligação entre os espaços internos (as casas, a loja e o bar) e as ruas e templos que os personagens visitam são mostrados como promessa de algo maior, sugerindo que há muito mais para eles “lá fora” e que o mundo em volta é bem maior, bem mais complexo e até mais cruel que certas birras e pequenezas do dia a dia. Essa perspectiva para o sofrimento pessoal vai se solidificando no filme ao passo que as irmãs tomam atitudes diante do amor e de seus caminhos para o futuro. O único problema que eu vi ao longo de todo esse trajeto foi o tratamento vago em relação ao pai, que recebe uma importância (e uma promessa) bem grande no início do filme, mas é abandonado pelo texto, voltando apenas na reta final da película com um aceno para as surpresas da vida, até mesmo nas questões de longevidade.

As ideias de que a dor não é para sempre e de que é preciso ter coragem para buscar algo que realmente nos faça feliz estão hasteadas no final de As Irmãs Munekata, encerrando as idas e vindas do pêndulo da vida com um novo olhar para fora, para as montanhas que mostram uma cor diferente, que parecem estar diferentes. Uma promessa de nova vida atravessada por uma bela trilha sonora e pelo marcante toque de deliciosa melancolia, ingrediente que sempre encontramos nos filmes do diretor, expondo a vida como ela é.

As Irmãs Munekata (Munekata kyôdai) — Japão, 1950
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Kinuyo Tanaka, Hideko Takamine, Ken Uehara, Sanae Takasugi, Chishû Ryû, Sô Yamamura, Yûji Hori, Tatsuo Saitô, Kamatari Fujiwara, Setsuko Horikoshi, Reikichi Kawamura, Yoshiko Tsubouchi
Duração: 112 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.