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Crítica | As Loucas Aventuras de James West

O filme que Will Smith escolheu no lugar de Matrix.

por Kevin Rick
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As Loucas Aventuras de James West é normalmente lembrada como a bomba que o Will Smith resolveu fazer no lugar de Matrix, fato que por si só torna esse filme hilário e estranhamente heroico, pois eu não consigo imaginar ninguém interpretando o Neo além do nosso querido Keanu Reeves. Mas assistindo o longa pela primeira vez, eu me dei conta que o legado dessa obra vai muito além dessa curiosidade, já que a experiência torturante de assistir essa boçalidade artística coloca o espectador diante do que é possivelmente o pior blockbuster da história do Cinema.

E eu sei que nós temos A Reconquista e mais uma dezena de blockbusters horrorosos, mas As Loucas Aventuras de James West alça uma nova categoria de ruindade, pois o filme conta com uma equipe criativa razoavelmente boa que parece ter sofrido um dano cerebral coletivo enquanto faziam isso aqui. Temos o diretor Barry Sonnenfeld (trilogia original da franquia MIB, O Nome do Jogo Família Addams) e roteiristas que tiveram participação em O Ataque dos VermesUma Cilada para Roger Rabbit O Predador, além de partir de uma premissa intrigante de steampunk baseada em um show dos anos 60 que era considerado bom. E para todos os efeitos, As Loucas Aventuras de James West se acha um bom filme, usando e esbanjando de efeitos especiais do seu absurdo orçamento de mais de 200 milhões de dólares, misturando gêneros em um western/sci-fi de aventura buddy comedy, um texto que claramente que ser espertinho com as várias referências e piadas de contexto histórico e, claro, contando com um elenco de peso na época com a estrela em ascensão de Will Smith, o vencedor do Oscar Kevin Kline e o diretor/ator Kenneth Brannagh.

E com todo esse poder artístico, o filme não poderia falhar mais miseravelmente no que ele cria. Eu até consigo imaginar o motivo do estúdio bancando essa bomba, com o seguinte pitch: “É MIB só que com western, dirigido pelo mesmo cineasta e protagonizado pelo rentável Will Smith e um parceiro branco com prestígio”. Eles só esqueceram de ler o roteiro, porque não é possível que esse texto escrito por mentes adultas em desintegração criativa passou por algum teste de qualidade. Eu também aposto que esse roteiro foi redigido no mesmo tempo da prova de redação do ENEM, porque eu simplesmente me recuso a acreditar que seis mãos diferentes (e todos veteranos da indústria) dedicaram mais do que uma hora nessa imbecilidade.

Notaram como eu sequer falei do filme em si? É porque não tem o que falar dessa porcaria. O filme acabou e eu nem lembro a premissa. Eu sei que tinha um presidente que contrata dois agentes (eles são agentes, certo?) para caçar um general que tem uma espécie de corneta no lugar do ouvido – aliás, a caracterização dos personagens nesse filme é de causar gargalhadas tamanha a asneira visual em tela – e no final eles acabam enfrentando um sulista racista com um design de barba que faz o Wolverine parecer fashion. Durante essa estupidez narrativa, nós vemos os personagens opostos de Smith (um pistoleiro imbecil que se acha fodão) e Kline (um gênio da tecnologia que usa toda a sua inteligência para criar disfarces) criarem laços em torno de piadas preconceituosas e as aventuras mais medíocres que você possa imaginar.

O intuito da direção de Sonnenfeld parece ser mimetizar o que ele fez no sci-fi de MIB: criar uma experiência cômica com os absurdos do steampunk, basicamente focando na interação entre Smith e Kline para carregar o longa. Mas o cineasta não encontra um dedo do sucesso que teve na sua outra franquia. Primeiro que o filme é uma sucessão de gadgets sendo jogados na cara do espectador sem qualquer intuito narrativo ou uso de toda essa parafernália na aventura ou ação. O diretor não consegue criar uma sequência sequer interessante visualmente, e muito menos imprimir um tom aventureiro. Além disso, mesmo com toda essa grana, a obra tem vários momentos pífios de CGI, mesmo para a época em que foi lançada.

Mesmo gastando a boa premissa em um experiência de aventura totalmente esquecível e sem criatividade visual, As Loucas Aventuras de James West consegue piorar ainda mais com a comédia. Novamente, eu não sei se esses roteiristas tiveram um colapso nervoso ou algum dano cerebral enquanto escreviam esse roteiro, porque é completamente injustificável o que eles fazem em termos de diálogos e piadas. E notem que não estou nem criticando a trama, que é inexistente por si só, mas apenas as conversações. O filme emprega um caráter sexista no humor, fazendo piadas de peitos, bundas e sexo, tratando mulheres como pedaços de carnes descerebrados, inclusive escalando Salma Hayek para apenas desfilar com seu corpo. E Sonnenfeld passa pano para isso tudo, inclusive filmando e mostrando os corpos das mulheres com um mal gosto inacreditável.

Se isso não fosse o bastante, o longa fica a todo tempo fazendo piadinha com a escravidão e o racismo do período – me pergunto como e por que Will Smith aceitou esse papel. Até mesmo há chacota com deficientes, já que o vilão fascista é toda hora humilhado por não ter suas pernas. É quase como se o longa quisesse insultar o maior número possível de minorias, também tendo espaço para piadas homofóbicas e xenofóbicas. Aliás, a obsessão que o longa tem com o humor bobo de objetos fálicos e masculinidade frágil é o ponto final da infantilidade ridícula desse filme.

As Loucas Aventuras de James West poderia ser um estúpido divertido. Mas ele é só estúpido mesmo. Aliás, estúpido preconceituoso, enfadonho e imbecil de todas as maneiras possíveis. Um crime artístico em cada elemento cinematográfico, indo do roteiro misógino, as performances caricatas e exageradas, os personagens desinteressantes, a inexistente aventura do enredo insignificante, o humor fútil, etc, etc, etc. A única parte que se salva é a boa trilha sonora de Elmer Bernstein. Tem um momento do filme que resume a experiência do espectador: os protagonistas caem numa espécie de lamaçal que parece um rio de esterco. É exatamente assim que eu me senti vendo essa miséria de filme. Se existe algum valor aqui, é sentar com uma roda de amigos e rir da ruindade desse filme em grupo.

As Loucas Aventuras de James West (Wild Wild West – EUA, 1999)
Direção: Barry Sonnenfeld
Roteiro: S.S. Wilson, Brent Maddock, Jeffrey Price, Peter S. Seaman, Jim Thomas, John Thomas
Elenco: Will Smith, Kevin Kline, Kenneth Branagh, Salma Hayek, Ted Levine, M. Emmet Walsh
Duração: 98 min.

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