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Crítica | As Mil e Uma Noites: As Três Maçãs, Traduzido Por Diniz e Jarouche

por Luiz Santiago
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Parte da épica e muito popular narrativa árabe das Mil e Uma Noites, o conto As Três Maçãs é considerado, em algumas análises, como um dos primeiros “quem matou?” (whodunit?) da história da literatura, sendo precedido unicamente pela tragédia Édipo Rei, peça datada de 429 ou 427 a.C.. No caso da obra de Sófocles, argumenta-se que a investigação que Édipo conduz para descobrir quem foi o assassino de Laio e a reviravolta no final da narrativa posicionam essa trama como uma espécie de inauguração (não intencional, claro) daquilo que hoje conhecemos história policial ou de mistério. Na arqueologia do gênero há ainda quem queira considerar como ponto de partida a tragédia bíblica de Caim e Abel, mas particularmente rejeito com fervor essa visão. Não existe ali uma verdadeira investigação, apenas a pergunta de Deus sobre onde estava Abel e, logo depois, sobre o que Caim havia feito, já que “a voz do sangue [de Abel] clamava desde a terra“.

Na tradução nacional de Alberto Diniz, que vem da problemática mas colossalmente popular tradução francesa de Antoine Galland, publicada no início do século XVIII, a trama de As Três Maçãs se passa entre a 90ª e a 93ª noite, sendo entrecortada por uma narrativa em flashback intitulada A História da Jovem Trucidada e do Seu Jovem Marido e imediatamente costurada a outra trama, que não faz parte de As Três Maçãs, de fato, mas está acoplada ao julgamento do escravo que encerra a primeira narrativa: A História de Nuredin Ali e de Bedredin Hassan. Já na tradução de Mamede Mustafa Jarouche, a trama se passa entre a 69ª e a 72ª noite, não tendo a divisão interna para o flashback — ela ocorre em continuidade orgânica — mas igualmente terminando com a ligação para Os Vizires Nuruddin Ali do Cairo e Seu Filho Badruddin Hasan de Basra, como se vê, um título que muda bastante se comparado à tradução de Galland-Diniz.

Um outro elemento que também se destaca na tradução de Jarouche é que a transição de uma noite para outra está melhor delineada, marcada por perfeitos cliffhangers, deixando o leitor tal qual Xariar, o rei da Pérsia para quem Sherazade narra essas sagas com o propósito de interromper a matança de mulheres e, com isso, também salvar a sua própria vida. O caráter estrutural do conto, como conhecemos de muitos outros das Mil e uma Noites, é o melhor estilo “matrioshka“, com uma grande ação dentro de outra. À medida que a trama maior vai chegando ao fim, as janelas vão se fechando de dentro para fora, ou seja, das menores histórias interiores para a grande história que permitiu a abertura de todas aquelas outras linhas de enredo.

Em As Três Maçãs temos dois dos três elementos básicos que se convencionou pensar para a literatura policial: um crime, uma investigação (aqui entra a figura do detetive) e um final onde o caso é resolvido de forma realista, normalmente de maneira surpreendente. Somando essas pequenas regras à tipologia tríplice da literatura policial (tramas que podem ser de enigma, noir ou de ação), encontramos nessa narrativa árabe uma interessante marca precursora do gênero. O que “falta” ao argumento é a investigação e seu detetive, já que o vizir encarregado de investigar a morte da mulher encontrada picotada dentro de um baú se sente tão impotente que fica em casa esperando o tempo passar e o dia de seu sacrifício raiar.

Esse processo investigativo, contudo, não faz falta aqui. O leitor entende o caráter de “grandes coincidências” que marcam esse Universo e compra facilmente o fato de a providência divina trazer, da primeira vez, uma dupla confissão; e da segunda, uma revelação inesperada e de última hora.

O leitor se choca com o requinte de crueldade do crime (bem mais intenso na tradução de Jarouche) e as revelações chocantes que vão aparecendo no meio do caminho. As Três Maçãs é um conto lúgubre, com ações exageradamente cruéis do próprio “Comendador dos Crentes”, o califa local (na oralidade e registro cronista do mundo árabe, essas representações eram normalmente irônicas, exageradas, mirando ordens absurdas de governantes locais), um crime hediondo e um desfecho que nos traz um certo dilema moral na definição da culpa: se ela é única ou compartilhada, e pior, se os culpados realmente vão sair impunes. Como se vê, até na ficção do século IX e na realidade do século XXI, muita coisa absurda parece assustadoramente igual.

As Mil e Uma Noites (ʾAlf Laylah wa-Laylah / أَلْفُ لَيْلَةٍ وَلَيْلَةٌ) — Oriente Médio, c. 800 a c. 1300
Conto:
As Três Maçãs (التفاحات الثلاثة)
Autores: Contadores de histórias, cronistas e compiladores do mundo árabe
Edições lidas para esta crítica: As Mil e Uma Noites – Volume 1 (Nova Fronteira, 2015) / Livro das Mil e Uma Noites – Volume 1: Ramo Sírio (Biblioteca Azul – Edição revista e atualizada direto do árabe, 2017)
Versão francesa: Antoine Galland (1704 a 1717)
Tradução: Alberto Diniz / Mamede Mustafa Jarouche
13 páginas

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