Crítica | As Panteras (2000)

Originalmente, As Panteras era uma série de TV dos anos 70 que durou 5 temporadas, e, na época, fez um relativo sucesso pelo seu forte apelo sexual com três protagonistas femininas que virariam referência do padrão de beleza setentista. Em 2000, num cenário em que os filmes de ação vinham sofrendo uma síndrome de Velozes e Furiosos, a série viraria um longa-metragem para o cinema que, como toda obra de McG, seria massacrado pela crítica numa primeira recepção, alegando basicamente os mesmos motivos que fizeram da série um sucesso, ou seja, a forte conotação sexual que buscava um apreço masculino fácil, além das demais características do tipo de ação em que ela se encaixava, que hoje soam como totalmente galhofa. Acontece que revisitando sob uma outra perspectiva, o primeiro filme, nas entrelinhas, comporta-se como uma antítese irônica dos comentários que aqueles próprios filmes pregavam no fundo para buscar a glorificação do seu tipo de entretenimento.

E como era esse processo? Simples, uma figura masculina central que conseguia feitos impossíveis com extrema facilidade, contando com o auxílio de armas, carros, dentre outros equipamentos luxuosos que o permitia realizar essas missões, e no meio do caminho, conquistava e salvava mulheres lindas, buscando a redenção de seus atos ilícitos num discurso em defesa da família. Essa identidade já tinha várias características impregnadas desde os filmes de espionagem antigos como os trocentos filmes de James Bond, com a diferença de que a era tecnológica pós e pré-Matrix permitia um grau ainda maior de absurdo nas situações criadas para os “machões” resolverem. É uma típica fórmula batida pois o mundo junto ao cinema passou por bastante transformações e se tornou cada vez mais realista e inclusivo, onde as mulheres passariam dessa fase de mero objeto para ser salvo e ganhariam em sua própria forma o destaque de heroínas, num longo processo transicional que hoje vive seu momento mais forte.

Contudo, bem antes de se pensar em discutir com fervor esse empoderamento feminino em filmes de ação, McG colocou três dessas mulheres “objetificadas” como protagonistas e as possibilitou fazer o que quisessem dentro do mundo liberal do conservador, o que naturalmente gerou imensas oportunidades para a comédia, tratadas de forma quase experimental pela dezena de roteiristas que compõem a história, mas que, incrivelmente, alcançaram uma unidade pela noção que o cineasta tinha com o valor da mistura, conseguindo direcioná-las sobre um ponto que não anulasse a estética chamativa para o tipo de público que a própria ação é construída. O girl power adentra naquele universo com naturalidade diante das situações inusitadas criadas, pois as garotas são tão bem resolvidas que conseguem facilmente manipular o universo masculino ao seu redor para cumprirem as missões e ainda ostentam essa vitória com base no que o exercício de gênero permite, e como dito, até busca para fornecer o escapismo.

O mais interessante é que se por um lado os outros filmes parecidos buscam esse fenômeno espetaculoso da ação como forma de não se levarem a sério, no fundo quando os feitos extraordinários são feitos, eles são levados ao final a um grau de importância reafirmativa, uma masculinidade frágil que precisa mostrar “olha como ele é badass”, o que não ocorre aqui. A presunção das personagens de já tratar o problema como praticamente resolvido é o que faz o filme não se levar a sério, quando elas conseguem o que querem, isso é levado para o ordinário da fantasia em que as mulheres podem fazer o que quiserem, inclusive quebrarem as leis da física. É verdade que isso deixa a narrativa de espionagem desproporcional em desafios e ora facilitada em demasia, contudo, isso faz parte da estrutura “gameficada” da história, que consta em uma série de novas fases e novas missões a serem cumpridas em ritmo episódico, mas que no fim levarão a batalhas contra “chefes” e uma problemática maior que ironicamente também envolve o “chefe” delas.

Inclusive, esse é um ponto controverso da própria ideia que proponho, pois, no fim de tudo, as três são quase prostitutas de uma espécie de cafetão da espionagem, os “anjos” de Charlie. Como o filme é escrito por homens, seria bem fácil idealizá-lo também como uma espécie de fetiche masculino de ter três mulheres invencíveis à disposição para resolverem seus problemas. Mesmo assim, ninguém nunca de fato vê o Charlie, e digo que isso não só faz parte de um ideal clichê de espionagem, do superchefe que nunca é visto por ninguém, como também é um disfarce do próprio filme para poder levantar sua bandeira sem ressentimentos. Em outras palavras, o Charlie pode ser mais um manipulado por elas, só que metalinguisticamente, como se ele só estivesse ali para que o projeto conseguisse ser na época um blockbuster de grande acesso, mesmo com seu teor politicamente incorreto e “esquentado” com mulheres o protagonizando. Considerando a bagunça da produção, isso vai ser mais levado em consideração a depender da vista atual do impacto que o filme causou ou como ele se comporta hoje.

McG sempre foi um cineasta subestimado por ter uma ideia mercadológica escancaradamente galhofa e inconsequente, representando vários dos comentários mais comuns das críticas hollywoodianas, mas observando sua filmografia, os próprios clichês que ele utiliza para conseguir vender o filme são tratados como deboche por ele mesmo, e isso é perceptível quando ele veio a trabalhar fora do cinema com a Netflix em A Babá, tanto que foi seu filme mais elogiado pela crítica. Contudo, acredito que essa ousadia sempre esteve presente em sua autoridade e teve seu melhor momento quando parecia uma experimentação, em seu primeiro filme, que é justamente esse. Além de propor um divertimento fácil e bastante acessível, ele criou toda uma identidade marcante pautada numa mistura de contrastes, tanto de gêneros cinematográficos, como ação, espionagem, artes marciais e suspense, quanto de ideologias, sendo banal e representativo com a mesma eficiência. É mais do que um filme carismático com personagens marcantes, ou uma mera adaptação de um seriado de TV com ótimas participações especiais. É um cinema que abraça, muda e se diverte com seu estereótipo de forma inteligentemente aleatória, que precisa o quanto antes ser revisitado com outros olhos.

As Panteras (Charlie’s Angels, EUA – 2000)
Direção: McG
Roteiro: Akiva Goldsman, Ed Solomon, John August, Mitch Glazer, Robert Harling, Ryan Rowe
Elenco: Cameron Diaz, Drew Barrymore, Lucy Liu, Bill Murray, Sam Rockwell, Kelly Lynch, Tim Curry, Crispin Glover, Matt LeBlanc, LL Cool J, Tom Green, Luke Wilson, Sean Whalen, Alex Trebek, Melissa McCarthy
Duração: 98min

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.