Crítica | As Panteras (2019)

Ao longo do tempo, a franquia As Panteras sempre incomodou de alguma forma a crítica e o próprio público, seja na TV ou nos dois filmes idealizados por McG. Acontece que ela nunca teve a oportunidade de cair em mãos femininas, então sempre foi facilmente rotulada com uma visão masculina e sexualizada de mulheres empoderadas. Em parte, é inegável que esse rótulo não tenha um pouco de verdade no fundo, já que elas passaram por dezenas de escritores homens e bem poucas mulheres, sendo Marianne Wibberley a única que fez parte do time de cinco roteiristas do segundo filme com Cameron Diaz. Então, só o fato de que pela primeira vez toda a concepção do universo das espiãs passaria por um olhar completamente feminino já justificava a ideia do reboot.

O desafio de Elizabeth Banks, responsável pela retomada na direção e roteiro, era como fazer isso tendo em vista o histórico de público predominantemente masculino da franquia, e, ao mesmo tempo, considerar o atual contexto de maior diversidade de gênero para apresentar a identidade cafona e as novas personagens para um novo público que pretende e deve levar em conta o cenário mais feminino. É um terreno de muitos riscos que requeria uma organização bem cuidadosa na passagem de bastões e na mudança da identidade de forma gradual e coerente. Para isso, adentra-se numa mistura que vem ficando comum e muito eficiente no restabelecimento de diversas franquias, que é dar uma continuação às histórias anteriores por meio de novas personagens que ampliam as funcionalidades do universo anterior, ou seja, têm suas características anteriores, só que remodeladas para o contexto atual.

O Despertar da Força, Mad Max: Estrada da Fúria e o mais recente Exterminador do Futuro são alguns dos exemplos que provam o quanto ela é eficiente no sentido de que cada franquia pode articular de seu próprio jeito o processo de modernização de conceitos, mas todas vão buscar expositivamente o girl power como fonte renovadora de público. Nesse caso, era um pouco mais complicado porque poderia significar um abandono completo do politicamente incorreto que permitia muitos horizontes da comédia anteriormente e, de fato, esse é um dos grandes pecados da renovação, já que ele quer sim ser mais limpa, realista, formalista e até dramática. O que não são propriamente escolhas ruins, mas sim limitadoras do ponto de vista de gênero.

Na ação, o roteiro facilita ou dificulta quando quer, mas nunca se permite exagerar demais ou pisar na seriedade com mais consequências, até por conta da classificação indicativa. Em alguns momentos, flerta com a galhofa ou essa tal seriedade, apresentando riscos reais às personagens e, em ambos os casos, ficam ligeiramente empolgantes, mas passa muito rápido pela pouca habilidade de Banks na hora de conduzi-los em câmera, apelando àquela lógica de sucessão frenética de cortes que dificulta o entendimento geográfico do que está acontecendo. Sem contar que se abandona a identidade gamificada da sucessão de desafios, mas ao menos isso é condizente com a proposta mais ligada de fato com a espionagem, na montagem daquelas tramas complexas de traições e interesses girando em torno de artefatos tecnológicos ou documentos específicos dos quais uma gama de gente está correndo atrás.

No humor, fica genérico pela inserção de piadas prontas e trocadilhos referenciais aleatórios; falta a comédia mais situacional que os anteriores criavam, principalmente quando colocavam homens para ser facilmente enganados e manipulados pelas protagonistas para uma missão, algo que acontece em um ou outro momento criativo no início, mas assim como a ação, dura pouco. Essa questão de durabilidade tem muito a ver com a distribuição dos núcleos da trama, que gasta um bom tempo apostando na dinâmica de uma novata com duas experientes em conflito. Naomi Scott é os olhos do novo público, sua personagem Elena é uma mulher inteligente que se vê envolvida na teia de intrigas da organização de Charlie, despertando interesse como nova recruta. Assim, o funcionamento do universo é passado para ela didaticamente, bem como para o espectador. Enquanto as outras duas, Sabina e Jane, Kristen Stewart e Ella Balinska respectivamente, buscam reconectar-se diante de uma missão recente que falhou, fonte da principal seriedade dramática do filme.

Como muito tempo é gasto nessas vertentes, até para desenvolvê-las com cuidado e prover a renovação da franquia, pouco sobra para aproveitar de fato a dinâmica das três em conjunto na aventura, que mistura a ação com comédia. Mesmo que elas passem bastante tempo juntas, a proposta de ser ainda uma equipe em formação não é tão habilidosa quanto seria se essa etapa tivesse sido pulada. É aquela síndrome do cansaço de filmes de origem, que, mesmo que seja compreensível diante do histórico a ser considerado, é um jogo seguro que mais empolga para uma continuidade do que quando está realmente acontecendo. Porque as três quando juntas são ótimas, têm química e personalidades distintas bem características que se complementam e podem ser pilares para uma nova sequência de filmes mais promissora, já que não terá essa preocupação de arrumar a casa para os convidados.

Nisso, todo o desenvolvimento e tempo gasto garantem e conseguem o objetivo da modernização, confirmando o que já podia ser deduzido no clássico, de que Charlie só era um disfarce para prover um empoderamento que felizmente pode ser sobreposto com mais naturalidade no exercício de gênero. Uma pena que Banks tenha se preocupado tanto com essa parte que esqueceu de prover o tal exercício com mais entusiasmo, o que, infelizmente, já pode ser motivo de chacota nas bilheterias num mundo cinéfilo que só busca novas obras-primas para sustentar o rótulo de que “não se fazem mais filmes como antigamente” e com diversos desqualificadores de importância representativa que usam as fragilidades de um filme para disfarçar a hostilidade de seu discurso. Não que o contrário esteja sendo feito, não é um grande filme e dificilmente será icônico como os anteriores, mas ele não precisa ser para justificar sua importância. É um bom primeiro passo que pode ir além, e tomara que vá, porque quantitativamente ainda há um longo caminho a percorrer até a igualdade natural de protagonismo entre gêneros.

As Panteras (Charlie’s Angels, EUA – 2019)
Direção: Elizabeth Banks
Roteiro: Elizabeth Banks (baseado em história de Evan Spiliotopoulos e David Auburn e em série de TV criada por Ivan Goff e Ben Roberts)
Elenco: Kristen Stewart, Naomi Scott, Ella Balinska, Elizabeth Banks, Patrick Stewart, Djimon Hounso, Sam Claflin, Jonathan Tucker, Nat Faxon, Chris Pang, Luis Gerardo Méndez, Noah Centineo, David Schütter
Duração: 118min

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.