A História pode, em linhas gerais, ser ensinada de duas formas bem diferentes: uma como disciplina cansativa que afasta os alunos com o acúmulo de nomes, datas e eventos desconectados, e outra como um campo de conhecimento vivo, que ilumina o presente ao explicar os processos de longa duração que moldaram as sociedades. O professor Jaime Pinsky sempre escolheu o segundo caminho, e As Primeiras Civilizações é um exemplo disso. Aqui, o autor transforma o estudo das sociedades mesopotâmica, egípcia e hebraica numa leitura acessível que não cai na superficialidade. Publicado originalmente em 1987 e posteriormente relançado pela Editora Contexto (eu li esta versão revisada pelo autor em 2001), o livro tornou-se referência para quem deseja uma introdução sólida ao Oriente Próximo antigo, ultrapassando ao longo dos anos a marca de 50.000 exemplares vendidos e mantendo-se relevante em sucessivas e revisadas reedições. Assim como A Escravidão no Brasil (1981), As Primeiras Civilizações toma um caminho introdutório muito interessante, equilibrando síntese e profundidade numa proposta que reconhece seus limites, mas não abre mão de análises consistentes.
Diferente do livro sobre os escravizados no Brasil, porém, o escopo analítico aqui é muito maior, mesmo explorando “apenas” três grandes civilizações, como eu já citei, Mesopotâmia, Egito Antigo e Hebreus. Pinsky não transforma seu texto numa sucessão cronológica de reis, guerras e tratados, preferindo examinar as estruturas sociais, econômicas e culturais que permitiram o florescimento dessas sociedades ao redor dos grandes rios do Oriente Próximo. O rigor analítico do autor é aplaudível, especialmente quando ele contextualiza o uso de certas expressões históricas consagradas, fornecendo bom contexto para utilização de certos nomes, frases como “O Egito é uma dádiva do Nilo” e periodização, evitando que o leitor repita fórmulas vazias e preconceitos sem compreender seus significados dentro das dinâmicas hidráulicas e agrícolas que sustentavam aquelas civilizações. Pode-se questionar que o início da obra “perca tempo demais” numa introdução que faz um apanhado sobre a origem da nossa espécie e as discussões diretas em torno disso, mas penso que é um bloco necessário para o livro, servindo de base para que se entenda a essência do que será discutido depois: a própria aplicação da palavra civilização.
Pinsky dá uma boa atenção à forma como se exerce o poder e o controle social, mostrando como a religião, a burocracia e a guerra se entrelaçavam para manter as estruturas de dominação (e, de novo, não é algo que ficou apenas no passado). No Egito, o faraó não era apenas um governante, mas uma divindade viva que encarnava a própria ordem cósmica; na Mesopotâmia, as cidades-estados competiam entre si sob a proteção de diferentes divindades; entre os hebreus, a relação com Yahweh criou uma identidade cultural que sobreviveu a diásporas, dominações e tentativas de aniquilamento. Essas diferenças são exploradas com clareza e bom aparato crítico ao longo do livro, não ficando apenas no fato bruto, mas fazendo com que o leitor entenda o processo e suas consequências. Mapas, cronologias, fotos, esquemas (desenhos) e excertos de fontes primárias enriquecem a narrativa sem transformá-la num amontoado de informações desconexas, algo comum em obras didáticas que tentam abraçar demais e acabam não aprofundando nada.
Gostei bastante da utilização do espaço final para responder algumas perguntas que talvez sejam ingratas para os historiadores. Há aí uma preocupação pedagógica do autor em não deixar pontas soltas. Questões sobre determinismo geográfico, sobre a validade de comparações entre culturas antigas e modernas, sobre os limites da documentação arqueológica e escrita são respondidas com honestidade intelectual e clara percepção de “pegadinhas” temáticas. Pinsky não finge ter respostas definitivas, mas também não se esconde atrás de relativismos. Até onde se espera, o livro avança com sua abordagem introdutória, mas o leitor não deve esperar muita coisa além disso; o próprio autor faz comentários nesse sentido, sempre indicando que se busque ampliar o conhecimento a partir da bibliografia. Livros como este são uma excelente ferramenta de divulgação histórica de qualidade, uma obra que não emburrece o leitor com análises falsas ou viciadas, e que sabe muito bem como gerar curiosidade a partir do básico bem feito. Na era dos infames “guias politicamente incorretos“, uma obra clássica [e revisada!] como As Primeiras Civilizações cumpre uma função essencial ao equipar leitores com ferramentas conceituais para pensar criticamente sobre origens, processos de mudança e permanências culturais que atravessam milênios e ainda hoje podem ser vistas nas identidades, nos conflitos e nas visões de mundo dos povos e nações.
As Primeiras Civilizações (Brasil, 1987)
Coleção: Repensando a História
Autor: Jaime Pinsky
Edição lida para esta crítica: Editora Contexto (25ª Edição, 1ª reimpressão, 2012)
128 páginas
