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Crítica | As Primeiras Histórias de Amor

por César Barzine
209 views (a partir de agosto de 2020)

A maior ‘bundamolice já vista em forma de cinema, As Primeiras Histórias de Amor é uma novela que, por algum erro grotesco, acabou virando filme. E pior: um filme-novela teen. Tendo tudo sendo carregado do modo mais forçado e precário possível. Nem para a produção tentar se levar um pouco menos a sério – prática quase inevitável na abordagem funcional de filmes teen – e, assim, dar ao espectador um alívio a toda pieguice que é colocada em ação. Diante disso, a impressão dada é que quando o longa tenta ser de comédia acaba sendo dramático, e quando tenta ser um drama torna-se uma comédia.

A fim de enfatizar o tom de pertencimento dentre uma turma de amigos adolescentes que passam o verão numa pequena vila da Coreia do Sul, a trama decide utilizar-se do regresso ao passado (1991) ao mostrar as lembranças de um funcionário de uma rádio, montando o filme por um longo flashback. Neste ponto, encontra-se um problema, que é a reconstituição de época extremamente pobre e irregular. De início, é feito o uso da íntima ligação da personagem Song com a música, porém logo depois do primeiro ato é abandonado essa abordagem que era até então importante para a narrativa. Importante, pois, o papel da música – integrada por clichês dos anos 1970 e 1980, como A-ha e Kansas – ia além de ser apenas a trilha sonora. A música demonstrava os sonhos de Song para com o seu futuro – a adolescente aspirava ser locutora de rádio -, e era também um instrumento de união entre seus amigos – como é visto na sequência da ilha.

Essa passagem é justamente a que caracteriza a força da amizade deles de forma mais clara, mas o que era para ser um sereno conjunto de momentos doces acaba virando uma enxurrada de declarações e brincadeiras pé no saco que, mesmo ainda em seu início, já estragam o filme por completo. Os personagens se comportam como verdadeiras crianças, com diálogos tão constrangedores que chegam a fazer com que o espectador questione o nível cognitivo daqueles jovens. Nesta sequência ocorre uma reunião em que eles refletem e festejam a vida com doses de melancolia, o que vira uma forçação de barra muito frustrada, digna dos mais caricatos clichês de dramas adolescentes.

Porém, o maior problema – e que se estende até o final – é que essa pegada não se encontra somente nas temáticas que o roteiro toca; como já dito, o tom de As Primeiras Histórias de Amor é desconcertante, fazendo de dramas afetivos algo cômico. Poderia ser apenas uma novelinha adolescente medíocre, mas fica parecendo meio que um programa infantil do Disney Junior cheio de brincadeiras e lições de moral. Situações clichês podem funcionar se forem bem trabalhadas, mas aqui o que já é um lugar-comum frequentemente se aproxima do nonsense na medida que os personagens se expressam da forma mais didática possível. 

A narrativa parece buscar algum naturalismo, mas sempre se mantém presa ao esquematismo de seus acontecimentos. Praticamente tudo que ocorre no roteiro indica que o filme seja nada mais que uma obra pré-programada de tão genérica: o passeio rebelde do grupinho sem a ciência dos pais, o isolamento na ilha como uma manifestação pseudoexistencialista para a reflexão juvenil, o romance platônico de Song pelo médico da comunidade, o ciúme de um de seus amigos, os conflitos entre gerações, o festival de música vencido (claro) por Song, o luto por sua mãe ainda vivido por ela – tudo isso aponta para um trabalho projetado no piloto automático, cujo comando nada mais é do que uma reembalagem de conceitos que tanto já vimos em produções ocidentais.

Seria, então, As Primeiras Histórias de Amor uma Malhação sul-coreana? A resposta com certeza é negativa, pois a soap opera da Globo pelo menos não é tão homogênea e nem água com açúcar como este filme. O nível de sentimentalismo injetado aqui é mais jocoso que qualquer melodrama barato, dando destaque ao ciúme raivoso de um dos jovens por Song e o médico local, o que desencadeia em algumas brigas bobinhas. Aliás, brigas bobas são o que não faltam dentro deste filme, pois quando os personagens não estão se pegando emocionante, eles estão imersos em agressões físicas ou verbais – e os diálogos desses confrontos se assemelham aos que qualquer um teve em bate-bocas de quinta série.

Mas o filme também tem espaço para um pouco de humor – o que, neste caso, apesar do que foi dito no início, acaba não sendo algo bom. Na primeira metade do longa, quando ele ainda não fica tão “sério”, é feito o uso daquelas piadinhas irônicas tão comuns em seriados (principalmente os infantis). O personagem diz uma coisa e, imediatamente, ele (ou outra pessoa ao seu redor) faz outra. Poderia muito bem funcionar aqui – se caso fosse um seriado infantil; o que, em certo ponto, até parece ser. Outros momentos de humor (involuntário) são a sequência em que os personagens correm até uma competição musical para que Song consiga participar; e também, quando o irmão do responsável pela viagem a barco vai dar um corretivo nos amiguinhos dele pelo passeio ilícito que eles fizeram. Neste último caso, até há a tentativa voluntária de se fazer humor, o problema é que acaba parecendo mais um humor negro, já que a punição é o uso de palmatória no traseiro de todos os quatro.

Seja na comédia ou no drama, a obra de Lee Eun-Hee não deixa de ser um trabalho grotesco, mas fica ainda pior quando atinge a tragédia do final – no sentido literal e figurado da palavra. Song morre, e todo o luto por ela é uma variedade de momentos difíceis de engolir. A começar pela cena no fundo do mar, onde é feito o uso de um CGI bem capenga, em que os personagens debaixo d’água nem sequer parecem molhados. Os trechos seguintes repetem tudo que já vimos: mais brigas, muito choro, luto, humor (voluntário e involuntário),  conflito entre gerações… Parece até um resumo do resto do filme. Em outras palavras: um tormento.

Soonjung (Coreia do Sul, 2016)
Direção: Lee Eun-Hee
Roteiro: Lee Eun-Hee, Han Chang-Hoon
Elenco: Do Kyung-soo, Kim So-Hyun, Yeon Joon-seok, Lee Da-wit, Ju Da-Yeong, Bae Jang-Su, Park Hae-joon, Hwang Seok-jeong, Kim Hyeon-Ok
Duração: 113 minutos.

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