Crítica | As Rainhas da Torcida

“Você estava morrendo ontem e você vai estar morrendo na próxima semana. Enquanto isso, você deveria estar dançando a sua bunda.”

Diane Keaton retorna, após ser uma das protagonistas de Do Jeito Que Elas Querem, a estudar a velhice e também o feminino no cinema. A sua personagem, aqui, encarna uma mulher que sofre de câncer, mas que, ao invés de investir no tratamento à doença, opta por passar o resto de sua vida em uma casa de retiro. Lá, porém, a protagonista interpretada por Keaton, Martha, irá resistir um pouco até ceder à possibilidade de realmente aproveitar o que a resta. Estimulada por novas amizades, a mulher se permitirá, portanto, reviver o seu passado interrompido como cheerleader – no português, líder de torcida. O seu fim, assim, igualmente poderá ser chamado de jornada, parte de um intricado processo de renovação e aprendizado de Martha, não mais apenas esperando a morte. Com isso, o projeto tem nas mãos a conhecida narrativa em que, justo na melhor idade, se redescobre o experimentar. Curiosamente, ambas as obras que a atriz estrelou nesses dois últimos anos quebram tabus relacionados a como senhoras devem viver suas vidas. Mas enquanto o sexo, noutro caso, seria uma exploração bem mais provocante do assunto, As Rainhas da Torcida almeja uma redefinição mais meiga. Carismática pelas presenças das boas atrizes, a obra, no entanto, se complica por conta do seu roteiro, aprofundando os temas de uma maneira majoritariamente banal.

Em suma, o que se tem como premissa é a protagonista unindo forças com uma nova amiga sua, Sheryl (Jacki Weaver), com o intuito de recrutar o máximo de residentes da comunidade para criar um grupo de torcedoras. Em vista deste processo, a simplicidade do roteiro escrito por Zara Hayes e Shane Atkinson, ao menos quando só quer propor missões a essas personagens, é essencial. A única coisa que se visa, portanto, é o entretenimento, o usufruto de corpos que não estão mortos. No caso, as montagens de treinamento, sempre permeadas por alguma música que acompanha as cenas, colocam as tais senhoras para exercitarem os seus músculos, movendo-se bastante o tempo inteiro. Em meio a isso, Zara Hayes, que também comanda o longa, até torna-se um tanto repetitiva, mas os seus maiores méritos ainda residem na frontalidade com que os físicos de cada mulher são assumidos, sem vergonha alguma de quaisquer impedimentos que possam ter. Há até espaço, ademais, para uma conversa subjacente acerca da sexualidade dessas personagens, em cenas que exemplificam as possibilidades – e  vontades – muitas vezes subestimadas de pessoas idosas. O longa é um daqueles casos que estampa em suas cenas o quanto cada um dos artistas se entretiveram na produção. Nenhuma participante do grupo demonstra desconforto, porém, vigor.

Enquanto esse protagonismo compreende a mensagem com muita verdade, as temáticas centrais ainda sim terminam sendo tratadas de uma maneira rasa. Por se movimentar em meio a péssimas confrontações, a narrativa ora ou outra é interrompida por antagonismos também pobres. O roteiro os propõe sem muita noção, visto que a premissa perde prestígio consequentemente à inoperância de suas funções. Chega a ser caricato, por exemplo, o retrato das jovens cheerleaders, que de tão maquiavélicas que são, rindo do grupo de senhoras e as menosprezando, provavelmente agridem suas avós em casa. Bem mais interessante é uma das principais participantes do clube precisar ter que confrontar o seu filho, que controla as suas economias e a impede de participar do grupo. Mas se a preocupação de que acidentes podem acontecer soa mais sincera, a antagonização em si não articula isso, preferindo trazer um teor autoritário mais gratuito a esse personagem. Já a piada com o machismo de um dos maridos das senhoras é muito mais certeira. No geral, Hayes prefere criar, portanto, uma espécie de preconceito arquetípica, ao invés de abraçar as barreiras veladas que a sociedade margeia contra as pessoas mais velhas. No mais, a antagonização de uma residente da comunidade, Vicki (Celia Weson), novamente rasa, não possui, de concreto, motivação para existir.

E parece que todos os jovens odeiam gente idosa, com exceção da dupla de coadjuvantes, tão desnecessária quanto mal inserida à trama. A inconsistência é o que impera. Por exemplo, Alisha Boe tem um papel que a obriga ir de um estado de espírito a outro sem qualquer organicidade. Em contrapartida, o par amoroso que ganha, sem que exista real química, Charlie Tauhan, nem uma boa interpretação oferece. Entretanto, o modo como o longa revisita, em paralelo a isso, o arco pessoal de Martha, precisando combater uma doença tão grave quanto o câncer, é o que mais impede a obra de atingir um potencial emocional. Primeiro, a obra nunca permite esse seu aspecto respirar, ganhar um sustento dramático. Cada uma das interrupções na narrativa geradas por esta trama são, portanto, colocadas em um patamar maior de artificialidade: para se movimentar um confronto aos objetivos das personagens, em que a amiga de Martha, Sheryl, precisa se impor para ajudar a parceira, a questão é retomada abruptamente. Contudo, o roteiro é tão incongruente que caso os seus escritores tivessem mais sagacidade, poderiam antecipar um pouco esse drama em questão, logo no momento que o grupo sofre o seu primeiro baque. Como isso não acontece, Vicki consolida-se como uma antagonista inócua, porque as suas ações nada impactam tal enredo.

Mas ao passo que tantos problemas como esses são avistados, Pam Grier, Rhe PerlmanPhyllis SomervillePatricia FrenchCarol SuttonAlexandra FickenGinny MacColl compõem um elenco vasto de carisma, que permanece a oferecer um senso de conforto. Os “policiais” da comunidade, paralelamente, são outros grandes pontos positivos da comédia – Dorothy Steel principalmente, por protagonizar a cena mais engraçada da filme. Contudo, mesmo com essa simpatia graciosa permeando a obra, um ar genérico continua marcando exacerbada presença. Os extremos são atingidos, aliás, quando a única cena para pontuar a importância do cheerleading na vida dessas senhoras é uma conversa expositiva da personagem de Pam Grier com o seu marido. Parece que o roteiro elaborou, mas sem pensar em dar uma aura própria a si mesmo, toda uma estrutura conhecida, que filmes em que pessoas idosas experimentam a vida como se ainda fossem jovens costumam usar. Idosas vivendo uma terceira juventude, reunidas como animadoras de torcida que requebram os quadris, certamente afaga o coração de qualquer um que tenha um, mas independe de contextos. Aquele que a obra apresenta, no entanto, não funciona, embora não comprometa o quão inofensivo termina sendo o longa, apesar de inicialmente as intenções soarem mais ousadas.

As Rainhas da Torcida (Poms) – EUA, 2019
Direção: Zara Hayes
Roteiro: Zara Hayes, Shane Atkinson
Elenco: Diane Keaton, Jacki Weaver, Pam Grier, Charlie Tahan, Rhea Perlman, Alisha Boe, Bruce McGill, Celia Weston, Phyllis Somerville, Dorothy Steel, Patricia French, Carol Sutton, Alexandra Ficken, Ginny MacColl
Duração: 91 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.