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Crítica | As Travessuras de Uma Sereia

por Leonardo Campos
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Uma odisseia de exageros. Assim podemos definir parcialmente As Travessuras de Uma Sereia, comédia burlesca oriental sobre os obstáculos na vida amorosa de um ser humano e uma criatura mitológica com incumbência de cumprir uma missão importantíssima para seu povo. Dirigido e escrito por Stephen Chow, conhecido por suas narrativas cômicas e guiadas pelo ritmo vertiginoso, a produção nos conta uma história que envolve trapalhadas, cantos sedutores, relacionamentos humanos, avareza, dentre outros temas, trabalhados ao longo de seus 94 minutos. Com direção de fotografia intensa, comandada por Sung Fai Choi, responsável por empregar uma paleta de cores vibrantes, conforme o design de produção de Bruce Yu, a trama é um festival semiótico, tomado por elementos próprios da cultura pop que vão do kitsch aos processos de bricolagem e afins. Um tanto esquisito, repleto de atuações exageradas, música igualmente frenética, conduzida pela dupla formada por Fushua Huang e Wendyz Zheng. Para quem se permite levar pela viagem e está aberto ao consumo de estruturas narrativas que refletem de modo diferente determinados temas trabalhados exaustivamente pelos ocidentais, a aventura é um exercício interessante.

Em As Travessuras de Uma Sereia, Xuan (Choo Deng) é o proprietário de uma região litorânea na China, algo conquistado recentemente. Os projetos em torno do espaço podem ser viáveis para os seres humanos, mas colocam em risco a subsistência da vida marinha, em especial, os golfinhos, as sereias e os tritões que habitam o local, criaturas que estão adoecendo e morrendo por causa dos sonares que foram implantados para espantar os tais golfinhos, um recurso que literalmente explode os peixes e as demais espécies que por ali navegam. Diante da situação, a sereia Shan (Yun Lin) é enviada para a terra, tendo em vista mudar o projeto de Xuan e reverter o quadro de sobrevivência das espécies em questão. Infelizmente, neste processo, ela é caçada por uma organização criminosa oculta e como obviamente, o dono do empreendimento que deveria ser uma vítima acaba apaixonado por ela, temos a reversão das estruturas narrativas para a busca de redenção por parte de Xuan, homem cobiçado que se torna o herói da jovem.

Shan, a enviada para seduzir e aniquilar o ricaço acaba transformando a saga de revanche em romantismo, algo que promove uma série de desafios para todos os personagens envolvidos direta e indiretamente na história. Com sua nadadeira dividida ao meio, a sua forma de se locomover em terra, Shan é uma sereia jovem, mas muito esperta e antenada. Sua rival, Li Ruolan (Yugi Zhang), é um dos maiores obstáculos, pois na posição de interesse amoroso inicial de Xuan, a inescrupulosa ainda comanda um projeto para captura de sereias, algo que coloca a vida da recém-chegada em risco. Por ser um santuário, a propriedade que é motivo deste entrave não pode ser mexida, mas os envolvidos fazem de tudo para mudar a perspectiva ambientalista da região. E assim, Stephen Chow estabelece momentos de muito humor com algumas passagens tomadas por efeitos visuais, num misto de referências ao meio pop, base estrutural do desenvolvimento de As Travessuras de Uma Sereia, produção que não segue os mandamentos dos manuais dramatúrgicos da tradição ocidental, tendo então, alguns momentos que para nossa lógica, podem parecer estranhos. Ademais, no que concerne aos seus atributos estéticos, a comédia é parte dos esquemas do entretenimento massivo dominante, isto é, algo que reluz bastante, mas não é necessariamente algo valioso.

As Travessuras de Uma Sereia (Mei ren yu) — China, 2016
Direção: Stephen Chow
Roteiro: Hing-Ka Chan, Stephen Chow, Chi-Keung Fung, Miu-Kei Ho, Ivy Kong, Si-Cheun Lee, Zhengyu Lu, Kan-Cheung Tsang
Elenco: Chao Deng, Show Lo, Yuqi Zhang, Yun Lin, Hark Tsui, Zhang Wen, Kris Wu, Sheung-ching Lee
Duração: 94 min.

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