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Crítica | Asas do Desejo

por Marcelo Sobrinho
2150 views (a partir de agosto de 2020)

“Se o homem fosse um animal ou um anjo, não sentiria angústia. Mas, sendo uma síntese, angustia-se. E tanto mais sente a angústia, quanto mais humano for.”

Soren Kierkegaard, O Conceito de Angústia

Uma humanidade melancólica, despedaçada e em transformação. Anjos que colocam suas cabeças em seus ombros para ouvir seus lamentos e tentar lhes oferecer conforto e esperança para suportar os inúmeros acintes do mundo. Essa é a premissa de Asas do Desejo, tradução de gosto duvidoso para Der Himmel über Berlin (que significa literalmente Um Céu Sobre Berlim). Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são dois desses anjos que vagam sobre a estonteante e lúgubre Berlim do final dos anos 80, às vésperas da queda do Muro. Grandes espaços urbanos, filmados em plano zenital e com constante movimento de câmera, revelam o cenário onde os alemães tentam suportar a vida, em um momento histórico tão difícil e bem registrado pelas lentes de Wim Wenders em seu trabalho mais icônico.

Na abertura do filme, o anjo Damiel está no alto da Gedachtniskirche, famosa igreja berlinense bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e mantida em ruínas após o conflito, como símbolo histórico da cidade. A igreja ficou conhecida após a guerra também como kappute kirshe, isto é, igreja quebrada pela razão. Em um conhecidíssimo plongée, Damiel vê as pessoas transitarem na rua, avistado apenas pelas crianças, com seu olhar tão virginal para o mundo. O anjo que protagoniza Asas do Desejo olha a humanidade por sobre um de seus símbolos de destruição. Fica clara a antítese proposta: uma criatura etérea observa dos céus a humanidade, revelando sua vida mundana e sua imensa vocação para gerar dor e devastação.

Os anjos conhecem a humanidade em toda a sua dimensão epistemológica, isto é, são capazes de reconhecer suas dores mais profundas e de imaginar suas reações frente ao mundo que se coloca. Mas não são capazes de sentir suas aflições, suas alegrias e sua materialidade, presente no gosto de seu sangue, no odor azedo de um alimento, na sensação de frio e no simples toque de um objeto. Também não podem experimentar o amor, que Damiel começa a sentir por Marion (Solveig Dommartin), uma bela trapezista de circo. Em um conversa com seu companheiro Cassiel, o personagem de Bruno Ganz revela sua cobiça em se tornar um humano e poder experimentar seu mundo de incertezas ou, como ele mesmo diz, “poder achar em vez de saber”. Esse diálogo é um dos momentos mais interessantes de todo o filme, com grande poder filosófico ao tratar do encanto provocado pelo que há de mais prosaico na vida humana.

A relação entre os anjos de Wenders e os humanos é enriquecida por um excelente recurso do roteiro – o fluxo de consciência. Ele está presente na cena em que Damiel tenta aplacar o desespero de um homem acidentado, naquela em que Cassiel tenta evitar o suicídio de um rapaz, que pula do prédio, apesar dos esforços do anjo, entre tantas outras. O filme parece evocar a ideia de que as grandes angústias humanas não podem ser expressas linearmente, organizadas pela razão. Cabe então ao stream of consciousness, técnica usada em literatura por autores como o americano William Faulkner, o papel de fazer os pensamentos humanos serem ouvidos pelos anjos em sua forma mais genuína.

A relação dialética entre a intangibilidade e a materialidade, a eternidade e a efemeridade, o celestial e o mundano é o grande centro temático do filme de Wim Wenders. Para imprimir todos esses significados em sua obra, o diretor alemão utiliza-se de um dos mais belos trabalhos de câmera já alcançados na história do cinema. A cena em que Damiel e Cassiel estão na belíssima biblioteca de Berlim é um momento de altíssimo virtuosismo técnico de Wenders. Em um travelling de extrema elegância e quase incessante, passeamos por todo o local, enquanto as pessoas se dedicam aos estudos e à leitura, com os anjos ao seu lado. Essa cena, de enorme beleza, mostra os anjos como guardiões do saber. Aqui o mundo eterno dos anjos se imiscui ao mundo efêmero dos humanos, denotando que o saber é o grande modo com que os homens permanecem na posteridade, já que a eternidade lhes foi negada.

Imperdoável seria não comentar também sobre o que é, para mim, o melhor momento narrativo da obra. Os dois anjos conversam sobre a história da criação do homem, quando foi possível ouvir o seu primeiro grito e, por fim, surgiu o dom da fala. Dissertam também sobre o surgimento do primeiro conflito entre os homens e assim nascia a história das guerras. É fabuloso que eles estejam nesse momento sobre o rio Spree, ao lado do Muro de Berlim. Com a câmera parada, eles caminham com passos uniformes para perto do Muro, grande símbolo dos conflitos humanos naquele tempo e naquela cidade. Wenders desenvolve uma obra cheia de ideias, que dialogam constantemente com a construção estética de seu filme.

A cobiça de Damiel por se tornar humano é finalmente atendida e o anjo caído da eternidade surge, em mais uma ótima cena, nos braços de seu companheiro. Acorda, enfim, como homem e descobre a primeira dor humana ao ser atingido por um objeto. Experimenta do sangue que escorre de sua cabeça ferida e assim se descobre humano. Toma café e sente fome pela primeira vez e a câmera que o acompanha pelas ruas faz resplandecer um mundo inteiramente novo e cheio de frescor. A fotografia, até então em preto e branco, se transforma em um mundo cheio de cores e com todos os matizes que integram a vida terrena. E um desses tantos matizes é, certamente, o amor pela trapezista Marion. É interessante apontar que Damiel, ainda como anjo, contemplava Marion em contra-plongèe nas cenas do circo, em oposição ao ângulo de câmera que registrava seu olhar na abertura do filme.

O lindo diálogo que os dois constroem quando se encontram como humanos e a divagação final de Damiel me lembram uma das mais célebres pinturas do italiano Caravaggio, intitulada O Amor Vitorioso (Amor Vincit Omnia), de 1602. Na pintura, um anjo cupido aparece nu e vários objetos construídos pelo homem estão espalhados pelo chão. A pintura do mestre do barroco simboliza o triunfo do amor sobre todas as criações humanas, inclusive sobre toda a destruição provocada pelas guerras (simbolizadas na tela por armaduras). Damiel  experimenta na condição humana algo que outros anjos não ousaram saber. Ele descobre, em meio à profunda degradação da vida, o espanto incompreensível de se reconhecer no interior do outro. Para o anjo caído, permanece a dificuldade em nomear este sentimento ainda tão estranho. Mas Asas do Desejo, a obra-prima de Wim Wenders, não deixa dúvidas de que os humanos o chamam simplesmente de amor.

Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin) — Alemanha, 1987
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Peter Handke, Richard Reitinger, Win Wenders
Elenco: Bruno Ganz, Otto Sander, Solveig Dommartin, Curt Bois, Peter Falk
Duração: 127 min

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5 comentários

Fernando JG 28 de fevereiro de 2021 - 21:02

Reassisti ao filme hoje. Lembro-me de que assisti pela primeira vez numa sessão do cinema da minha faculdade e fiquei intrigado. Hoje, quase três anos depois, o assisti.
Se me permite algum comentário, direi que a sua crítica é um dos melhores textos sobre Asas do Desejo que eu já li. Achei um nível de análise muito profundo e exemplar. Ler você levantando questões sobre a filosofia da dor, com Kierkegaard, e assinalando o fluxo da consciência, junto da importância do amor, foi inigualável. Digo isso pois gosto muito do Wim Wenders, e este texto parece ter sido feito com tanto carinho, que não pude deixar de vir aqui prestigiar.
Algo que eu gosto muito no Wim Wenders é o fato de sempre refletir sobre o amor do ponto de vista da imanência, da interioridade, da necessidade, de uma pulsão quase destruidora. Lembro-me de que ele fez isso em Paris Texas, No Decurso do Tempo, todos filmes que expõe a fraqueza do homem diante do fenômeno amoroso.
Já que você comentou o seu melhor momento da obra, comentarei dois:
(1) o momento em que Damiel torna-se humano e o mundo colore-se para ele;
(2) e o momento em que ele está sentado no meio do parque, e então crianças vão cumprimentá-lo, perguntando o que ele está sentindo, e, então, ele diz: vazio.
Para mim, uma das grandes questões dentro do filme é a discussão sobre o poder do pathos. Todo o filme desenrola-se a partir do momento em que um anjo apaixona-se por uma mortal – e o amor performa como um sentimento tão primordialmente pulsante, agressivo, que um anjo sai do celestial, do infinito, da estabilidade, para poder saber como é se sentir amado, e como é amar alguém de modo genuíno, vivente. Parece-me que o preto e branco da fotografia, na minha leitura, serve para fazer a transição do momento em que o amor não existe dentro de Damiel, no sentido de paixão (e, então, tudo é preto e branco, cinzento), para o momento em que ele é flechado por cupido, momento em que ele é atingido pela violência da paixão, e então o mundo torna-se colorido, porque o amor age como uma força movente do ser humano. Barthes, no seu Fragmentos de um discurso amoroso, diz que quando se ama o mundo colore-se. É assim para Damiel também.Acho essa delicadeza temático-estética do Wim Wenders muito primorosa.
E o outro ponto é que, quando ele torna-se humano, ele passa a sentir um vazio extremo dentro de si, que é o vazio primordial, a falta primeira, a falta que nos move. Este vazio nunca será preenchido, porque a falta é um aspecto inerente de todo ser humano. Sem ela não há, simplesmente. Preencher o vazio é perder o sentido da busca, da vida, já que vivemos para buscar algo que não temos, e por isso sempre conseguimos novas coisas, por conta da falta. E é o sentimento de falta e de ausência, que o torna humano. Quando anjo, ele não sente a ausência, porque não lhe é necessário que a sinta. No momento em que a falta existe, então ele converte-se no homem mortal. Este último ponto da ausência como aspecto fundante do ser humano foi muito bem colocado por muitas pessoas, como o próprio Kierkegaard, o Schopenhauer durante toda a sua filosofia da dor, a própria Clarice Lispector… enfim.
Assim como o filme é uma obra-prima, o seu texto também o é. Obrigado por escrever sobre ele.
Abc.

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Camilo Lelis Ferreira da Silva 21 de agosto de 2018 - 08:13

Estive Pensando numa coisa: E se “DEATH NOTE” tivesse o estilo e enquadramento desse filme?

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Gabriel Carvalho 2 de dezembro de 2018 - 23:32

Mas tem.

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jv bcb 19 de junho de 2017 - 00:30

Esse filme é uma Obra Prima, poesia audiovisual, não é melhor que Paris Texas(um dos dez melhores filmes que já vi), mas não deixa de ser genial. A fotografia é linda, gostaria de saber qual o tipo de lente que eles usam para filmar a maioria das cenas, pois quase o campo de visão está todo em foco, normalmente para fazer isso se usa lentes grande angulares, mas essas lentes distorcem os cantos dos enquadramentos, o que não acontece aqui.

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Marcelo Sobrinho 25 de junho de 2017 - 12:26

Olá, @jvbcb:disqus ! Tecnicamente o filme é todo espetacular. Não tenho essa informação sobre a lente usada. Se você descobrir, poste aqui! Abraços!

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